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Neobancos, bancos digitais e IA redesenham a disputa pelos clientes na França

Jovem sentado em café ao ar livre, usando celular com gráficos financeiros holográficos à sua frente.

Os neobancos e os bancos digitais atraíram 15 milhões de novos clientes na França entre 2021 e 2025. E o ChatGPT pode muito bem estar prestes a concluir esse movimento.

Segundo dados da McKinsey reunidos para o jornal Les Echos, Revolut e BoursoBank estão superando com folga os bancos tradicionais na corrida por novos correntistas. O quadro fica ainda mais delicado porque um terço dos franceses já recorre à IA para receber orientações financeiras, o que enfraquece justamente o último reduto das instituições com rede de agências.

Revolut, BoursoBank e Nickel lideram a disputa entre neobancos e bancos digitais

Os números mostram a dimensão da mudança. De 2021 a 2025, a BoursoBank somou 5,5 milhões de clientes líquidos na França, a Revolut acrescentou 5,1 milhões e a Nickel avançou 4,6 milhões. No mercado francês, a Revolut já ultrapassou a marca de 7 milhões de clientes, sendo 2,5 milhões de novos usuários apenas no último ano.

A fintech britânica ainda bateu um recorde global de 1,8 milhão de novos usuários em um único trimestre. Trata-se de um ritmo de expansão que até a BoursoBank, referência histórica entre os bancos digitais franceses, tem dificuldade para igualar. E, quando o assunto são os grandes bancos com agências espalhadas pelo país, o cenário é pior ainda: muitos já exibem saldo líquido negativo na conquista de clientes.

O problema de fundo para as instituições tradicionais não é só perder clientes; é ver a relação bancária se dividir em várias partes. Hoje, os franceses espalham sua vida financeira entre diferentes prestadores: usam um banco para a conta principal, outra plataforma para investimentos, um serviço de criptoativos em outro lugar e ferramentas distintas para a poupança. O cliente fiel, concentrado em uma única instituição, está se tornando exceção.

Além disso, cresce a expectativa de que cada aplicação financeira concentre tudo em um só ambiente. O usuário quer consultar saldo, investir, contratar crédito, mover dinheiro e acompanhar metas sem precisar trocar de canal a todo momento. Nesse contexto, os bancos que conseguirem unir simplicidade, visão consolidada e resposta imediata terão mais chances de manter relevância.

A ideia de banco principal perdeu parte do sentido”, resume aos Echos Sébastien Lacroix, diretor associado sênior da McKinsey no escritório de Paris. A Revolut entendeu bem essa transformação ao apostar em preços agressivos, pacotes flexíveis e, sobretudo, rapidez - algo que as agências bancárias ainda têm dificuldade para oferecer.

A IA se torna uma nova rival dos bancos tradicionais

A concorrência, porém, já ultrapassou as fronteiras do setor bancário. Aproximadamente um terço dos franceses usa o ChatGPT ou um assistente de IA equivalente mais de duas vezes por mês para receber aconselhamento financeiro. Entre os clientes de maior patrimônio, essa proporção sobe para 45%.

Na prática, isso representa no mínimo 24 contatos de orientação por ano com uma IA. Nenhum banco alcança essa mesma frequência com seus próprios clientes. O gerente que o cliente encontra uma ou duas vezes por ano passa a competir com uma ferramenta gratuita, disponível 24 horas por dia, que não faz o usuário esperar na linha.

Ainda assim, os grandes bancos franceses continuam divulgando resultados recordes, sustentados pela retomada do crédito para pessoas físicas e por receitas de tarifas robustas. Só que esse bom desempenho esconde uma mudança estrutural: eles estão perdendo o vínculo direto com a clientela e vendo a IA tomar o lugar de seu último diferencial competitivo, o aconselhamento. A Revolut já captou essa tendência e vem desenvolvendo sua própria inteligência artificial para gestão e orientação financeira.

No curto prazo, a batalha não deve se limitar ao preço ou à tecnologia. O fator decisivo tende a ser a capacidade de combinar automação com confiança, algo especialmente importante em decisões de investimento, endividamento e planejamento patrimonial. Os bancos que conseguirem usar IA sem abrir mão de credibilidade e personalização podem reduzir a distância para os concorrentes digitais.

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