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Um dos maiores lagos salgados do mundo esconde um reservatório de água doce.

Pessoas em barco no lago ao pôr do sol com equipamento geológico e caverna submersa exposta na margem.

Por fora, o Grande Lago Salgado parece só mais um símbolo da seca e da salinidade extrema do Oeste dos EUA. Mas, sob os sedimentos ressecados, pesquisadores conseguiram mapear uma enorme reserva de água doce que desce por vários quilômetros - um achado especialmente valioso numa região onde água é um recurso cada vez mais disputado.

O Grande Lago Salgado é um remanescente do lago Bonneville, um corpo d’água pré-histórico que um dia cobriu grande parte de Utah, Nevada e Idaho. Hoje ele ocupa cerca de 2.500 km², mas desde os anos 1980 sua área encolheu em mais da metade. Como Utah é muito árido, agricultores desviam os rios que o alimentam para irrigar lavouras, e a evaporação tem acelerado com o aquecimento global. A salinidade, que pode passar de dez vezes a dos oceanos, faz dele um dos ambientes aquáticos mais hostis dos Estados Unidos: praticamente só duas espécies animais resistem ali - uma pequena “camarão” primitivo (Artemia franciscana) e uma mosca (Ephydra hians).

À medida que o nível baixa, áreas que antes estavam submersas viram um tapete de poeira carregada de substâncias tóxicas como arsênio, chumbo, mercúrio e outros metais pesados, que o vento leva com frequência para Salt Lake City e arredores. Por isso, ele é visto como um lago em declínio e as autoridades ambientais o acompanham bem de perto.

Recentemente, ao sobrevoar a baía de Farmington, na margem sudeste do lago, em um helicóptero equipado com sensores eletromagnéticos, pesquisadores revelaram a existência de um imenso reservatório de água doce em profundidade. O estudo foi publicado em 27 de fevereiro de 2026 na revista Scientific Reports, e a própria equipe disse ter ficado desconcertada com a extensão dessa água subterrânea, que nunca havia sido detectada.

Sous le sel, de l’eau !

A técnica usada para localizar esse reservatório é conhecida como AEM (airborne electromagnetic). Ela funciona com um anel de sensores eletromagnéticos suspenso sob um helicóptero que sobrevoa a área de interesse. Conforme a aeronave avança, os sensores emitem campos eletromagnéticos em direção ao solo e analisam o sinal de retorno, que indica a condutividade elétrica das camadas subterrâneas. Quanto mais uma camada conduz eletricidade, mais salina ela é; quanto menos conduz, maior a presença de água doce. Ao mapear essas variações a partir do ar, os pesquisadores conseguiram identificar onde o reservatório começa e até onde ele se estende.

Sob o fundo do lago, o embasamento rochoso mergulha e dá lugar a uma bacia gigantesca preenchida por sedimentos saturados de água doce. Pelas estimativas da equipe, o reservatório pode chegar entre 3 e 4 km de profundidade e também avançaria muito além da área do lago, seguindo em direção ao interior da bacia de Farmington.

O que surpreendeu não foi a crosta de sal que se vê na superfície por toda a extensão da playa [nota do editor: área plana de um antigo lago seco]”, explica o hidrólogo Bill Johnson. “Foi o fato de o lençol de água doce logo abaixo se estender tão para dentro do lago - e talvez até sob o lago inteiro. Ainda não sabemos”, completa.

Agora, os pesquisadores buscam financiamento para novas campanhas de prospecção, com o objetivo de verificar se a bacia rochosa identificada sob a baía de Farmington continua até o centro do lago. Embora os dados iniciais apontem nessa direção, ainda não é possível confirmar com total certeza.

Se a hipótese de Bill Johnson estiver correta e a água doce se estender sob todo o lago, o reservatório poderia conter potencialmente várias centenas de km³ de água. Mesmo que isso não se confirme, os volumes ainda seriam suficientes para umedecer as áreas ressecadas cobertas por poeira tóxica e evitar que esse material se espalhe pela atmosfera. “Primeiro precisamos entender o papel positivo que essa água subterrânea exerce antes de começar a extraí-la em maior escala”, alerta Johnson. Afinal, ao tentar reduzir a contaminação local, não se pode desestabilizar o equilíbrio hidrológico do aquífero - o que, no fim das contas, seria repetir no subsolo o mesmo erro que levou o Grande Lago Salgado à situação atual.

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