Pular para o conteúdo

SoftBank abandona a NVIDIA: a possível traição que pode estourar a bolha da IA.

Homem em escritório analisando gráficos financeiros e inteligência artificial em dois monitores de computador.

O “gigante japonês” teria sido o primeiro garimpeiro a se cansar de cavar na corrida do ouro da inteligência artificial (IA)? Quando até um dos investidores mais entusiastas decide reduzir exposição à NVIDIA, é a própria Wall Street que começa a demonstrar nervosismo.

Desde 2022, a NVIDIA parecia inabalável, impulsionada pela euforia global em torno da IA. A empresa dominou esse ciclo ao fornecer GPUs - o tipo de hardware que praticamente toda companhia de IA disputa - e virou uma espécie de peça obrigatória para quem quer treinar e operar modelos em escala. Só que, apesar do status de “indispensável”, ela acaba de perder um aliado de peso.

A SoftBank, um dos maiores investidores de tecnologia do planeta e apoiadora relevante da companhia, vendeu a totalidade das suas 32 milhões de ações da NVIDIA, equivalentes a cerca de US$ 5,8 bilhões. A saída integral do capital da empresa comandada por Jensen Huang gerou um choque imediato no mercado. Seria esse movimento um primeiro sinal de cansaço do capital com um setor que ainda luta para provar rentabilidade e que, em muitos casos, é sustentado por financiamento barato e expectativas?

NVIDIA e Wall Street: a primeira pancada financeira para a “rainha” das GPUs de IA

A NVIDIA, designer de chips e GPUs, reinava com folga no ecossistema global de IA. Em outubro de 2025, seu valor de mercado chegou a US$ 5 trilhões, um patamar histórico nas finanças. Para o mercado, ela virou o equivalente moderno do “vendedor de pás” de uma corrida do ouro: enquanto as empresas “cavam” oportunidades em IA, a NVIDIA fornece as ferramentas (os chips) e vende em volume.

Essa dominância, porém, passou a acender alertas. O motivo é a dependência crescente de um único motor: 88% da receita da empresa já viria de um mercado ainda especulativo e altamente concentrado. Em outras palavras, grande parte da precificação assume uma demanda por capacidade de computação em alta permanente, ignorando ciclos de investimento e a possibilidade de saturação.

Entre os analistas, o ceticismo é raro - mas existe. Jay Goldberg (Seaport Global Securities), descrito como o único, entre cerca de 80 especialistas monitorados pela Bloomberg, a sustentar a tese de que o papel estaria caro demais, resumiu o ponto central: a IA ainda não estaria madura o suficiente para justificar tamanha dependência econômica. Ao se retirar no auge, a SoftBank sinalizou concordar com a ideia de que a trajetória de valorização não consegue se descolar da economia real para sempre.

O anúncio desencadeou um movimento em cadeia. O mercado “balançou” e as grandes techs sentiram: NVIDIA caiu 2,6%, puxando junto Tesla (-1,8%), Meta (-0,95%) e Intel (-0,9%). Até o Nasdaq recuou 0,2%, um ajuste pequeno, mas revelador do nível de tensão em um índice cada vez mais carregado de empresas associadas à narrativa da IA.

SoftBank e OpenAI: a nova aposta especulativa (IA) após sair da NVIDIA

Mesmo assim, a SoftBank não abandonou a corrida do ouro - ela apenas trocou de frente. Depois de capturar ganhos com a disparada da NVIDIA, o grupo japonês passou a direcionar capital para o lado do software: segundo a Bloomberg, pretende colocar cerca de US$ 30 bilhões na OpenAI (ChatGPT), sendo US$ 7,5 bilhões já desembolsados e US$ 22,5 bilhões previstos para mais adiante. A leitura implícita seria: para Masayoshi Son, talvez faça mais sentido apostar no “autor” (o modelo) do que no “impressor” (o hardware).

A empresa parece enxergar mais potencial no “cérebro” da IA do que nos “músculos” computacionais. O problema é que, mesmo avaliada em quase US$ 500 bilhões, a companhia liderada por Sam Altman ainda não comprovou a capacidade de gerar fluxo de caixa recorrente compatível com essa avaliação.

Do ponto de vista econômico, o desenho também tem fragilidades: a operação depende de infraestrutura caríssima, com forte suporte da Microsoft, e parte importante do crescimento é alimentada por expectativas. Se esse mecanismo travar, a correção nas avaliações pode ser extremamente violenta.

No curto prazo, porém, nada indica que uma virada esteja iminente: o dinheiro continua entrando e os múltiplos seguem firmes. Já no médio prazo, o setor inevitavelmente precisará demonstrar rentabilidade. Caso contrário, a IA pode repetir o roteiro de outras inovações superexploradas: uma depuração abrupta, na qual sobrevivem poucos - justamente os que conseguem gerar caixa. Nesse cenário, a SoftBank parece operar um jogo arriscado: aproveitar a euforia enquanto mantém a atenção na saída de emergência.

O que pode mudar o jogo para NVIDIA, SoftBank e OpenAI

Há ainda um ponto estrutural que tende a pesar nas próximas fases desse ciclo: a expansão da IA exige data centers, energia, refrigeração e cadeias de suprimento resilientes. Se custos de eletricidade, limitações de capacidade (inclusive de fabricação avançada) ou gargalos logísticos apertarem, o “apetite infinito” por computação pode perder força - e isso afeta tanto quem vende GPUs (NVIDIA) quanto quem consome infraestrutura em escala (OpenAI e parceiros).

Além disso, a concentração de mercado costuma atrair escrutínio. Um domínio prolongado em hardware de IA pode aumentar pressões competitivas e regulatórias, enquanto clientes grandes tentam reduzir dependência com alternativas próprias ou de concorrentes. Esse tipo de movimento não derruba um líder de um dia para o outro, mas pode redefinir margens, ritmo de crescimento e - principalmente - a disposição de Wall Street de continuar pagando qualquer preço por crescimento futuro.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário