Tubarões-leopardo filmados num acasalamento a três em plena natureza
Um pequeno grupo de tubarões-leopardo foi observado - e registado em vídeo do início ao fim - enquanto protagonizava um episódio invulgar de reprodução a três no ambiente natural.
Pela primeira vez, cientistas documentaram este tipo de comportamento de acasalamento nestes animais: um macho acasalou com uma fêmea e, logo em seguida, um segundo macho repetiu o ato com a mesma fêmea de tubarão-leopardo (Stegostoma tigrinum). A sequência completa, captada sem interrupções, pode ajudar a esclarecer as estratégias reprodutivas desta espécie ameaçada.
Por que é tão difícil ver tubarões a acasalar?
Ver tubarões a reproduzirem-se em mar aberto é raro. Estes animais levam uma vida complexa e discreta, em habitats pouco acessíveis para observação humana. Além disso, a anatomia e as estratégias reprodutivas dos tubarões são particularmente elaboradas, o que torna a investigação ainda mais desafiadora.
Segundo o biólogo marinho e ecólogo Hugo Lassauce, da Universidade da Costa do Sol, na Austrália, a combinação de fatores tornou o momento excecional: observar o acasalamento em liberdade já é incomum; conseguir fazê-lo com uma espécie ameaçada e ainda filmar todo o evento foi, nas palavras dele, tão empolgante que a equipa mal conteve a celebração.
O que torna os tubarões-leopardo (ou tubarões-zebra) especiais
Os tubarões-leopardo, também chamados de tubarões-zebra devido às listras visíveis nos juvenis, destacam-se por estratégias reprodutivas especialmente complexas. Um dos aspetos mais curiosos é a capacidade de alternar entre reprodução sexual e reprodução assexuada, também conhecida como reprodução partenogenética.
A partenogénese pode ter desvantagens, como a redução da diversidade genética. Ainda assim, pode funcionar como uma alternativa útil quando as populações diminuem e há menos oportunidades de acasalamento.
A observação na Nova Caledónia: sequência completa e tempos cronometrados
As novas observações foram feitas por Lassauce durante o seu trabalho de monitorização de tubarões ao largo da Nova Caledónia. Embora ele já tivesse visto machos a nadarem rapidamente atrás de fêmeas - e até chegado ao local logo após a separação de um casal -, nunca tinha conseguido acompanhar toda a sequência do acasalamento.
Desta vez, enquanto avaliava uma agregação de tubarões-leopardo, ele avistou uma fêmea no fundo arenoso com dois machos a segurarem as suas barbatanas peitorais. Para minimizar qualquer interferência, pediu a um colega que afastasse a embarcação e permaneceu à superfície, observando os animais quase imóveis no fundo do mar.
Depois de cerca de uma hora à espera, os tubarões começaram a mover-se para cima. O acasalamento ocorreu rapidamente, com os machos em sucessão: o primeiro ato durou 63 segundos e o segundo 47 segundos. Em seguida, ambos os machos pareceram exaustos e ficaram imóveis no fundo, enquanto a fêmea se afastou com nado ativo.
Os três indivíduos tinham dimensões semelhantes, com cerca de 2,3 metros de comprimento.
Comportamento, dieta e risco para humanos
Os tubarões-leopardo são conhecidos por serem lentos e pouco agressivos. Alimentam-se sobretudo de gastrópodes e crustáceos. De acordo com o que se sabe sobre a espécie, não representam perigo para pessoas.
O que este “acasalamento em sequência” pode significar
As implicações exatas deste estilo de acasalamento ainda não estão totalmente definidas, mas algumas inferências são possíveis. Se a partenogénese tende a diminuir a diversidade genética, a presença de múltiplos pais numa mesma postura poderia ter o efeito oposto, aumentando a variabilidade genética dos descendentes.
Também vale lembrar - ainda que isso possa não se aplicar diretamente a este caso - que fêmeas de algumas espécies de tubarões conseguem armazenar esperma em estruturas específicas chamadas glândulas oviducais. Esta estratégia permite que a fêmea “decida” o melhor momento e as melhores condições para a fecundação. Há pelo menos uma espécie capaz de manter esperma armazenado por anos.
Importância para conservação e gestão do habitat de acasalamento
Para a bióloga marinha Christine Dudgeon, também da Universidade da Costa do Sol, o registo reforça a relevância da área na Nova Caledónia como um habitat essencial de acasalamento. Essa informação pode orientar ações de gestão e conservação, além de ampliar o entendimento sobre dinâmica populacional e comportamentos reprodutivos.
Ela destaca ainda o caráter inesperado do episódio: dois machos envolvidos de forma sequencial no mesmo evento. Do ponto de vista da diversidade genética, a próxima pergunta é quantos pais contribuem para os lotes de ovos que as fêmeas depositam a cada ano.
Contexto adicional: ameaças e como a ciência pode reduzir impactos
Como espécie ameaçada, o tubarão-leopardo pode ser afetado por pressões como perda e degradação de habitats costeiros, captura acidental e perturbação em áreas de agregação. Identificar locais críticos - como potenciais zonas de acasalamento - ajuda a direcionar medidas práticas, por exemplo, delimitação de áreas de proteção, regras de tráfego de embarcações e períodos de restrição de atividades.
Registos comportamentais completos, como este, também reforçam a necessidade de monitorização de longo prazo. Ao cruzar observações, genética e uso do habitat, investigadores conseguem avaliar se estratégias como múltipla paternidade são comuns e como elas influenciam a resiliência populacional.
Publicação científica
As observações foram descritas na Revista de Etologia.
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