Pular para o conteúdo

Saches de cafeína têm dose de até 2 cafés de uma vez. Veja por que são arriscados.

Pessoa abrindo sachê colorido em mesa com notebook, xícara de café e sacos semelhantes espalhados.

Os sachês de cafeína viraram a nova mania de energia rápida nas redes sociais - e, desta vez, sem chaleira, sem xícara e sem latinha. A proposta é simples: um estímulo forte, discreto e imediato, sem o trabalho de preparar café nem o barulho de abrir um energético.

Apesar de parecerem um “empurrãozinho” inofensivo, especialistas alertam que esses produtos podem trazer riscos reais, principalmente para adolescentes e para pessoas com problemas de saúde pré-existentes.

O que são sachês de cafeína e como eles agem

Na aparência e no uso, os sachês de cafeína lembram muito os sachês de nicotina ou o snus. São pequenos pacotinhos em formato de almofada que carregam cafeína microtriturada, aromatizantes e, em algumas marcas, ervas ou vitaminas.

O modo de uso costuma ser o mesmo: coloca-se o sachê entre a gengiva e o lábio. Assim, a cafeína é absorvida diretamente pela mucosa da boca e entra na corrente sanguínea sem passar primeiro pelo sistema digestivo. Na prática, isso tende a produzir um efeito mais rápido do que uma xícara de café ou de chá.

A cafeína “acorda” o organismo porque bloqueia a adenosina - uma substância do cérebro ligada à sensação de sonolência. Há décadas, as pessoas recorrem a café, chá e bebidas energéticas para manter o estado de alerta, melhorar a concentração e aumentar o desempenho. Os sachês apenas transformam isso em um atalho: sem precisar segurar copo, sem derramar e com uso mais fácil em qualquer lugar.

Essa conveniência atrai frequentadores de academia e profissionais em turnos longos. Entre atletas, a cafeína também é valorizada por favorecer a resistência, ao fazer o cérebro perceber menos fadiga e desconforto durante o esforço.

A discrição, porém, é um dos pontos que mais preocupa quando o público é jovem. Adolescentes podem recorrer aos sachês para ficar atentos na sala de aula ou durante provas. Especialistas temem que esse hábito facilite o contato com outros estimulantes - e há relatos de jovens que combinam sachês de cafeína com sachês de nicotina, aumentando ainda mais a carga estimulante.

A popularidade ganhou força no TikTok, com influenciadores exibindo o produto em aulas, treinos e sessões de jogos.

Pacotinhos pequenos, doses muito fortes de sachês de cafeína

A quantidade de cafeína varia bastante conforme a marca: alguns sachês entregam cerca de 25 mg, enquanto outros passam de 200 mg por unidade. Para comparar, uma caneca típica de café solúvel costuma ter em torno de 100 mg de cafeína; uma caneca de chá, cerca de 75 mg; e uma lata de refrigerante tipo cola, por volta de 40 mg. Ou seja, certos sachês podem equivaler, de uma vez, a duas xícaras de café.

E qual seria o limite? Para adultos saudáveis, costuma-se indicar um teto diário de aproximadamente 400 mg. Já para gestantes, a orientação é ficar abaixo de 200 mg por dia, porque ingestões mais altas podem aumentar o risco de complicações, como baixo peso ao nascer ou perda gestacional.

Em crianças e adolescentes, há menos consenso sobre níveis seguros. A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos sugere um limite mais baixo: 3 mg de cafeína por quilograma de peso corporal, o que dá algo como 45 a 150 mg por dia, dependendo da idade e do tamanho. Como o corpo é menor e os sistemas ainda estão em desenvolvimento, os efeitos tendem a ser mais intensos.

Com isso, um único sachê de 200 mg pode ultrapassar facilmente o limite recomendado para muitos adolescentes. E, como a absorção é rápida, efeitos como tremores, ansiedade, insônia e palpitações podem aparecer com mais força.

A sensação de “pique” pode ser passageira, mas a cafeína também pode prejudicar o sono, alimentar um ciclo de cansaço no dia seguinte e favorecer dependência.

Quem corre mais risco com sachês de cafeína

Para a maioria dos adultos, o consumo moderado de cafeína costuma ser bem tolerado - mas existem grupos mais sensíveis, incluindo pessoas com condições de saúde mental.

Ao bloquear a adenosina e aumentar a atividade relacionada à dopamina, a cafeína pode intensificar ansiedade ou sintomas psicóticos e até elevar o risco de recaídas em quadros como esquizofrenia ou transtorno bipolar.

Além disso, ela pode tornar outras substâncias potencialmente viciantes mais “recompensadoras”, o que pode facilitar o desenvolvimento de transtornos por uso de substâncias. Ainda não há evidência suficiente para definir um limite seguro específico para esses grupos.

Pessoas com problemas cardíacos também precisam de cautela. A cafeína pode elevar temporariamente a frequência cardíaca e a pressão arterial, exigindo mais do coração. Algumas pessoas sentem palpitações, e atletas que combinam doses altas de cafeína com exercícios intensos podem aumentar o risco de eventos cardiovasculares.

Casos extremos são incomuns, mas já houve mortes documentadas relacionadas à cafeína - geralmente associadas a suplementos ou produtos muito concentrados. Isso serve de lembrete: mesmo um estimulante “comum” pode ser muito potente.

Um ponto cego na regulação

No Reino Unido, os sachês de cafeína ficam em uma área cinzenta: não são enquadrados claramente como alimento nem como medicamento. Com isso, podem escapar de verificações de segurança e de regras de rotulagem mais rigorosas. Para quem compra, nem sempre é fácil ter certeza da dose real de cafeína - ou de quais outros ingredientes foram adicionados.

No Brasil, a discussão regulatória também é relevante. Produtos com apelo estimulante e apresentação “discreta” exigem atenção redobrada de órgãos de vigilância e de políticas de proteção ao público jovem, sobretudo quando a comunicação usa sabores adocicados e embalagens chamativas.

Especialistas em saúde defendem avisos mais claros e restrições por idade, especialmente porque muitas marcas apostam em sabores frutados e design pensado para atrair consumidores mais novos.

Cuidados práticos e efeitos na boca

Um ponto frequentemente ignorado é que manter o sachê encostado na gengiva pode causar desconforto local em algumas pessoas, como irritação, sensibilidade ou sensação de queimação - principalmente com uso repetido. Alternar o lado, reduzir a frequência e interromper o uso ao notar incômodo persistente pode ajudar, mas sintomas contínuos merecem avaliação profissional.

Também vale atenção às combinações. Somar sachês de cafeína a outras fontes (café, energéticos, pré-treinos e refrigerantes) pode fazer a dose diária disparar sem que a pessoa perceba. E misturar estimulantes com nicotina tende a aumentar a sobrecarga no organismo, elevando a chance de palpitações, ansiedade e piora do sono.

Convenientes, mas longe de serem isentos de risco

Os sachês de cafeína podem estar na moda e são fáceis de usar, mas a absorção acelerada e a alta concentração tornam simples ultrapassar limites considerados seguros - especialmente entre adolescentes. Para a maioria dos adultos, um uso ocasional talvez não cause prejuízos, porém eles não são uma alternativa “sem risco” ao café ou ao chá.

Com qualquer estimulante, moderação não é apenas bom senso: é indispensável.

Dipa Kamdar, Professora Sênior em Prática Farmacêutica, Kingston University

Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário