Quando se fala em ciclo menstrual, a conversa quase sempre fica restrita ao útero e aos ovários. Só que o sobe e desce de hormônios que marca esse período não para por aí: ele também mexe com a estrutura do cérebro - e um estudo de 2023 ajuda a entender melhor como isso acontece.
Comandada pelas neurocientistas Elizabeth Rizor e Viktoriya Babenko, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, a equipe acompanhou 30 mulheres ao longo de seus ciclos menstruais, registrando mudanças estruturais no cérebro à medida que os perfis hormonais variavam.
Publicado em um estudo revisado por pares, os resultados sugerem que as alterações estruturais no cérebro durante a menstruação podem não ficar restritas às áreas tradicionalmente associadas ao ciclo.
"Esses resultados são os primeiros a relatar mudanças simultâneas em todo o cérebro na microestrutura da substância branca e na espessura cortical coincidindo com ritmos hormonais impulsionados pelo ciclo menstrual", escreveram os pesquisadores.
"Efeitos fortes de interação cérebro-hormônio podem não se limitar a regiões classicamente conhecidas, densas em receptores do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal (eixo HPG)."
Menstruar normalmente significa passar por algo em torno de 450 ciclos ao longo da vida, então entender seus efeitos no corpo é importante.
Mesmo assim, apesar de impactar cerca de metade da população mundial por metade da vida, a pesquisa nessa área ainda deixa a desejar. Vai saber por quê. Um completo mistério. Sério.
A maior parte dos estudos sobre o efeito hormonal no cérebro tem se concentrado na comunicação neural durante tarefas cognitivas, e não nas mudanças estruturais em si.
"Flutuações cíclicas de hormônios do eixo HPG exercem efeitos comportamentais, estruturais e funcionais poderosos por meio de ações no sistema nervoso central de mamíferos", observaram Rizor, Babenko e a equipe. "Ainda assim, sabe-se muito pouco sobre como essas flutuações alteram os nós estruturais e as 'rodovias' de informação do cérebro humano."
A microestrutura da substância branca - a rede gordurosa de fibras neuronais que transfere informações entre regiões de substância cinzenta - já foi associada a mudanças com oscilações hormonais, incluindo puberdade, uso de anticoncepcionais orais, terapia hormonal de afirmação de gênero e terapia de estrogênio no pós-menopausa.
Para preencher essa lacuna sobre menstruação no nosso entendimento, a equipe fez exames de ressonância magnética (MRI) nas participantes em três fases do ciclo: menstruação, ovulação e fase lútea média. No momento de cada exame, os pesquisadores também mediram os níveis hormonais das participantes.
Os resultados mostraram que, conforme os hormônios variam, os volumes de substância cinzenta e substância branca também mudam, assim como o volume do líquido cefalorraquidiano.
Em especial, pouco antes da ovulação, quando aumentam os hormônios 17β-estradiol e o hormônio luteinizante, os cérebros das participantes apresentaram mudanças na substância branca que sugerem uma transferência de informações mais rápida.
O hormônio folículo-estimulante, que sobe antes da ovulação e ajuda a estimular os folículos ovarianos, foi associado a uma substância cinzenta mais espessa.
A progesterona, que aumenta após a ovulação, foi associada ao aumento de tecido e à diminuição do volume de líquido cefalorraquidiano.
O que isso significa, na prática, para a pessoa "pilotando" esse cérebro ainda é desconhecido, mas a pesquisa abre caminho para estudos futuros - e talvez ajude a entender as causas de problemas de saúde mental raros, porém graves, ligados ao período menstrual.
Um estudo separado, publicado em 2024 por uma equipe internacional de cientistas, encontrou que cada fase do ciclo menstrual tinha uma influência distinta sobre o cérebro como um todo, com mudanças no cérebro inteiro e em regiões específicas que também se mostraram relacionadas à idade de cada pessoa.
"Embora atualmente não relatem consequências funcionais ou correlatos das mudanças estruturais no cérebro, nossos achados podem ter implicações para alterações de comportamento e cognição impulsionadas por hormônios", escreveram os pesquisadores.
"A investigação das relações cérebro-hormônio em redes é necessária para entender o funcionamento do sistema nervoso humano no dia a dia, durante períodos de transição hormonal e ao longo da vida humana."
Os resultados foram publicados na revista Human Brain Mapping.
Uma versão anterior deste artigo foi publicada em outubro de 2023.
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