A infertilidade atinge milhões de pessoas no mundo e, por definição clínica, refere-se à dificuldade de obter uma gestação bem-sucedida após 12 meses de tentativas. As causas são variadas e podem envolver alterações nos gametas - espermatozoides, oócitos (células que dão origem aos óvulos) ou ambos.
Nesse cenário, pesquisadores demonstraram um avanço experimental: a criação de células semelhantes a óvulos, capazes de serem fertilizadas, usando DNA retirado de células comuns da pele. A proposta, ainda em fase inicial, pode futuramente ampliar as possibilidades de investigação e tratamento em infertilidade.
O que é gametogénese in vitro (GIV) e por que ela importa na infertilidade
Entre as abordagens estudadas para tratar infertilidade está a gametogénese in vitro (GIV), que consiste em produzir gametas a partir do próprio material genético do paciente. Esse objetivo já foi alcançado em camundongos, mas ainda não em seres humanos, devido a desafios técnicos e de segurança.
A dificuldade torna-se ainda mais relevante em situações nas quais os oócitos deixam de funcionar adequadamente - seja por doenças (como o cancro), seja por queda relacionada à idade na quantidade e na qualidade dos oócitos.
Transferência nuclear de células somáticas (TNCS) e o obstáculo dos cromossomos extras
Uma das formas de GIV é a transferência nuclear de células somáticas (TNCS), na qual o núcleo de um óvulo é substituído pelo núcleo de uma célula do corpo (somática). No entanto, esse caminho tem um problema crítico: o número de cromossomos.
- Um gameta normal é haploide, com 23 cromossomos.
- A maioria das células do corpo é diploide, com 46 cromossomos.
- Um “gameta” produzido por TNCS tende a manter 46 cromossomos, quando o desejável seria reduzir para 23 antes da fecundação.
Mitomeiose: como a técnica tenta reduzir os cromossomos até a haploidia
Para enfrentar a questão dos cromossomos excedentes, uma equipa liderada pela bióloga clínica Nuria Marti-Gutierrez, da Universidade de Ciência e Saúde do Oregon, desenvolveu um método chamado mitomeiose - uma estratégia artificial inspirada nos passos naturais de divisão celular.
De forma resumida, o processo funciona assim:
- Retira-se o núcleo do oócito doador (o “centro” onde está o DNA).
- Transfere-se para esse oócito o núcleo (com DNA) de uma célula da pele do progenitor pretendido.
- Induz-se o oócito reconstruído a expulsar metade do seu conjunto cromossômico, buscando alcançar a haploidia (23 cromossomos) - etapa nomeada pelos autores como mitomeiose.
- O oócito agora haploide é então fertilizado com espermatozoide do outro progenitor pretendido, formando um zigoto diploide (embrião) com 46 cromossomos, idealmente metade de cada progenitor.
Segundo a ginecologista e endocrinologista reprodutiva Paula Amato, da mesma universidade, a lógica é “aproveitar a maquinaria celular” do oócito maduro para reprogramar uma célula somática, em vez de depender de meses de cultura celular para obter células-tronco pluripotentes induzidas. Em teoria, isso poderia poupar tempo e reduzir o risco de alterações genéticas e epigenéticas.
O que foi feito no laboratório e quais foram os resultados
Com óvulos e células da pele de doadores que consentiram participar, os cientistas produziram 82 oócitos funcionais usando a mitomeiose. Em seguida, recorreram a sémen de doador para fertilizar esses oócitos.
Os desfechos foram heterogéneos:
- A maioria dos oócitos interrompeu o desenvolvimento entre a fase de 4 a 10 células.
- Cerca de 9% continuou a desenvolver-se até blastocisto - uma taxa baixa, mas suficiente para demonstrar, pela primeira vez, que o método pode funcionar em humanos como prova de conceito.
- O ensaio foi interrompido no 6.º dia de desenvolvimento, por ser o momento em que, em contextos clínicos, um blastocisto normalmente seria implantado.
O principal desafio: anomalias cromossômicas e a expulsão “ao acaso”
Ao analisar os blastocistos, os investigadores observaram indícios de alterações cromossômicas. O motivo central é que, durante a mitomeiose, a expulsão do material cromossômico adicional pode ocorrer de forma aleatória, o que aumenta o risco de o embrião ficar com um conjunto cromossômico inadequado.
Amato enfatizou que, sem um número normal de cromossomos - isto é, um cromossomo de cada um dos 23 pares - o embrião não se desenvolverá normalmente e não resultará num bebé saudável. Por isso, o próximo passo é melhorar o emparelhamento e a segregação cromossômica, para aumentar a proporção de embriões com complemento cromossômico adequado.
Quando isso poderia virar tratamento? Prazo e obstáculos éticos
Os autores estimam que uma aplicação clínica ainda está distante, possivelmente entre 10 e 15 anos, e isso se o refinamento técnico avançar de forma consistente. A própria equipa ressalta que a optimização do método deve levar ao menos uma década.
Além da engenharia biológica, há barreiras éticas e regulatórias inevitáveis: o uso de oócitos doadores, a manipulação de núcleos celulares, a criação de embriões para fins de pesquisa e os limites de desenvolvimento embrionário em laboratório exigem regras claras, supervisão independente e transparência quanto a riscos. Em qualquer eventual transição para a clínica, também será essencial garantir consentimento informado robusto e rastreabilidade do material biológico.
Vale lembrar que, até que algo assim se torne seguro e permitido, a medicina reprodutiva segue a apoiar-se em alternativas já estabelecidas - como preservação de fertilidade antes de tratamentos oncológicos, doação de óvulos, e estratégias laboratoriais para reduzir risco de alterações cromossômicas - que continuam a ser o padrão de cuidado para muitos perfis de pacientes.
Como especialistas interpretam a prova de conceito
A especialista em fertilidade Ying Cheong, da Universidade de Southampton (Reino Unido), que não participou do estudo, avaliou que pela primeira vez se demonstrou que o DNA de células comuns do corpo pode ser colocado num oócito, activado e levado a reduzir seu conteúdo cromossômico, imitando etapas especiais que normalmente produzem óvulos e espermatozoides.
Embora o trabalho ainda seja laboratorial e muito inicial, Cheong considera que, no futuro, ele pode mudar a compreensão sobre infertilidade e perdas gestacionais e, possivelmente, abrir caminho para criar células semelhantes a óvulos ou espermatozoides para pessoas sem outras opções.
A pesquisa foi publicada na revista Comunicações da Natureza.
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