A história dos submarinos classe TR-1700 sintetiza um dos projetos mais ousados - e, ao mesmo tempo, mais decepcionantes - da evolução do poder naval da Armada Argentina. Idealizado no período em que o país buscava combinar avanço tecnológico com autonomia industrial, o programa pretendia colocar a marinha argentina entre as mais modernas do Hemisfério Sul e, em termos de meios submarinos, em um patamar sem equivalente na América do Sul. Ainda assim, um plano concebido como estratégia de Estado e com horizonte de décadas acabou virando um exemplo amargo sobre planejamento, continuidade política e prioridades de defesa.
Antecedentes: por que a capacidade submarina demorou a se consolidar
A Argentina entrou relativamente tarde no grupo seleto de países sul-americanos que operavam submarinos. Enquanto Peru, Chile e Brasil já utilizavam sumergíveis desde as primeiras décadas do século XX, o país só incorporou esse tipo de meio em 1933, com a chegada dos submarinos da classe Cavallini, também conhecidos como Tarantinos, de origem italiana.
Esse atraso não ocorreu por acaso. Pesaram fatores como a concentração produtiva e logística no estuário do Rio da Prata, de fundo pouco profundo, além de uma plataforma continental extensa e predominantemente rasa, cujo valor estratégico só passou a ser encarado com mais clareza no fim do século XX. Somou-se a isso uma doutrina naval por muito tempo orientada para a esquadra de superfície, o que postergou a maturação da arma submarina.
A visão de Segundo R. Storni e a defesa do mar argentino
Mesmo antes de a Argentina operar submarinos, vozes influentes já apontavam sua relevância. O almirante Segundo R. Storni, em Interesses Argentinos no Mar (1916), defendia meios submarinos como peça central para proteger áreas sensíveis:
“Para a defesa próxima, isto é, para assegurar os setores do Rio da Prata e Bahía Blanca,
precisamos por ora, além de iniciar o estabelecimento naval do Tuyú:
uma esquadrilha de seis submarinos, no mínimo, e dois parques de aviação.”
- Segundo R. Storni, 1916
Das classes Balao e Guppy ao Atlântico Sul: evolução e combate
Nas décadas de 1960 e 1970, a Força de Submarinos evoluiu com unidades usadas da Marinha dos Estados Unidos, das classes Balao e Guppy. Os Guppy se destacaram por introduzir o snorkel, recurso que ampliava o tempo de operação em imersão ao permitir o uso de motores e recarga de baterias com o submarino em profundidade de periscópio.
Anos depois, o ARA Santa Fe (S-21) ganhou protagonismo no conflito de soberania nas Ilhas Malvinas, Geórgia do Sul e Sandwich do Sul. Ele participou tanto da Operação Rosario, em abril de 1982, quanto, dias depois, dos combates em Grytviken, onde foi atacado por helicópteros britânicos Sea King. O episódio o tornou a primeira unidade naval argentina perdida durante a campanha.
O salto com a classe 209 e o Plano Nacional de Construções Navais Militares
O avanço qualitativo mais evidente veio em 1974, com a entrada em serviço dos submarinos alemães classe 209, ARA Salta (S-31) e ARA San Luis (S-32). Construídos pela Howaldtswerke-Deutsche Werft na então República Federal da Alemanha, foram transferidos para a Argentina em 1972 e incorporados a partir de 1973.
Nesse mesmo período, o governo lançou o Plano Nacional de Construções Navais Militares, que originou o Programa de Submarinos. A meta era ampla: criar um estaleiro próprio, implantar uma fábrica de torpedos e manter, como objetivo futuro, a possibilidade de desenvolver um submarino de propulsão nuclear.
A estrutura legal do programa foi estabelecida pelos decretos presidenciais nº 956/74 e nº 768/74, e ganhou forma definitiva em 1978, com o Decreto S-336/78. A partir de um acordo com a empresa alemã Thyssen Nordseewerke (TNSW), foi planejada a construção de seis submarinos oceânicos classe TR-1700 e a instalação, na região da Costanera Sur do Porto de Buenos Aires, do Astillero Ministro Manuel Domecq García - um complexo de última geração para fabricação e manutenção de submarinos em ambiente coberto, com sistemas de içamento e docagem a seco por Syncrolift, além de infraestrutura voltada à construção de alta precisão.
Astillero Ministro Manuel Domecq García: um polo industrial de padrão mundial
Inaugurado em 1981, o Astillero Ministro Manuel Domecq García simbolizou o potencial industrial argentino daquele ciclo. Com guindastes de grande porte, oficinas especializadas, simuladores de treinamento e tecnologia avançada, o estaleiro possuía certificação do Germanischer Lloyd e atendia a padrões de qualidade equivalentes aos da OTAN.
No auge, empregou mais de mil técnicos e especialistas, incluindo uma escola própria de soldagem, com profissionais treinados em aços HY-80 - essenciais para cascos resistentes. Em termos de capacidade instalada, tratava-se de uma estrutura verdadeiramente competitiva em nível internacional.
