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Mercedes admite “falta de know-how europeu nas baterias” é ponta do icebergue

Carro elétrico conceitual Mercedes-Benz prata em exposição, com design futurista aerodinâmico.

Foi uma conversa breve, porém cheia de sinais importantes. Markus Schäfer, diretor de tecnologia (CTO) da Mercedes-Benz, falou sem rodeios sobre os gargalos que hoje travam a indústria automotiva europeia - do desenvolvimento de baterias à própria cadeia de produção europeia.

Em declaração exclusiva, o executivo defendeu que o continente precisa acelerar decisões estruturais: “A Europa precisa, de fato, de uma indústria europeia de baterias, com produção local de células e acesso a matérias-primas. Temos de nos livrar dessa dependência e adotar rapidamente medidas de longo prazo para acabar com essa vulnerabilidade”.

A ameaça das matérias-primas para a indústria europeia de baterias

Schäfer também chamou atenção para um risco que pode parecer controlado no curto prazo, mas que tende a voltar com força: as matérias-primas. Embora, por enquanto, o balanço entre oferta e demanda esteja relativamente equilibrado, ele considera perigoso supor que isso continuará assim: “Haverá períodos de escassez de matérias-primas com alta de preços, e nesses momentos podemos nos tornar altamente dependentes de regiões fora da Europa”.

As instituições europeias já tratam essa dependência como prioridade estratégica. Para aumentar a autonomia do bloco, o Plano de Ação definido pela Comissão Europeia (CE) prevê investimento de € 1,8 bilhão para estimular a produção local e diminuir a exposição a fornecedores externos. Até o fim de 2024, a CE já havia aprovado subsídios que somam € 1 bilhão para fabricantes europeus de baterias.

Além do suprimento em si, há um ponto que ganha peso na próxima década: reciclagem e circularidade. Ampliar a recuperação de lítio, níquel e outros materiais a partir de baterias no fim de vida pode reduzir importações, amortecer choques de preço e diminuir riscos geopolíticos - desde que a Europa acelere capacidade industrial, rastreabilidade e padronização de processos.

A ponta do icebergue: pesquisa, terras raras e refinarias na Europa

Na visão de Schäfer, produzir localmente é apenas parte do caminho. O continente precisa, sobretudo, ampliar a base científica e tecnológica. “Temos de intensificar as pesquisas para encontrar substitutos para as terras raras e, talvez, desenvolver ímãs que não dependam desses elementos. Para isso, precisamos investir em nossas próprias refinarias na Europa e evitar buscar fora do continente tudo o que é mais crítico”, afirmou.

“Precisamos intensificar os estudos sobre as células das baterias para encontrar alternativas.”
Markus Schäfer, diretor de tecnologia da Mercedes-Benz

Segundo ele, esse movimento já começou em diferentes frentes. Um dos maiores depósitos de lítio da Europa fica na Sérvia, onde existe uma iniciativa europeia conjunta voltada à exploração do recurso. Em paralelo, a Mercedes-Benz, em parceria com o Grupo Stellantis e a TotalEnergies, já opera uma fábrica de células de baterias na França por meio da ACC.

Mesmo assim, Schäfer reconhece que o obstáculo não se resume a abrir plantas: “Há muitos projetos em andamento, mas isso só evidencia como é difícil dominar a produção de células. Ainda nos falta o conhecimento técnico necessário”. Para ilustrar, citou o caso chinês: “Eles aperfeiçoaram esse trabalho ao longo de cerca de 15 anos, graças a uma colaboração intensa entre todos os envolvidos”.

Ele resume a exigência de forma direta: a indústria automotiva europeia, fornecedores, associações, Estados-membros e a União Europeia precisam agir em conjunto e aceitar investir, ou os avanços não se sustentam. E alerta: esse tipo de transformação exige tempo e constância.

Outro fator decisivo é gente qualificada. Sem formação técnica em escala - de químicos e engenheiros de processos a especialistas em manufatura e qualidade -, a Europa corre o risco de construir capacidade instalada sem competitividade real. Programas de treinamento e parcerias com universidades e centros de pesquisa tendem a ser tão importantes quanto os aportes financeiros.

O futuro das baterias de estado sólido na Mercedes-Benz

Apesar das limitações atuais na cadeia de produção europeia, a Mercedes-Benz diz manter o foco no que vem pela frente. Em setembro do ano passado, a marca anunciou, em parceria com a Factorial, o desenvolvimento de uma bateria de estado sólido batizada de Solstice, que promete um salto relevante na autonomia dos carros elétricos.

Ainda assim, Schäfer prefere calibrar expectativas sobre a maturidade dessa solução: “Acho que as baterias de estado sólido ainda estão em um estágio muito inicial. Elas se comportam bem em ciclos de teste e em laboratório, mas a realidade muda quando falamos de milhares e milhares de quilômetros rodados por clientes, com recargas rápidas e exigência máxima de confiabilidade”.

Mesmo com essa cautela, ele afirma que a Mercedes-Benz não se considera atrasada: “Estaremos prontos para competir com qualquer marca no mundo nesse campo”.

E a aposta não para por aí. A empresa também trabalha em uma nova geração de baterias de íons de lítio com maior teor de silício - uma rota tecnológica voltada a elevar a densidade energética. “Vamos obter um ganho na densidade de energia e, no fim, ter baterias mais leves”, disse Schäfer.

Um futuro pragmático: plataforma MMA, CLA e a estratégia por segmento

Na transição para o elétrico, a Mercedes-Benz mantém um discurso ambicioso, mas admite que precisa acompanhar o ritmo do mercado. A nova plataforma MMA, que estreia com a nova geração do CLA, foi concebida com foco em veículos elétricos, porém também aceita motores a combustão. O motivo, segundo Schäfer, é simples: flexibilidade. “O mercado e os clientes precisam estar prontos”, afirmou, evitando cravar uma data para o fim definitivo dos motores a combustão - que, nos bastidores, poderiam seguir em produção até a década de 2040.

Já nos segmentos superiores, como o do Classe E, a orientação tende a ser mais objetiva: separar plataformas elétricas e de combustão para eliminar compromissos técnicos e proteger a excelência do produto.

“O nosso objetivo de longo prazo é ser 100% elétrico, mas o mercado e os clientes precisam estar prontos”, reforçou Schäfer, acrescentando que a Mercedes-Benz se diz preparada “para competir com qualquer marca”, seja qual for o cenário. E, aconteça o que acontecer, a máxima da empresa segue como norte - agora em português: “o melhor ou nada”.

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