Pular para o conteúdo

Test Fairbuds XL: um fone ecológico, reparável e com peças trocáveis – o que isso realmente significa?

Pessoa consertando fone de ouvido com peças e ferramenta sobre mesa de madeira em ambiente aconchegante.

O Fairbuds XL (2025) é um verdadeiro “objeto não identificado” no mercado de fones de ouvido - e é justamente essa estranheza que o torna relevante. A Fairphone não parece interessada em brigar, de igual para igual, com os gigantes da categoria; a aposta é entregar um headset suficientemente completo e, ao mesmo tempo, cutucar nossos hábitos como consumidores.

Entre os oito fones premium que testamos em 2025, o Fairbuds XL é, sem dúvida, o mais fora da curva. Basta olhar para o “elenco”: de um lado, o Bose QuietComfort Ultra (2ª geração) e o Sony WH‑1000XM6 disputam o posto de referência absoluta; do outro, a JBL com o Tour One M3 e a Nothing com seu primeiro Headphone (1) tentam mexer no mercado pela inovação. Em paralelo, o Px8 S2 da Bowers & Wilkins e o HE 1 da Sennheiser foram para um território ainda mais luxuoso e audiófilo.

No meio dessa armada, a Fairphone escolheu um caminho quase oposto. Assim como no recente Fairphone 6, a marca leva para o áudio a mesma promessa feita nos smartphones: oferecer um produto reparável, durável, mais cuidadoso com as condições de trabalho de quem fabrica e mais responsável com o planeta.

Depois do primeiro Fairbuds XL em 2023 e de uma passagem pelo segmento de intra-auriculares com os Fairphone TW, a empresa aproveita a corrida de compras do pré‑Natal para lançar uma nova iteração do seu headset. Mais do que um modelo “do zero”, o Fairbuds XL (2025) chega como uma atualização robusta: corrige fragilidades da primeira geração e empurra ainda mais a régua da durabilidade. No fundo, ele materializa a razão de existir da Fairphone: provar para consumidores - e também para concorrentes - que tecnologia durável não é contradição.

Um ponto que vale acrescentar (e que dialoga com o Brasil) é o quanto a reparabilidade muda o jogo para quem quer fugir do ciclo “quebrou, troca”. Em um mercado em que assistência autorizada nem sempre é acessível e peças costumam ser raras, a ideia de um fone pensado para manutenção simples pode reduzir custo total ao longo do tempo - desde que a marca consiga manter disponibilidade de componentes e suporte.

Também é uma escolha que conversa com o tema de resíduos eletrónicos: fones e headsets viraram itens descartáveis, principalmente quando bateria e almofadas se degradam. Um projeto modular tem potencial para prolongar o uso e diminuir descarte - desde que a experiência (software, app e conectividade) acompanhe essa ambição.

Construção ética, robusta e confortável

Avaliar a estética do Fairbuds XL (2025) exige colocar a filosofia do produto na balança. Por causa da abordagem modular, ele exibe um corpo mais “parrudo”, até um pouco bruto. E o peso confirma isso: 330 g.

Aceita essa premissa, a construção passa confiança. As conchas das orelhas usam plástico resistente, o arco (headband) dobra sem estalos e é revestido por um tecido em malha. Esse tecido está mais espesso do que no modelo de 2023, o que melhora o toque e, sobretudo, o conforto no topo da cabeça. O único senão: os ajustes do arco pedem um pouco mais de força para travar a posição.

Mesmo com uma massa acima da média da concorrência, a pressão na cabeça permanece bem controlada - e as almofadas em malha perfurada fazem diferença. Elas ventilam de verdade e diminuem a sensação de calor em sessões longas, uma evolução clara em relação ao primeiro Fairbuds XL.

E é justamente aqui que o Fairbuds XL (2025) dispara na frente no quesito ambiental. O arco leva 92% de alumínio reciclado, os plásticos passam de 80% de conteúdo reciclado, e os ímanes usam 100% de terras raras recicladas. Além disso, os metais preciosos (cobre, prata e ouro) vêm de fontes certificadas de comércio justo.

A coerência se estende à embalagem, toda em papel, e ao estojo de transporte macio em nylon 100% reciclado. É verdade que essa bolsinha não é a mais protetora do mundo e que não vem cabo USB‑C na caixa. Ainda assim, é difícil chamar isso de problema grave: o projeto de materiais se mantém consistente do começo ao fim.

Ergonomia excelente e conectividade suficiente (mas o Fairbuds XL (2025) fica devendo)

Como toque capacitivo e modularidade raramente combinam, a Fairphone manteve o esquema de comandos - e acertou em cheio. Os controlos são fáceis de achar e funcionam de forma intuitiva. No estilo da Marshall, quase tudo acontece por um joystick clicável: um clique para play/pause, movimentos horizontais e verticais para volume e avanço/retrocesso.

Para completar, um pressionar longo liga o fone e inicia o emparelhamento. O segundo botão alterna os modos de audição: normal, redução de ruído e modo transparência.

Em conectividade, ele entrega o essencial. O Bluetooth 5.1 mostrou boa estabilidade e traz multiponto. Além disso, para lá de AAC e SBC, há suporte a aptX HD e também reprodução via USB‑C.

O problema é que, mesmo sendo uma atualização, essa base não avançou praticamente nada. Dá para relevar a ausência de Bluetooth 5.3 ou LE Audio, mas outras faltas pesam mais: não há deteção de uso (wear detection), nem desligamento automático, nem emparelhamento rápido. Em iPhone, a ligação pode ser mais chata do que deveria, com o headset nem sempre sendo reconhecido corretamente pela aplicação.

A aplicação, aliás, também ficou parada no tempo. Fora a visualização de bateria, atualizações de firmware e um equalizador com cinco predefinições, ela oferece pouco. Existe um atalho para peças de reposição, mas na prática ele só manda para o site da Fairphone - algo que qualquer pessoa encontra numa pesquisa. Para um produto que cobra proposta premium, essa pobreza de recursos é difícil de defender.

Som mais equilibrado - ainda com limitações nos agudos

No Fairbuds XL de 2023, um dos maiores tropeços era a assinatura sonora desequilibrada: agudos com picos imprevisíveis e um buraco excessivo nos médio‑agudos.

A Fairphone levou esse feedback a sério. O centro desta revisão está em novos drivers dinâmicos de 40 mm com ímanes N52 mais fortes. Isso melhora a excursão do diafragma e ajuda a reduzir distorção. Além disso, a membrana do diafragma usa papel parcialmente. Em comparação com membranas sintéticas típicas, o papel tende a amortecer melhor e entregar ataques mais definidos - uma forma de controlar com mais rigor a resposta nas frequências altas.

Na prática, a nova base acústica é bem mais competente. A curva fica mais nivelada, com maior neutralidade e menos fadiga. Mesmo em faixas mais agressivas, o grave não “incha” nem engole o resto. Quem está habituado a graves mais enfatizados pode estranhar no começo; com o tempo, essa suavidade ganha charme e abre espaço para médios mais naturais - especialmente em vozes femininas.

Já os agudos deixaram de ser caóticos, mas ainda não alcançam o mesmo nível das outras bandas. A boa notícia: o Fairbuds XL (2025) não é mais um fone agressivo. A má: faltam detalhes no topo, o que pode deixar estilos como jazz acústico e blues com uma camada de “véu”. Soma-se a isso uma separação de instrumentos que continua modesta, reduzindo a sensação de imersão.

Redução de ruído continua boa; chamadas seguem instáveis

No papel, a versão 2025 não promete grandes revoluções: permanecem seis microfones, e a marca fala sobretudo em ajustes de calibração por software. Felizmente, o Fairbuds XL (2025) mantém o que já funcionava: uma isolação passiva competente, que segura bem sons agudos e repentinos.

Na rua, o ruído de trânsito cai o suficiente para evitar subir demais o volume. Para dar uma noção concreta, testamos a redução de ruído numa situação pouco comum: durante uma partida de futebol no Parc des Princes.

Lá, os cânticos das torcidas de Boulogne‑Auteuil - um “muro” grave e constante - ficaram, em grande parte, no fundo. Não é perfeito, mas é muito bom para a faixa de preço. Os médio‑agudos ainda são o elo mais frágil, o que não chega a ser escandaloso aqui; na prática, vozes próximas ainda tendem a passar.

O modo transparência praticamente não evoluiu. Continuar uma conversa com pessoas por perto ainda é complicado, em especial porque os agudos mal reproduzidos deixam as vozes abafadas. Pelo lado positivo, o modo ajuda pelo menos na perceção espacial (noção de ambiente e direção dos sons).

Em chamadas, o desempenho oscila. Num ambiente silencioso, como um escritório, dá para conversar mantendo o headset. Quando o barulho ao redor sobe, a coisa desanda: os microfones reagem mal a variações bruscas, surgem artefactos e quedas de captação. Em mais de uma ocasião, a solução foi desligar o Bluetooth e voltar a falar pelo telefone - o que diz muito.

Autonomia feita para durar (e carregamento que não empolga)

Por ser maior do que uma bateria colada “tradicional”, a bateria do Fairbuds XL (2025) promete cerca de 30 horas com redução de ruído ativa.

