Os lances de capa e espada publicados em 1844 por Alexandre Dumas em Os Três Mosqueteiros não nasceram apenas da imaginação. Por trás do romance havia soldados reais do século XVII - e, agora, arqueólogos na Holanda acreditam ter encontrado o que pode ser o túmulo do quarto e mais célebre integrante desse grupo: d’Artagnan.
A possível descoberta de d’Artagnan em Maastricht (Holanda)
O homem que inspirou o personagem era um pequeno nobre chamado Charles de Batz de Castelmore d’Artagnan. Ele serviu ao rei Luís XIV como capitão dos Mosqueteiros, mas o seu paradeiro após a morte virou um enigma: os restos mortais estão desaparecidos há mais de 350 anos, desde que ele teria sido morto - segundo relatos históricos, por um disparo de mosquete no pescoço - durante o cerco de Maastricht, em junho de 1673.
A suspeita atual concentra-se na Igreja de São Pedro e São Paulo, no bairro de Wolder, em Maastricht. Debaixo do local onde existia um altar, foram encontrados ossos que podem pertencer ao militar. Ainda assim, a equipa diz que só aceitará a identificação depois de uma confirmação por ADN, comparando o material genético com descendentes da linhagem familiar de d’Artagnan.
O arqueólogo Wim Dijkman afirmou à agência Reuters que o caso se transformou numa investigação de alto nível, conduzida com o máximo rigor possível, justamente para eliminar dúvidas antes de declarar que se trata do famoso mosqueteiro morto nas proximidades de Maastricht.
28 anos de busca e a pista da Igreja de São Pedro e São Paulo
Dijkman, hoje aposentado, procurou o local de sepultamento durante 28 anos. Uma das hipóteses mais consistentes tinha relação com a religião da corte: Luís XIV, o Rei Sol, era católico romano, e d’Artagnan ocupava um posto de grande confiança. Em plena campanha militar, transportar o corpo de volta para França no auge do verão seria, além de difícil, algo particularmente desagradável. Por isso, é plausível que ele tenha sido enterrado com honra em solo consagrado, perto de onde caiu.
A Igreja de São Pedro e São Paulo sempre figurou entre os melhores candidatos por razões práticas e históricas: fica próxima da área onde o exército francês teria acampado. A historiadora Odile Bordaz, ao examinar registos paroquiais da época na região, apontou que oficiais e figuras de alta patente mortos em combate costumavam ser sepultados na igreja mais próxima.
O problema é que o livro de registos específico da Igreja de São Pedro e São Paulo desapareceu. E, em edifícios históricos, não se pode simplesmente escavar sem critério: faltava um motivo concreto e uma autorização técnica clara. Assim, a dúvida persistiu durante décadas.
O achado acidental sob o piso da igreja
A oportunidade surgiu por acaso. Uma subsidência do terreno deslocou parte do piso da igreja e provocou fissuras no revestimento. Durante a obra de reparo, trabalhadores encontraram ossos humanos.
O diácono Jos Valke contou ao meio de comunicação neerlandês L1 Nieuws que, assim que soube do esqueleto, ligou imediatamente para Dijkman - afinal, o arqueólogo já vinha a trabalhar com a hipótese de d’Artagnan há mais de vinte anos.
A escavação prosseguiu com extremo cuidado: os restos foram retirados osso a osso, num trabalho lento e minucioso. Tudo indica que o sepultamento permaneceu intacto desde que foi feito, com o corpo colocado sob o altar.
Indícios no túmulo e a cautela antes do veredito
O crânio, infelizmente, estava muito danificado. Ainda assim, o restante do esqueleto preservou-se de forma surpreendente. Além do contexto do enterramento, surgiram pistas materiais que chamaram a atenção.
Valke explicou que o corpo estava sob o altar, em solo consagrado; no túmulo havia uma moeda francesa do período, datada de 1660; e foi encontrado um projétil na altura do tórax, compatível com a descrição tradicional do ferimento fatal presente nos livros de história. Para ele, os sinais são muito fortes.
Apesar disso, o cenário de guerra torna esses elementos insuficientes para uma identificação definitiva: projéteis e moedas poderiam aparecer noutros enterramentos do mesmo período, e o local teve circulação militar intensa.
Confirmação por ADN e próximos passos
Para resolver a questão, foi extraído ADN do osso do maxilar do esqueleto. A análise será comparada com o material genético de descendentes da linhagem do pai de d’Artagnan, que forneceram amostras para apoiar a verificação.
Dijkman disse ao L1 Nieuws que aguarda com ansiedade uma confirmação oficial, que deve chegar dentro de algumas semanas. Segundo ele, várias análises e estudos estão em andamento, no país e no exterior, precisamente para garantir, com o maior grau de certeza possível, que os restos são de d’Artagnan.
O que a ciência pode (e não pode) afirmar em casos como este
Mesmo quando há um candidato forte, a arqueologia trabalha com probabilidades e convergência de evidências. A posição do túmulo, a datação dos artefactos e a compatibilidade histórica podem apontar numa direção, mas a confirmação costuma depender de testes laboratoriais, cadeia de custódia do material e comparação genética robusta com parentes vivos.
Também entram em jogo questões de conservação e ética: retirar e manusear ossos antigos exige protocolos para evitar contaminação, e qualquer conclusão precisa ser comunicada com prudência, sobretudo quando envolve uma figura tão simbólica para a memória europeia quanto o capitão dos Mosqueteiros que inspirou Os Três Mosqueteiros.
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