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Cientistas ligam bactérias intestinais à depressão bipolar em estudo com camundongos.

Pesquisador em laboratório alimenta rato dentro de caixa transparente com holograma do cérebro humano ao fundo.

Ajustes precisos na conectividade entre neurónios provocados por um desequilíbrio de bactérias intestinais podem ajudar a explicar sintomas depressivos no transtorno bipolar, segundo sugere um novo estudo com animais.

Como a microbiota intestinal foi testada em ratos com “depressão do transtorno bipolar”

Uma equipa de investigadores da Universidade de Zhejiang, na China, recorreu a transplantes fecais para transferir a microbiota intestinal de pessoas com transtorno bipolar para ratos. Os voluntários humanos tinham recebido diagnóstico de estar numa fase depressiva do transtorno bipolar nas 24 horas anteriores à recolha.

Para avaliar o que mudou, os cientistas combinaram exames de imagem do cérebro, sequenciação genética e testes comportamentais. A partir desse conjunto de análises, observaram que os ratos passaram a apresentar sinais compatíveis com depressão - por exemplo, redução da actividade e menor interesse por recompensas, como guloseimas.

Transtorno bipolar, mPFC e conectividade sináptica: o que enfraqueceu no cérebro

Além das alterações comportamentais, métricas essenciais de conectividade cerebral também pioraram. No córtex pré-frontal medial (mPFC) - região associada à tomada de decisões e à regulação das emoções - foi detectada uma diminuição no número de ligações (sinapses) entre as células. Em paralelo, o centro de recompensa do cérebro ficou, na prática, menos integrado às restantes redes.

Nas palavras dos autores, os ratos que receberam microbiota fecal de doentes com transtorno bipolar exibiram um padrão comportamental semelhante ao da depressão no transtorno bipolar, acompanhado de alterações na estrutura neural e na conectividade sináptica no mPFC.

Já os animais que receberam transplantes fecais de voluntários saudáveis não apresentaram mudanças comparáveis.

Fluoxetina vs. lítio: resposta típica da depressão no transtorno bipolar

Para verificar a natureza do quadro depressivo observado, os investigadores testaram dois medicamentos: fluoxetina, frequentemente utilizada no tratamento do transtorno depressivo maior, e lítio, uma terapia de primeira linha para estabilização do humor em condições como o transtorno bipolar.

O padrão foi claro: não houve melhoria do humor após a fluoxetina, enquanto o tratamento com lítio levou a uma mudança comportamental significativa. Esse contraste é consistente com a resposta terapêutica frequentemente vista nas fases depressivas do transtorno bipolar, em vez de depressão de forma mais ampla - reforçando a ideia de que a troca de bactérias intestinais “transportou” também características da depressão bipolar.

Os autores acrescentam que o lítio já foi descrito como modulador do sistema de dopamina e do disparo de neurónios dopaminérgicos, processos considerados fundamentais no processamento de recompensa.

Quais bactérias intestinais apareceram associadas a piores desfechos

Uma análise adicional da microbiota transferida das pessoas com transtorno bipolar para os ratos identificou grupos bacterianos associados a impactos negativos na saúde. Entre eles estavam Klebsiella (já relacionada a transtornos do humor) e Alistipes (associada à depressão).

Ainda assim, os investigadores destacam que, embora alguns géneros bacterianos específicos tenham sido apontados, são necessárias mais evidências para definir com precisão o papel exacto dessas bactérias na patogénese do transtorno bipolar.

O que isto significa (e o que não significa) para a causa do transtorno bipolar

Como existem vários factores conhecidos envolvidos no transtorno bipolar - incluindo componentes genéticos, hábitos de vida e influências ambientais - o estudo não propõe que as bactérias intestinais sejam, sozinhas, o gatilho da condição.

Em vez disso, a microbiota pode actuar como um elemento adicional, sobreposto a outros factores, capaz de aumentar a vulnerabilidade ao transtorno bipolar ou de agravar sintomas em quem já tem o diagnóstico.

Compreender com mais detalhe como uma condição se desenvolve e em que se distingue de transtornos relacionados é um passo importante para orientar possibilidades de tratamento. Alterações na microbiota intestinal já foram observadas em pessoas com transtorno bipolar, o que abre caminho para a hipótese de que restaurar comunidades de “microrganismos intestinais” possa, no futuro, ajudar a aliviar sintomas em alguns casos.

Ao mesmo tempo, a ciência tem avançado na identificação de como o transtorno bipolar pode começar, mapeando diferenças na “fiação” do cérebro e na actividade das células cerebrais como vias promissoras para investigação.

Perspectivas práticas: dieta, hábitos e intervenções na microbiota intestinal

Embora este estudo tenha sido feito em animais, ele reforça o interesse em estratégias que influenciam a microbiota intestinal, como padrões alimentares ricos em fibras, sono adequado e redução de álcool - factores que podem alterar a composição bacteriana. No entanto, isso não equivale a recomendar intervenções directas (como transplante fecal) para transtorno bipolar fora de protocolos de pesquisa e avaliação médica rigorosa.

Limitações e cautela na interpretação de modelos animais

Também é importante reconhecer que resultados em ratos não se traduzem automaticamente para humanos: comportamento, ambiente e história clínica são mais complexos nas pessoas. Ainda assim, modelos animais ajudam a isolar mecanismos biológicos - como mudanças no mPFC, na conectividade sináptica e em circuitos de recompensa - que podem ser difíceis de testar directamente em humanos.

Um problema comum e frequentemente mal diagnosticado

O transtorno bipolar afecta, em algum momento da vida, cerca de 1 em cada 50 pessoas no mundo. Melhorar o entendimento dos mecanismos envolvidos pode beneficiar milhões de pessoas que convivem com oscilações extremas de humor.

De acordo com os autores, por causa das manifestações clínicas complexas, a taxa de diagnóstico incorreto do transtorno bipolar é extremamente alta. Por isso, esclarecer a patogénese do transtorno bipolar é particularmente relevante para diagnóstico precoce e intervenção em indivíduos com a condição.

A pesquisa foi publicada na revista Psiquiatria Molecular.

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