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Bruxelas quer criar uma cota de cigarros por país na UE; França aprova.

Pessoa pegando um cigarro em pote sobre mesa com folhas secas e homem ao fundo em sala de reunião.

Bruxelas quer implementar cotas de cigarros para cada país da União Europeia (UE) - uma ideia que a França apoia e já endossou politicamente. A meta é clara: conter as compras transfronteiriças que drenam bilhões das contas públicas.

Depois da proibição de fumar em muitos espaços públicos a partir do verão de 2025, a Assembleia Nacional francesa aprovou uma resolução europeia que defende limitar o abastecimento de tabaco de cada Estado-membro ao seu consumo real.

O texto, apresentado pelo deputado Frédéric Valletoux (Horizons), ainda não tem efeito obrigatório. Trata-se, por enquanto, de um posicionamento político para influenciar as negociações que devem começar em Bruxelas no contexto da revisão da diretiva europeia sobre produtos do tabaco. Em outras palavras: Paris valida o princípio das cotas, mas a decisão final depende do nível europeu.

A resolução mira um problema de grande impacto fiscal. Uma parcela relevante do consumo interno não passa pela rede oficial de venda (como as tabacarias autorizadas), frequentemente por meio de compras em países vizinhos ou por canais paralelos. De acordo com um estudo financiado pela Direção-Geral das Alfândegas e Tributos Indiretos (DGDDI) e pela Missão Interministerial de Combate às Drogas e aos Comportamentos Aditivos (MILDECA), cerca de 17,7% do consumo francês ocorre fora do circuito legal tradicional. O efeito no orçamento é significativo: entre 2,8 e 5,8 bilhões de euros em perdas de arrecadação por ano.

O que a resolução propõe sobre cotas de cigarros na UE

Ao restringir o abastecimento de cada país ao nível do seu consumo real, os parlamentares esperam reduzir a margem para desvios - um tema especialmente sensível em regiões de fronteira, onde as diferenças de preço entre países são grandes.

Além de defender o princípio das cotas, a resolução aponta caminhos práticos. O primeiro é restabelecer limites de importação para pessoas físicas que comprem cigarros em outro Estado-membro. A intenção é evitar que discrepâncias de preços estimulem a circulação de volumes desproporcionais de tabaco fora do que as regras preveem.

Outro eixo do texto é a criação de um relatório anual independente para mensurar a dimensão efetiva dos mercados paralelos. A proposta é que esse documento substitua estimativas produzidas pela própria indústria do tabaco - frequentemente criticadas por falta de autonomia e credibilidade.

Na prática, o debate também toca na lógica do mercado único: quando impostos e preços variam muito entre países, cresce o incentivo para compras em massa em locais mais baratos. Por isso, além das cotas, tende a ganhar espaço a discussão sobre maior coordenação europeia de políticas fiscais e de controle, para reduzir oportunidades de arbitragem entre fronteiras.

Também entram no radar instrumentos complementares, como sistemas reforçados de rastreabilidade (“track and trace”) e inspeções mais focadas em rotas de contrabando. Embora a resolução se concentre em abastecimento e limites de importação, a implementação de qualquer modelo eficaz normalmente depende de fiscalização consistente e dados comparáveis entre países.

A indústria do tabaco reage com indignação

Nesse ponto, o Comitê Nacional de Combate ao Tabagismo (CNCT) elogiou a iniciativa. Em comunicado, seu presidente, o professor Yves Martinet, afirmou que os fabricantes de tabaco contribuem para alimentar mercados paralelos e que a entidade apoia integralmente a proposta por buscar pôr fim a esse tipo de prática.

Como era de se esperar, o setor afetado não recebeu a medida com entusiasmo. Para a Imperial Brands Seita - fabricante de marcas como Gauloises e Winston - a iniciativa ameaçaria uma cadeia produtiva geradora de empregos, destacando que mais de 108 mil pessoas trabalham direta ou indiretamente no setor de tabaco na França.

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