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Professor de psicologia questiona a ideia de que o namoro é um mercado.

Jovem sentado em café lendo e segurando etiqueta vermelha, com smartphone e livros na mesa.

Numa quinta-feira chuvosa à noite, o café do campus vira um zumbido discreto de ventoinhas de notebooks e fofocas sussurradas. Na mesa ao lado, dois estudantes analisam a própria vida amorosa como se estivessem negociando ações. “Ela é fora da minha liga”, diz um, rolando a tela do celular. “Preciso aumentar meu valor antes de tentar.” Do outro lado do salão, uma garota mostra um perfil de aplicativo de namoro para a amiga e dá de ombros: “Ele é nota seis, dá para arrumar melhor.” Ninguém ri. É tudo dito com uma seriedade quase científica.

No canto mais afastado, um professor de Psicologia escuta enquanto mexe o café devagar. Ele balança a cabeça e solta, baixo, como quem lembra um fato básico: “Vocês sabem que namoro não é um mercado de namoro, né?”

A mesa silencia.

A pergunta fica no ar, como provocação.

Por que a narrativa do mercado de namoro é tão sedutora

Bastam cinco minutos nas redes sociais para o vocabulário aparecer em looping: “homem de alto valor”, “top 10% das mulheres”, “mercado de namoro”. As expressões entram nas conversas com tanta naturalidade que, de repente, a gente está falando de afeto como se fosse um anúncio de aluguel por temporada.

Isso acontece por um motivo simples: a lógica de mercado é limpa, organizada, quase matemática. Se você compra a ideia de “oferta e procura”, a rejeição ganha explicação. Você não “deu errado”; você só interpretou mal o mercado. É um jeito estranhamente confortável de dar sentido à dor.

O professor com quem conversei chama isso de terceirização emocional: em vez de deixar o sofrimento morar no peito, você empurra o desconforto para uma planilha imaginária.

Ele me contou de um seminário em que pediu a 80 alunos que escrevessem, de forma anônima, uma frase que eles acreditavam em segredo sobre namoro. O resultado foi brutal: “Só gente bonita recebe amor.” “Eu não sou competitivo o suficiente.” “Mulheres tratam namoro como compras.” “Homens só procuram o melhor custo-benefício.”

Depois, ele projetou as frases na tela, uma por uma. A sala ficou quieta. Alguns alunos se remexeram na cadeira; uma menina enxugou os olhos. Não eram ideias abstratas de vídeo de influencer: eram crenças íntimas, expostas sob a luz fria do laboratório.

“Esse é o estrago da metáfora do mercado”, ele explicou. “Quando você acredita nela, começa a colocar preço em você mesmo.”

Visto pela Psicologia, a história do mercado pega algo confuso e transforma em algo “racional”. Nosso cérebro adora isso: ele procura padrões, tenta prever resultados e foge do caos. Dizer “ela me rejeitou porque meu valor é baixo” dói - mas, paradoxalmente, parece mais controlável do que “ela simplesmente não sentiu”.

Mercados têm regras; atração não.

O professor aponta pesquisas sobre escolha de parceiros mostrando como as pessoas quebram “regras de mercado” o tempo todo: introvertidos que se apaixonam por artistas expansivos, profissionais ricos que se encantam por baristas, gente considerada “mediana” vivendo relações longas e seguras. A vida real vive vazando para fora da planilha.

Além disso, existe um efeito colateral pouco falado: quando o namoro vira “mercado”, a comparação vira hábito. Em vez de perguntar “como eu me sinto com essa pessoa?”, muita gente passa a perguntar “onde eu fico no ranking?”. E ranking constante costuma produzir ansiedade crônica, não clareza.

Também vale notar que os aplicativos reforçam o enquadramento: perfis em fila, filtros, categorias, a sensação de vitrine. Dá para usar tecnologia sem se transformar em mercadoria - mas, para isso, é preciso consciência do ambiente em que a cabeça está respirando.

Como sair da mentalidade de mercado sem abrir mão de critérios (e sem negar o professor)

O professor não manda ninguém “baixar os padrões” nem repete o clichê do “seja você mesmo” como se isso resolvesse tudo. Ele começa por uma mudança pequena e concreta: ajustar a forma de falar sobre si e sobre os outros.

Em vez de dizer “ela é fora da minha liga”, ele sugere trocar por: “Isso é compatível com a minha realidade?”

Parece sutil, mas muda o eixo. “Fora da minha liga” pressupõe uma hierarquia fixa, com gente em cima e gente em baixo. “Compatível com a minha realidade” lembra que você tem vida de verdade: valores, rotina, tempo, estresse, manias, limites. Nossas vidas combinam?

Ele dá um exercício simples: antes de arrastar para a direita, pergunte (em voz alta, se der): “O que eu gosto aqui que não tem nada a ver com status?”

