Os CEOs de tecnologia falam sobre clima do mesmo jeito que um amante infiel fala de amor: com convicção inabalável, mas sem jamais assumir as consequências.
Realizado todos os anos em novembro, em Lisboa, o Web Summit é um dos maiores encontros globais de tecnologia e mundo digital. Há tempos o evento inclui “meio ambiente” e “aquecimento global” no programa - o que torna a edição deste ano uma caricatura ainda mais evidente.
O encontro começou hoje e vai até 13 de novembro, mas o céu da capital portuguesa já dá sinais de saturação. De acordo com o Financial Times, o Aeroporto Humberto Delgado (LPPT) foi obrigado a recusar diversos jatos privados que vinham deixar investidores, CEOs e influenciadores do setor. Mesmo com grande capacidade operacional, faltaram posições no pátio, e alguns aviões precisaram ser desviados para Badajoz, na Espanha, a mais de 200 km de Lisboa.
Web Summit 2025 em Lisboa: brainstorming a querosene
Em um aviso enviado aos participantes, a organização foi direta: “observem que, no momento, há escassez de slots para jatos privados durante o Web Summit em Lisboa e em pequenos aeroportos ao redor”. Azar dos bilionários: terão de esperar um pouco mais antes de pousar no seu paraíso fiscal favorito - e, então, subir ao palco para discutir “inovação sustentável” e “IA para salvar o planeta”.
Conhecido como o “Davos dos geeks”, o Web Summit atrai um público variado, mas dá destaque às maiores figuras do ecossistema de tecnologia. Entre os palestrantes desta edição estão o presidente da Microsoft, Brad Smith, e o CEO da Qualcomm, Cristiano Amon - prontos para discursar sobre sobriedade digital ao som do ronco dos motores que os trouxeram. Aparentemente, a definição de “sobriedade” que defendem no microfone não é a mesma que aplicam na própria logística.
A organização também reconheceu que “o Aeroporto de Lisboa tem dificuldade para lidar com o volume de tráfego, o que provoca falta de slots de decolagem e pouso”. Pela primeira vez desde a criação do evento, a concentração de jatos privados ficou tão intensa que começou a comprometer a logística aérea de toda a região.
O Financial Times descreveu o cenário, com educação, como um “gargalo”. Do ponto de vista técnico, faz sentido - mas o termo suaviza demais o efeito ambiental concreto associado ao deslocamento dos participantes mais ricos.
Quando a “sobriedade” trava a pista
Principal nó do tráfego aéreo europeu na região, o aeroporto de Lisboa tem dois terminais civis e funciona no limite com frequência. Sua capacidade é naturalmente restrita pela configuração, especialmente por contar com uma única pista principal. Colocar dezenas de jatos privados em cima do fluxo regular era o tipo de situação que não deveria acontecer - e, sobretudo, não deveria ser autorizado.
Em tom irónico, o próprio Financial Times sugeriu: “talvez eles possam inventar um avião que centenas de pessoas consigam pegar juntas”. O detalhe é que essa invenção existe há quase um século - e é uma das grandes conquistas da engenharia moderna: o avião comercial.
Ainda assim, muitos “visionários” parecem esquecer a alternativa mais óbvia quando o assunto é o próprio conforto. A criatividade encontra seu limite quando implica abrir mão de privilégios. O suposto génio enfraquece assim que se fecha a porta de um Gulfstream G700, de um Global 7500 ou de um Cessna Citation X - aeronaves perfeitas para escapar da realidade a Mach 0,9, a cerca de 15,5 km de altitude, bem longe das preocupações no chão que eles dizem querer resolver em Lisboa.
Há um ponto que raramente entra na conta do palco: jatos privados têm uma pegada de carbono desproporcional por passageiro e por quilómetro, especialmente quando voam quase vazios. Não é apenas um problema de “imagem”; é uma questão de coerência entre o discurso de inovação sustentável e as escolhas mais básicas de deslocamento.
Se o debate sobre clima e tecnologia for levado a sério, o Web Summit poderia adotar medidas simples e verificáveis: incentivar a chegada por voos comerciais, desestimular jatos privados com regras claras de slot, publicar estimativas transparentes de emissões do evento e ampliar formatos híbridos para reduzir viagens desnecessárias. Sem isso, “IA para salvar o planeta” corre o risco de soar como mais uma mesa-redonda bem iluminada - alimentada, do lado de fora, por querosene.
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