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O cromo não faz nada pelo nosso corpo. Então, por que é considerado essencial?

Nutricionista segurando suplemento com planilhas, caderno, alimentos saudáveis em prato sobre mesa de madeira.

Você provavelmente conhece o cromo como um metal brilhante, muito usado em acabamentos de cozinhas e banheiros. A dúvida é: ele também seria indispensável para a saúde?

Na forma chamada cromo trivalente, esse metal aparece em comprimidos multivitamínicos e é vendido como suplemento alimentar. Fabricantes costumam alegar que ele melhora o desempenho atlético e ajuda a regular a glicose no sangue.

Sou professor de bioquímica e estudo há muitos anos como os metais atuam em sistemas biológicos. Ainda assim, apesar de órgãos de saúde nos Estados Unidos e em outros países tratarem o cromo como um nutriente necessário, oito décadas de pesquisas produziram evidências limitadas de que as pessoas obtenham benefícios relevantes com esse mineral.

Então, como o cromo passou a ser encarado como essencial para os seres humanos?

O que é um elemento-traço essencial?

Para manter o organismo saudável, precisamos ingerir os chamados elementos-traço essenciais. Nesse grupo entram metais como ferro, zinco, manganês, cobalto e cobre. O termo “traço” não é à toa: em geral, bastam quantidades muito pequenas para que o corpo funcione bem.

No caso de vários desses elementos, décadas de estudos mostram de forma convincente que eles são realmente indispensáveis. O ferro, por exemplo, é necessário para transportar oxigênio no sangue. Além disso, muitas proteínas - moléculas complexas que executam funções vitais - dependem do ferro para operar corretamente.

Quando falta ferro, pode surgir anemia, condição associada a cansaço, fraqueza, dores de cabeça e unhas quebradiças, entre outros sinais. Em muitos casos, a suplementação de ferro ajuda a reverter esses sintomas.

Um ponto importante é que bioquímicos conseguiram explicar com precisão como o ferro permite que proteínas realizem reações químicas essenciais - não só em humanos, mas em praticamente todos os seres vivos. Ou seja: sabe-se que ele é essencial e também por que ele é essencial.

Cromo trivalente: poucas evidências de benefícios

Com o cromo, a história é bem diferente.

A chamada “deficiência de cromo” - ter pouquíssimo ou nenhum cromo no corpo - é extremamente incomum, e pesquisadores não conseguiram apontar uma doença bem definida causada especificamente por níveis baixos desse metal.

Como ocorre com outros minerais, o cromo precisa ser absorvido pelo sistema digestivo. Porém, o intestino absorve apenas cerca de 1% do cromo ingerido. Outros metais essenciais entram no organismo com muito mais eficiência: dependendo da forma, a absorção de ferro pode ficar em torno de 25% do que é consumido.

Mais relevante ainda: apesar de muitos estudos, cientistas ainda não identificaram nenhuma proteína que precise de cromo para desempenhar sua função biológica. Na prática, apenas uma proteína é conhecida por se ligar ao cromo, e tudo indica que ela atua sobretudo ajudando os rins a removerem cromo do sangue.

Algumas pesquisas em pessoas sugerem que o cromo poderia participar, em algum grau, do controle da glicose. Mesmo assim, os estudos sobre se adicionar mais cromo ao organismo via suplementos melhora de maneira substancial a capacidade do corpo de quebrar e usar açúcar continuam sem uma conclusão firme.

Assim, do ponto de vista da bioquímica, não há evidências atuais de que humanos - ou outros animais - realmente necessitem de cromo para alguma função específica.

Uma observação importante sobre formas de cromo e segurança

Quando se fala em suplemento, normalmente trata-se de cromo trivalente, que é diferente de outras formas do elemento. Em contextos industriais, existe também o cromo em estados de oxidação associados a maior toxicidade, o que reforça a necessidade de não extrapolar o tema “cromo” como se fosse uma coisa só.

Além disso, mesmo que não haja riscos confirmados para a maioria das pessoas ao usar cromo trivalente nas doses comuns de suplementos, “não fazer mal” não é o mesmo que “fazer bem”. Sem benefício consistente demonstrado, a suplementação tende a ter pouco sentido para grande parte do público.

Como o cromo virou “essencial”: pesquisas frágeis em ratos

Se as evidências são tão fracas, por que o cromo ganhou fama de elemento-traço essencial?

A noção de que o cromo poderia ser necessário para a saúde começou a partir de estudos da década de 1950 - uma época em que nutricionistas ainda sabiam pouco sobre quais metais em pequenas quantidades eram indispensáveis ao organismo.

Um trabalho que influenciou bastante o debate alimentou ratos de laboratório com uma dieta que induzia sintomas de diabetes tipo 2. Ao adicionar cromo à dieta, parecia que os animais “melhoravam” do diabetes tipo 2. A possibilidade de o cromo servir como tratamento chamou a atenção de pesquisadores da área médica.

Muitas das alegações atuais de que o cromo é importante para “regular o açúcar no sangue” podem ser rastreadas até esses experimentos.

O problema é que, pelos padrões atuais, aqueles estudos iniciais tinham falhas sérias. Faltavam análises estatísticas capazes de mostrar que os resultados não se deviam ao acaso. Também faltavam controles fundamentais, como medir quanto cromo já existia na dieta dos ratos antes da suplementação.

Pesquisas posteriores, com desenho mais rigoroso, chegaram a resultados pouco claros. Alguns trabalhos observaram que ratos suplementados com cromo controlavam a glicose ligeiramente melhor do que ratos mantidos com dieta sem cromo; outros não encontraram diferenças relevantes. O que apareceu com consistência, porém, foi que ratos criados com dietas que excluíam cromo continuavam saudáveis.

Em humanos, controlar estudos nutricionais é ainda mais difícil do que em animais. Existem poucos ensaios clínicos bem desenhados que avaliem o efeito do cromo em pacientes com diabetes. E, como nos estudos com ratos, as conclusões são ambíguas. Se existe algum efeito, ele parece ser pequeno.

Recomendações baseadas em médias de consumo

Diante disso, por que ainda existe uma recomendação de ingestão diária de cromo, mesmo sem benefícios claramente comprovados?

A ideia de que o cromo “faz falta” persiste em grande medida por causa de um relatório de 2001 de um painel de micronutrientes do Instituto Nacional de Medicina dos Estados Unidos. Esse grupo, formado por pesquisadores e clínicos reconhecidos, foi criado para avaliar a literatura disponível sobre nutrição humana e estabelecer níveis de ingestão adequada de vitaminas e minerais.

Essas orientações sustentam tanto a rotulagem de ingestão diária recomendada em alimentos e suplementos quanto diretrizes clínicas utilizadas no país.

Mesmo admitindo a escassez de pesquisas que demonstrassem benefícios inequívocos do cromo, o painel recomendou que adultos consumissem cerca de 30 microgramas por dia.

Essa recomendação não surgiu de uma demonstração bioquímica de necessidade, e sim de estimativas anteriores sobre quanto cromo adultos norte-americanos já ingeriam diariamente. Um detalhe importante: grande parte desse cromo não vem naturalmente dos alimentos, mas é liberada por utensílios de aço inoxidável e por equipamentos usados no processamento industrial de alimentos.

Portanto, embora não haja riscos confirmados para a maioria das pessoas ao tomar suplementos de cromo, é provável que também não exista benefício.

Neil Marsh, professor de Química e Bioquímica, Universidade de Michigan

Este texto foi republicado sob licença CC de compartilhamento. Leia a versão original no veículo de publicação.

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