“Foi o mais perto que qualquer um de nós, passageiros, gostaria de chegar de um acidente aéreo”, relatou um passageiro do voo Qantas QF1889 depois de a aeronave descer de forma repentina cerca de 6.100 m na segunda-feira, 22 de setembro, e retornar para Darwin.
A tripulação do Embraer 190 recebeu um alerta de pressurização, executou os procedimentos previstos e pousou sem anormalidades - mas, para quem estava na cabine, aquela descida rápida esteve longe de parecer “normal”.
Antes de entrar nos exemplos, vale um ponto essencial: problemas técnicos em voo fazem parte da realidade da aviação. Por isso, pilotos treinam repetidamente para lidar com falhas, usando checklists com instruções detalhadas, sistemas de alerta e projetos com várias camadas de redundância. É justamente essa combinação (aeronave + tripulação + procedimentos + treino + redundância) que faz com que a imensa maioria dos voos com algum contratempo termine em pouso seguro - e não em tragédia.
A seguir, quatro tipos de falhas que costumam soar terríveis quando aparecem nas notícias (ou quando você as vivencia) e o que, na prática, é feito lá em cima.
Além disso, é comum o passageiro interpretar uma descida acelerada ou um retorno ao aeroporto como “algo deu muito errado”. Muitas vezes, é o contrário: o sistema de segurança está reagindo cedo, de modo preventivo, para manter o voo em condições controladas.
1) Oscilações no ar-condicionado e na pressurização
O que é
Em altitude de cruzeiro (em geral por volta de 11.000 m), a cabine do avião não fica com a mesma “altitude” do lado de fora. Em vez disso, ela é mantida em uma altitude de cabine confortável, tipicamente em torno de 2.400 m, usando ar proveniente dos motores que passa pelo sistema de ar-condicionado.
Essa pressurização “artificial” é o que permite viajar com segurança enquanto, do lado de fora, o ambiente é hostil ao corpo humano: temperaturas por volta de -55 °C e ausência de ar respirável. Se o sistema se comporta de forma anormal ou se a altitude de cabine começa a subir por qualquer motivo, a tripulação trata a situação como potencial problema de pressurização e inicia de imediato os procedimentos preventivos.
O que você pode sentir/ver
Uma descida rápida e controlada (que pode parecer dramática), estalos nos ouvidos e, em alguns casos, máscaras de oxigênio. Em geral, elas caem automaticamente apenas se a altitude de cabine ultrapassar aproximadamente 4.300 m. Como no caso do QF1889, o desfecho mais comum é uma descida acelerada sem acionamento de máscaras.
O que os pilotos fazem
Ao identificar qualquer indício de falha de pressurização, os pilotos colocam suas próprias máscaras de oxigênio, declaram emergência e seguem o checklist de descida de emergência, levando a aeronave o mais rápido possível para cerca de 3.000 m. Depois disso, o cenário típico é desviar para um aeroporto alternativo ou retornar ao aeroporto de origem.
2) A mais temida: falhas de motor
O que é
Jatos comerciais com dois motores são certificados para voar com segurança mesmo com apenas um motor operando. Ainda assim, uma falha em motor é tratada com seriedade e treinada exaustivamente em simulador, pelo menos uma vez por ano.
Falhas duplas são extraordinariamente raras. Em 2009, por exemplo, o “Milagre no Hudson” foi um evento incomum, causado por colisão com aves, que levou à perda de ambos os motores. Mesmo assim, a aeronave pousou com segurança no rio Hudson, em Nova Iorque, sem vítimas.
O que você pode sentir/ver
Um estrondo forte, vibração, faíscas vindas do motor, cheiro de queimado ou, às vezes, um silêncio repentino. Isso pode resultar em retorno ao aeroporto e recepção por equipes de emergência na pista. Manchetes recentes - de um 737 em Sydney a um retorno nos Estados Unidos após múltiplas colisões com aves - terminaram com pousos seguros.
