Os supercentenários - pessoas que chegam aos 110 anos - desafiam, de forma rara, o avanço inevitável do tempo. Entre esses casos extraordinários, a espanhola Maria Branyas tornou-se uma referência científica: ela viveu até os 117 anos e, antes de morrer em 2024 (quando era a pessoa viva mais velha do mundo), aceitou participar de uma avaliação de saúde detalhada que agora ajuda a esclarecer caminhos possíveis para uma vida extremamente longa.
Maria Branyas e os biomarcadores do envelhecimento saudável
Uma equipa de investigadores em Espanha, liderada por cientistas do Instituto de Investigação em Leucemia Josep Carreras, em Barcelona, analisou amostras de sangue, saliva, urina e fezes doadas por Branyas. A partir desses dados, os autores defendem que os resultados oferecem uma nova perspetiva sobre a biologia do envelhecimento humano, ao apontar biomarcadores de envelhecimento saudável e potenciais estratégias para aumentar a expectativa de vida.
De acordo com os pesquisadores, as células de Branyas “sentiam” ou “comportavam-se” como se fossem muito mais jovens do que a sua idade cronológica indicaria. Esse desfasamento chama atenção porque ela ultrapassou em mais de 30 anos a expectativa média de vida das mulheres na sua região, a Catalunha.
Um genoma excecionalmente jovem e variantes genéticas associadas à longevidade
Entre as hipóteses mais fortes para explicar a longevidade extrema de Maria Branyas está a presença de um genoma excecionalmente jovem. Segundo o estudo, ela carregava variantes genéticas raras que se relacionam com maior longevidade e com funções-chave do organismo, incluindo:
- melhor função imunitária;
- maior probabilidade de coração e cérebro saudáveis ao longo do tempo.
A combinação dessas variantes pode ter contribuído para uma proteção mais ampla contra o declínio fisiológico típico do envelhecimento, ajudando a manter o corpo funcional mesmo em idade muito avançada.
Saúde cardiovascular, inflamação baixa e perfil lipídico favorável
Mesmo numa idade muito avançada, Branyas apresentava um quadro global descrito como positivo. Os cientistas destacam, em especial, dois aspetos:
- saúde cardiovascular excelente;
- níveis muito baixos de inflamação, um marcador frequentemente associado a doenças crónicas e fragilidade.
Além disso, o seu perfil metabólico era incomum: ela tinha níveis extremamente baixos de colesterol “ruim” e triglicerídeos, e níveis muito altos de colesterol “bom”. No conjunto, esses elementos ajudam a compor uma explicação plausível para a sua combinação rara de boa saúde e vida longa.
Sistema imunológico e microbioma intestinal com sinais de juventude
Outro achado importante foi que tanto o sistema imunológico quanto o microbioma intestinal de Branyas exibiam marcadores mais típicos de coortes bem mais jovens. Como a imunidade tende a enfraquecer com a idade e o intestino influencia inflamação, metabolismo e defesa contra infeções, esses sinais podem ter funcionado como fatores de proteção adicionais.
Em termos práticos, isso sugere que a longevidade não depende apenas de “chegar lá”, mas de como o organismo mantém equilíbrio interno - e, neste caso, o eixo imunidade–microbioma intestinal parece ter sido especialmente favorável.
Estilo de vida: atividade mental e social, dieta mediterrânica e o papel do iogurte
A história de Branyas não se resume à genética. Os pesquisadores observam que ela levou uma vida mentalmente, socialmente e fisicamente ativa, o que costuma estar associado a melhor funcionalidade e menor risco de declínio cognitivo.
A equipa também menciona que uma dieta mediterrânica, com consumo elevado de iogurte, pode ter contribuído para a sua trajetória. Ainda assim, os autores reforçam que a longevidade extrema tende a ser moldada por um conjunto amplo de variáveis genéticas e ambientais, e não por um único fator isolado.
Telómeros: erosão acentuada e uma hipótese contra o cancro
Um resultado que chamou atenção foi a “grande erosão” dos telómeros - as estruturas nas extremidades dos cromossomas que protegem o material genético. Em geral, telómeros mais curtos estão associados a maior risco de morte. No entanto, estudos recentes sugerem que, entre os indivíduos mais longevos, os telómeros podem não funcionar como um bom biomarcador de envelhecimento.
Os autores levantam ainda uma hipótese intrigante: telómeros muito curtos poderiam, neste caso específico, ter oferecido uma vantagem. Em teoria, uma vida útil mais curta das células do corpo poderia ter dificultado a proliferação de células malignas, impedindo que o cancro se estabelecesse.
O que este caso sugere - e o que ainda não é possível concluir
Os epigeneticistas Eloy Santos-Pujol e Aleix Noguera-Castells, que lideram o trabalho, afirmam que o retrato formado pela análise, embora baseado num único indivíduo, indica que idade extremamente avançada e má saúde não são, necessariamente, inseparáveis.
Ao mesmo tempo, eles reconhecem as limitações óbvias de um estudo centrado numa pessoa, por mais singular que seja. Para extrapolar conclusões com mais confiança, serão necessárias coortes maiores e comparações mais robustas.
Ainda assim, investigações com grupos maiores que comparam pessoas excepcionalmente longevas com pares de vida mais curta já identificaram biomarcadores e características que parecem diferenciar alguns humanos, inclusive traços que podem aumentar a resistência a doenças.
Por que estudar supercentenários como Maria Branyas importa
Os centenários formam o grupo demográfico que mais cresce no mundo. Contudo, apenas 1 em cada 10 pessoas que chegam aos 100 anos consegue viver até à década seguinte. Nesse cenário, o caso de Maria Branyas oferece uma oportunidade rara de mapear possíveis vias biológicas e comportamentais que tornam viável uma expectativa de vida tão prolongada.
Além de indicar alvos para futuros estudos, resultados desse tipo podem orientar novas formas de monitorizar o envelhecimento saudável, combinando sinais do genoma, da imunidade, do microbioma intestinal, do metabolismo e de marcadores de inflamação.
Perspetivas futuras: prevenção, acompanhamento e envelhecimento com autonomia
Uma implicação prática desse tipo de investigação é fortalecer estratégias de prevenção que priorizem autonomia: acompanhamento regular de saúde cardiovascular, controlo de inflamação, atenção ao perfil de colesterol e triglicerídeos, e cuidados com o intestino que favoreçam um microbioma intestinal equilibrado. Embora isso não “garanta” longevidade extrema, pode aumentar a probabilidade de envelhecer com melhor qualidade.
Também cresce o interesse em integrar esses dados em avaliações longitudinais, combinando biomarcadores clássicos com métricas modernas de envelhecimento biológico. Ao compreender melhor por que alguns supercentenários preservam funções vitais por tanto tempo, torna-se mais realista desenhar intervenções que ajudem mais pessoas a envelhecer de forma saudável.
O estudo foi publicado na revista científica Relatórios Celulares: Medicina.
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