Submarinos classe TR-1700 e a estratégia argentina no Atlântico Sul
Em paralelo ao investimento industrial, o novo projeto de submarino oceânico foi pensado para um cenário de Guerra Fria, com hipóteses de conflito regionais e necessidade de projeção no Atlântico Sul. O TR-1700 foi desenhado para entregar:
- Grande autonomia para patrulhas prolongadas
- Alta velocidade, chegando a 25 nós
- Sistemas eletrônicos avançados
- Capacidade de permanência em imersão por longos períodos
- Um arranjo interno incomum para a época, com duas cobertas internas, oferecendo melhor habitabilidade
A proposta era sustentar operações de longa distância e missões extensas, superando em desempenho os classe 209 - modelo que, na década de 1970, se difundiu amplamente em marinhas sul-americanas.
Entregas, construção local e o avanço incompleto
Somente em 1984 e 1985 foram entregues as duas primeiras unidades: ARA Santa Cruz (S-41) e ARA San Juan (S-42), ambos construídos na Alemanha.
Em Buenos Aires, o Astillero Ministro Manuel Domecq García tocava a construção de mais dois submarinos:
- Santa Fe (S-43)
- Santiago del Estero (S-44)
No fim dos anos 1980, o Santa Fe (S-43) havia alcançado cerca de 70% de avanço, enquanto o Santiago del Estero (S-44) estava em torno de 30%.
A deterioração do programa: economia, política e prioridades de defesa
No final da década de 1980, o cenário começou a se degradar. A crise econômica, a falta de uma agenda consistente para defesa e o esfriamento do interesse político transformaram o estaleiro, gradualmente, em ônus orçamentário - quando antes era um ativo estratégico.
Já nos anos 1990, a condução nacional se afastou do planejamento de longo prazo: crises recorrentes, ausência de uma política de defesa coerente e a preferência por investimentos na força de superfície em detrimento da força submarina fecharam o caminho de um programa que, em sua ambição original, chegava a apontar para um futuro submarino nuclear.
O “calcanhar de Aquiles” comercial do TR-1700
No campo internacional, o TR-1700 encontrou um obstáculo decisivo: não se consolidou como produto de exportação no mercado de submarinos diesel-elétricos. Nenhuma outra marinha adotou o projeto. O custo de construção, o porte para missões convencionais e as exigências logísticas reduziram sua atratividade frente a alternativas percebidas como mais versáteis.
Enquanto a classe 209 se multiplicava, ultrapassando 80 unidades exportadas, o TR-1700 permaneceu como um desenvolvimento exclusivo da Argentina: veloz, robusto e avançado - porém sem continuidade.
2017: a perda do ARA San Juan e o encerramento simbólico de uma era
O acidente com o ARA San Juan (S-42), em 2017, encerrou esse ciclo de maneira dolorosa. A morte de 44 tripulantes representou uma das maiores perdas da história naval argentina e um marco de ruptura na trajetória da Força de Submarinos da Armada Argentina. Na prática, a tragédia consolidou o fim definitivo de uma etapa.
Lições e caminhos para recuperar a capacidade submarina
Hoje, enquanto a Armada Argentina avalia alternativas para recompor sua capacidade - entre os Scorpène franceses e os 209 NG alemães -, as lições do caso TR-1700 são difíceis de ignorar. Um meio dessa complexidade exige planejamento integrado, sustentação por décadas e vontade política contínua. Sem esses pilares, nem o projeto mais moderno garante sucesso operacional.
Reconstruir uma Força de Submarinos contemporânea não se resume à compra de cascos. É necessário retomar uma visão de país com vocação marítima, investir em manutenção, em formação de tripulações e, se houver decisão política, em uma indústria naval capaz de sustentar o ciclo de vida do meio por muitos anos. Rotinas de inspeção, infraestrutura adequada, treinamento, prontidão e previsibilidade orçamentária são condições mínimas para evitar a repetição dos erros.
Além disso, qualquer solução atual precisa considerar o ecossistema de suporte: cadeia de sobressalentes, docagens programadas, instrumentos de medição e controle, bancos de testes e atualização de sensores e sistemas de combate. Sem governança técnica e contratos de longo prazo, a disponibilidade cai e o investimento perde sentido.
Também vale incorporar tendências tecnológicas que não estavam no centro do debate original do TR-1700, como requisitos de discrição acústica mais rigorosos, integração com sistemas modernos de vigilância marítima e a discussão sobre propulsão independente de ar (AIP) - tema que impacta diretamente doutrina de emprego, logística e custo de operação, mesmo quando a opção final permanece no campo diesel-elétrico tradicional.
Storni, Segundo, *Interesses Argentinos no Mar** (1916) - 2ª ed., 1ª imp. - Buenos Aires: Armada Argentina, 2009.*
Imagens utilizadas em caráter ilustrativo.
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