Muita gente cai na mesma armadilha: começa a “otimizar” para um mercado imaginário e para de escutar o próprio corpo e a própria mente. Você passa a sair com pessoas que seus amigos aprovariam. Se preocupa com como o casal fica no Instagram. Entra em pânico se o relacionamento não parece um modelo de TikTok. E, quando percebe, está numa relação que impressiona por fora e soa vazia por dentro: você está encenando carinho em vez de viver carinho.

Ele é cuidadoso ao falar disso: “Você não é superficial”, ele diz aos alunos. “Você só está respirando um ar cultural que fala de gente como se fosse produto.” Essa empatia importa porque a vergonha costuma aprisionar as pessoas dentro da história do mercado.

Em um momento da aula, ele larga o marcador e fala de um jeito mais pessoal:

“Cada vez que você chama namoro de mercado, você encolhe um pedaço da sua humanidade. Você não é uma ação. Você não é um produto. Você é uma pessoa com um sistema nervoso, uma história, uma risada estranha e um jeito específico de segurar a caneca quando está cansado. Isso não é ‘valor’. Isso é você.”

Depois, ele escreve no quadro uma lista pequena - e a turma inteira tira foto:

  • Perceba quando você usa palavras de mercado para falar de amor (“liga”, “valor”, “alta/baixa qualidade”).
  • Troque por palavras de processo (“encaixe”, “timing”, “energia”, “curiosidade”).
  • Passe uma semana descrevendo paqueras sem mencionar aparência ou status.
  • Pergunte o que parece seguro, não o que parece impressionante.
  • Trate suas necessidades como critérios, não como defeitos.

O que a gente ganha quando para de colocar “preço” em si e nos outros

Quando você abandona a lente do mercado de namoro, aparece algo que muita gente não esperava: nuance. Namorar deixa de parecer uma corrida e passa a se parecer com uma série de experiências. Algumas dão errado, outras surpreendem, outras ensinam com clareza o que você não quer repetir.

O professor me contou que uma ex-aluna voltou alguns anos depois e disse: “Sua disciplina estragou os aplicativos de namoro para mim… no bom sentido.” Ela apagou da cabeça o papo de liga e de “maximizar opções”. Começou a recusar encontros que não pareciam gentis, mesmo quando a pessoa era perfeita “no papel”.

A vida amorosa dela ficou fácil? Não. Mas, pela primeira vez, pareceu dela.

Tem uma frase direta que ele repete com frequência:

A maioria de nós não está procurando o “melhor parceiro possível”. A gente está procurando alguém bom, real e constante o suficiente para conseguir relaxar.

Mercado é sobre maximizar. Sistema nervoso é sobre estabilizar. Quando você persegue o “negócio definitivo”, costuma abandonar partes suas que precisam de descanso, segurança e pequenas alegrias diárias: áudios longos, playlists compartilhadas, a forma como alguém responde quando você está ansioso.

Isso não são “funcionalidades de um produto”. São micro-momentos que, aos poucos, convencem o corpo: “Tudo bem. Posso soltar os ombros.”

Claro que a cultura não vira do dia para a noite. Aplicativos continuam exibindo pessoas em colunas, com filtros e categorias. Criadores de conteúdo seguem falando em “vencer” no mercado de namoro. Amigos ainda vão reclamar que o “valor de mercado” cai depois dos 30.

Mesmo assim, resistência individual existe. Falar de amor de outro jeito já é um tipo de rebeldia silenciosa. Priorizar como você se sente perto de alguém - em vez de quão invejável a pessoa parece - é outro gesto de autonomia.

O desafio do professor é simples e, ao mesmo tempo, radical: pare de se comportar como se estivesse se listando numa bolsa de valores. Comece a agir como quem entra em conversas onde duas biografias complexas se encontram - e observe o que acontece.

Ponto-chave Detalhe Benefício para quem lê
Questionar a metáfora do mercado Note como palavras como “liga” e “valor” moldam sua autoimagem Diminui a autoculpa e o fatalismo na vida amorosa
Trocar “ranking” por “encaixe” Pergunte se alguém é compatível com sua vida real, não só se tem status alto Ajuda a escolher quem faz sentido por dentro, não apenas por fora
Honrar as próprias necessidades Trate segurança, gentileza e leveza como critérios legítimos Sustenta relações mais saudáveis e duráveis ao longo do tempo

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Pergunta 1: Então falar de “liga” é sempre totalmente errado?
  • Pergunta 2: Dá para usar aplicativos de namoro sem cair na mentalidade de mercado de namoro?
  • Pergunta 3: E se eu realmente me sinto “de baixo valor” ao namorar?
  • Pergunta 4: O professor nega que aparência e status influenciam?
  • Pergunta 5: Como começar a mudar, com amigos, o jeito de falar sobre namoro?

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