O que os pilotos fazem
Com o alerta do sistema, a tripulação identifica qual motor foi afetado e segue o checklist. Em geral, isso envolve desligar o motor problemático, descer para uma altitude apropriada e desviar se estiver em cruzeiro, ou voltar ao aeroporto de partida se a falha ocorrer logo após a decolagem.
Mesmo quando uma falha de motor gera efeitos em cascata em outros sistemas, os pilotos são treinados para administrar múltiplos avisos ao mesmo tempo - como aconteceu no voo Qantas A380 QF32 em 2010, que retornou em segurança a Singapura.
3) Problemas hidráulicos e controles de voo
O que é
As superfícies que controlam o avião (como ailerons, profundor e leme) se movem por meio de vários sistemas hidráulicos e/ou elétricos. Se um desses sistemas apresenta defeito - por exemplo, o aileron da asa esquerda, usado para inclinar e virar a aeronave, não responde - a redundância costuma manter o avião controlável, porque outros atuadores e superfícies continuam funcionando (como o aileron da asa direita).
Nessas situações, a tripulação utiliza checklists específicos e pode ajustar velocidades, distâncias e a configuração de pouso para garantir um retorno seguro ao solo.
O que você pode sentir/ver
Uma espera mais longa em voo enquanto a tripulação identifica a falha, retorno ao aeroporto de origem ou um pouso com velocidade acima do habitual. Em julho, um voo regional da Qantas para Melbourne fez pouso de emergência em Mildura após um problema hidráulico.
O que os pilotos fazem
Após a detecção pelos sistemas de alerta, os pilotos percorrem o checklist, definem a melhor configuração de pouso, solicitam a pista mais longa adequada e pedem que os serviços de emergência fiquem de prontidão, por precaução.
Esse nível de preparo existe porque lições aprendidas em ocorrências extremas - como a perda de todos os sistemas hidráulicos do voo United 232 em 1989 - foram incorporadas ao projeto de aviões modernos e aos programas de treinamento.
4) Trem de pouso e sistema de freios: quando vira “drama”
O que é
Aviões comerciais têm trem de pouso retrátil, que fica recolhido em um compartimento durante a maior parte do voo. São as rodas que descem da parte inferior da aeronave antes do pouso. Junto às rodas ficam os freios, que reduzem a velocidade após o toque na pista, de modo semelhante ao de um carro.
Como há muitas partes móveis, às vezes o trem de pouso não estende (ou não recolhe) corretamente, ou o sistema de freios perde eficiência - por exemplo, por perda de um circuito hidráulico.
O que você pode sentir/ver
Pode ocorrer um retorno preventivo, preparação da cabine para um possível pouso mais exigente ou instruções como “posição de impacto” pouco antes de tocar a pista.
Embora assuste, esse tipo de medida costuma ser preventivo, adotado caso algo não siga o esperado. No começo deste ano, um voo da Qantas voltou a Brisbane após um problema no trem de pouso; os passageiros foram orientados a manter a cabeça abaixada, e o pouso ocorreu com segurança.
O que os pilotos fazem
A tripulação segue checklists extensos e, quando necessário, consulta engenheiros de manutenção para ajudar no diagnóstico. Além disso, existem redundâncias tanto para baixar o trem de pouso quanto para acionar os freios.
Em cenários mais severos, pode ser necessário pousar na pista mais longa disponível (se houver preocupação com frenagem) ou realizar um pouso de barriga (se o trem de pouso não puder ser baixado).
Panorama geral da segurança na aviação
A maioria das falhas em voo aciona uma sequência de defesas pensada para manter o voo seguro: procedimentos padronizados, treinamento intensivo e experiência acumulada ao longo de décadas, apoiados por projeto robusto e múltiplas redundâncias. Na prática, muitos casos terminam como o QF1889: aeronave no chão, todos bem, e passageiros compreensivelmente abalados.
Uma descida forte ou um pouso “urgente” nem sempre é sinal de desastre iminente. Com frequência, é a prova de que o conjunto aeronave + tripulação + checklist + treinamento + redundância está funcionando exatamente como deveria.
Guido Carim Junior, professor sênior de Aviação, Griffith University
Este artigo foi republicado do portal The Conversation sob licença Creative Commons.
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