No uso real do nosso teste (ANC ligado, volume por volta de 60%, codec AAC e algumas chamadas), ele não bateu a promessa, mas chegou perto: ficou na casa de 28 horas. É um resultado digno, embora não impressionante - e o aptX HD ainda reduz essa autonomia em mais algumas horas. A grande vantagem, porém, é estrutural: como a bateria pode ser substituída, o fone não fica condenado a perder autonomia de forma inevitável com o passar dos anos.

O contraponto é que o carregamento é lento, o que tira pontos na conveniência do dia a dia, especialmente para quem costuma “recarregar em pequenos intervalos”.

Modularidade, reparo fácil e evolução por peças

Enquanto a maioria dos fones premium se limita, quando muito, a vender um par de almofadas extra, a Fairphone leva a modularidade bem mais longe. Pelo que sabemos, fora a dinamarquesa AiAiAi, poucas marcas de consumo vão tão fundo - e certamente não com um catálogo tão amplo.

Na prática, a Fairphone lista mais de uma dezena de peças de reposição, incluindo: - Altifalante esquerdo (61,95 €) e direito (39,95 €) - Cabo interno (14,95 €) - Bateria (19,95 €) - Arco completo (19,95 €) - Base do arco (19,95 €) - Capa do arco (19,95 €) - Almofadas em tecido ou “couro” sintético (14,95 € o par) - Tampas das conchas (5,95 €)

Em outras palavras: quase tudo pode ser trocado sem precisar comprar outro headset inteiro.

E reparar é simples de verdade. Basta uma chave Phillips pequena, e a Fairphone disponibiliza guias detalhados com esquemas e vídeos passo a passo. Não é o tipo de manutenção que exige experiência de “faz‑tudo”.

Há ainda um detalhe decisivo: os novos altifalantes do Fairbuds XL (2025) também podem ser instalados no Fairbuds XL de 2023. Ou seja, além de reparável, o fone é evolutivo. Quando surgir uma próxima geração, há a possibilidade de atualizar a parte de áudio sem trocar o produto inteiro.

Isso contrasta com a lógica de alguns smartphones da própria Fairphone, em que a modularidade serve mais para substituir peças por equivalentes idênticos. Para muita gente, manter o mesmo processador (SoC) ou ecrã por dez anos é pouco realista. Com este headset, a proposta soa mais coerente: ser reparável e, ao mesmo tempo, ganhar desempenho ao longo do tempo.

Vale colocar o Fairbuds XL (2025) debaixo da árvore?

Somando os pontos, o Fairbuds XL (2025) chega mais convincente do que o antecessor. Em áudio, a evolução é clara: o que era mediano em 2023 vira, em 2025, um produto com bom potencial. Some-se a isso mais conforto, redução de ruído competente, autonomia correta e uma ergonomia muito bem resolvida.

O dilema aparece no preço: 249 €. Nessa faixa, começam a surgir opções fortes da Bose, Sony e JBL - muitas vezes de gerações anteriores, mas com fichas técnicas, no geral, mais completas.

Então, tirando o “gesto militante”, a conta fecha? No uso quotidiano, um bom headset de marca grande costuma durar entre três e cinco anos. Nesse intervalo, a bateria degrada, o arco sofre e, no fim, muita gente compra outro. Foi exatamente o que aconteceu com um Sony WH‑1000XM3 comprado em 2018: após quatro anos de bons serviços, ele acabou numa gaveta, não por estar “morto”, mas porque a bateria era impossível de trocar. A promessa do Fairbuds XL (2025) é oposta: aguentar algo como oito a dez anos.

Quando se dilui o custo por ano - incluindo o headset e algumas peças de reposição - o custo de uso pode acabar menor do que o de um modelo tradicional trocado com mais frequência. E, de quebra, você reduz lixo eletrónico, apoia uma cadeia de produção mais justa e ainda ganha a possibilidade de melhorar o áudio no meio do caminho. Só fica a torcida para a Fairphone não esquecer o ponto-chave: durabilidade de hardware só vale de verdade se a durabilidade de software acompanhar. E, olhando para a aplicação e o ecossistema do produto, ainda há um caminho claro de evolução.


Fairbuds XL (2025) - 249 €

Nota geral: 8,2

Critério Nota
Design, durabilidade e conforto 9,5/10
Ergonomia, conectividade e aplicação 7,0/10
Qualidade de áudio 7,5/10
Autonomia 8,0/10
Relação qualidade-preço 9,0/10

Pontos positivos

  • Projeto eco-responsável, reparável, modular e evolutivo
  • Ergonomia bem pensada
  • Qualidade sonora em clara evolução
  • Redução de ruído competente
  • Autonomia boa

Pontos negativos

  • Aplicação pobre em recursos
  • Conectividade sem evolução desde 2023
  • Qualidade de chamadas ainda problemática
  • Carregamento lento

Assine o CyberGhost

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário