Autoridades de Taiwan e especialistas em assuntos militares dizem estar se preparando para o pior cenário.
Em conversa com o Financial Times, um alto funcionário do setor de Defesa taiwanês deixou claro o tamanho da apreensão: sua maior inquietação é ver as Forças Armadas dos Estados Unidos gastarem volumes enormes de munições que seriam necessárias para reagir a uma ofensiva contra Taiwan.
Para os dirigentes da ilha - cuja soberania é reivindicada pela China - o receio é que Washington drene seus estoques de mísseis de cruzeiro de longo alcance no contexto da guerra do Irã. Na avaliação deles, essa queima de inventário pode enfraquecer a capacidade de dissuasão e resposta no caso de uma tentativa de invasão por parte do Império do Meio.
Números atribuídos ao Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) reforçam a preocupação: as estimativas indicam que, apenas nos seis primeiros dias da guerra contra o Irã, o Exército dos EUA teria lançado 786 mísseis JASSM e 319 mísseis Tomahawk - um consumo equivalente a vários anos de produção, especialmente no caso dos Tomahawk.
Mísseis indispensáveis para Taiwan: JASSM e Tomahawk no cálculo estratégico
Eric Heginbotham, especialista em segurança asiática no MIT e coorganizador, desde 2023, de uma série de exercícios de simulação de guerra sobre um possível confronto sino-americano envolvendo Taiwan, enfatiza o peso específico dessas munições. Segundo ele, trata-se de armamento comprado tendo em mente um conflito com a China - e que seria absolutamente decisivo se esse conflito se concretizasse.
Analistas militares ouvidos pelo jornal britânico são categóricos ao apontar por que esses dois tipos de mísseis são considerados essenciais em um cenário de combate em torno de Taiwan: eles podem ser disparados de posições fora do alcance de parte das defesas aéreas adversárias, reduzindo o risco para a aeronave ou o navio que executa o ataque.
Nos bastidores, um responsável taiwanês da área de segurança nacional alerta para um efeito colateral mais amplo: se os Estados Unidos se dispersarem por tempo demais em outras frentes e direcionarem a elas recursos em proporção excessiva, isso tende a produzir um desequilíbrio real - justamente no momento em que o Indo-Pacífico exige foco e prontidão.
A leitura dele se aproxima do que afirmou, em 2024, o almirante Samuel Paparo, então comandante das forças americanas na região Indo-Pacífico. Na ocasião, Paparo sustentou que o uso de munições fora do teatro asiático poderia prejudicar a capacidade operacional dos Estados Unidos na Ásia. E foi além ao advertir que o Indo-Pacífico é o palco de operações mais crítico - tanto pela quantidade quanto pela qualidade das munições necessárias - porque a China seria o adversário potencial mais formidável do mundo.
Além do impacto imediato do consumo, há um fator estrutural que alimenta a ansiedade em Taiwan: a recomposição de estoques de mísseis de cruzeiro de longo alcance não ocorre da noite para o dia. Mesmo quando há orçamento e prioridade política, a indústria de defesa depende de cadeias de fornecimento, componentes especializados e prazos de fabricação que podem alongar a reposição, ampliando a janela de vulnerabilidade percebida.
Nesse contexto, a discussão em Taipei também passa pela necessidade de coordenação com parceiros e pelo ajuste de planos de contingência. Medidas como diversificação de fornecedores, incremento de capacidades assimétricas e integração de inteligência e vigilância são vistas como complementos - mas não como substitutos - de uma reserva robusta de munições críticas por parte dos Estados Unidos.
Sem que surja uma saída clara para encerrar a guerra do Irã, a tendência é que essas preocupações permaneçam no centro do debate estratégico.
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