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3 "poções" de bruxaria do folclore que têm importância médica atualmente

Mulher preparando óleo essencial com plantas e ervas em uma bancada de madeira iluminada.

À medida que o Dia das Bruxas se aproxima, voltam a circular histórias sobre bruxas, feitiços e caldeirões - quase sempre acompanhadas de plantas “assustadoras”, como belladonna, mandrágora e artemísia (mugwort).

Essas espécies, cercadas por mito e folclore, foram por séculos associadas a encantamentos e práticas de bruxaria. Só que, por trás da fama sombria, existe algo tão intrigante quanto: uma trajetória farmacológica rica - e, em alguns casos, com impacto real na medicina atual.

O que parece fantasia, muitas vezes, nasce de um fato: certas plantas produzem moléculas potentes capazes de alterar funções do corpo e do cérebro. Não é “magia”, e sim química, com efeitos que podem ser terapêuticos ou perigosos, dependendo da dose, da forma de uso e do contexto.

Um ponto essencial é separar uso tradicional de uso clínico. Quando um composto vira medicamento, ele é padronizado, estudado e prescrito com dose e indicação claras. Já o consumo caseiro, a automedicação e alguns produtos sem controle rigoroso aumentam o risco de intoxicação - especialmente com plantas que contêm substâncias neuroativas.

Belladonna (Atropa belladonna) e os alcaloides tropânicos (atropina e escopolamina)

A belladonna (Atropa belladonna), também chamada de erva-moura mortal, carrega uma reputação ambígua: ao mesmo tempo em que foi temida como veneno, também entrou para a história como “remédio”. O próprio nome - que pode ser entendido como “mulher bonita”, em italiano - remete a um uso cosmético popular no Renascimento, quando algumas mulheres aplicavam o suco das bagas para dilatar as pupilas e, assim, parecerem mais atraentes.

O problema é que essa “beleza” cobra caro. A belladonna é altamente tóxica: engolir poucas folhas ou bagas pode ser fatal, e o simples contato pode irritar a pele. Em diferentes culturas, ela também foi explorada por seus efeitos alucinógenos.

A força (e o perigo) da planta vem de alcaloides tropânicos, principalmente atropina e escopolamina. Essas substâncias bloqueiam a ação da acetilcolina, um mensageiro químico que transmite sinais entre células nervosas no sistema nervoso parassimpático.

Esse sistema participa do controlo de movimentos musculares e de funções corporais vitais, como frequência cardíaca, respiração, memória, aprendizagem, sudorese, digestão e micção.

Na medicina contemporânea, a atropina é usada, por exemplo, para dilatar as pupilas em exames oftalmológicos, para tratar bradicardia (batimentos lentos) e como antídoto em intoxicações por organofosforados (presentes em alguns pesticidas e também em certos agentes químicos). Já a escopolamina pode ser prescrita para cinetose (enjoo de movimento) e para náusea no pós-operatório.

A investigação científica segue apontando motivos para a belladonna continuar relevante do ponto de vista médico - mas as preocupações com segurança não desaparecem. Diversas autoridades de saúde já alertaram sobre produtos homeopáticos que contêm belladonna, em especial os voltados a bebés para dentição e cólicas, após relatos de convulsões e problemas respiratórios.

Também é prudente ter cautela quando a pessoa usa outros fármacos capazes de aumentar o risco de efeitos adversos, incluindo anti-histamínicos, antidepressivos e antipsicóticos.

Mandrágora (Mandragora officinarum): mitos, “gritos” e escopolamina

Outra representante das solanáceas é a mandrágora (Mandragora officinarum). A raiz, muitas vezes descrita como tendo formato humanoide, alimentou séculos de imaginação - de escritos da Grécia Antiga a referências bíblicas.

Um dos relatos folclóricos mais persistentes dizia que arrancar uma mandrágora do solo libertaria um grito mortal. A lenda foi tão duradoura que acabou reaparecendo até em obras contemporâneas, como a série Harry Potter.

Em práticas de bruxaria, a mandrágora foi tratada como ingrediente central de unguentos de voo, usada como amuleto para fertilidade e proteção e adicionada a poções do amor - possivelmente por causa dos seus efeitos alucinógenos. No uso histórico, também aparece como anestésico, sedativo e auxiliar em questões ligadas à fertilidade.

Assim como a belladonna, a mandrágora contém alcaloides tropânicos como atropina e escopolamina, associados a efeitos psicoativos. Um estudo de 2022 catalogou 88 usos medicinais tradicionais atribuídos à mandrágora, indo de analgesia e sedação até aplicações para problemas de pele e do sistema digestivo.

Isso não significa, porém, que a ciência confirme todas essas promessas. A escopolamina pode atuar como antiespasmódico, ajudando a aliviar espasmos da musculatura intestinal e, assim, certos desconfortos digestivos.

Ela também pode induzir sonolência ao bloquear receptores antimuscarínicos M1 no cérebro. Por outro lado, extratos obtidos das folhas de mandrágora apresentam resultados inconsistentes: há indícios de que, em vez de tratar, possam provocar dermatite em alguns casos.

Artemísia (mugwort, Artemisia spp.) e a artemisinina: entre rituais e antimaláricos

A artemísia (mugwort), do género Artemisia, é outra erva frequentemente associada tanto ao “místico” quanto ao “curativo”. Em diferentes tradições, ela foi usada para intensificar sonhos e para afastar espíritos malignos. Em 2015, a atribuição de um Prémio Nobel destacou a descoberta da artemisinina, composto antimalárico derivado de Artemisia annua, conhecida como artemísia-anual.

Na medicina tradicional chinesa, a artemísia tem papel na moxabustão - técnica em que a erva é queimada perto de pontos de acupuntura com a intenção de estimular processos de cura. Fitoterapeutas também a utilizam para irregularidades menstruais e queixas digestivas.

A artemísia-comum aparece como ingrediente homeopático na Farmacopeia Europeia, onde é indicada para auxiliar em ciclos irregulares, sintomas da menopausa e condições nervosas como sonambulismo, convulsões, epilepsia e ansiedade.

As partes aéreas da planta são empregadas na produção de óleo essencial, que pode conter compostos como cânfora, pineno e cineol. Essas substâncias são conhecidas por atividades antioxidantes, antibacterianas e antifúngicas.

A artemisinina presente na planta pode estimular de forma suave o útero e contribuir para a regulação do ciclo menstrual. Estudos em animais sugerem que extratos das folhas de Artemisia podem ajudar em condições inflamatórias da pele ao reduzir a libertação de substâncias inflamatórias por células do sistema imunitário.

Mesmo assim, a evidência clínica ainda é limitada, e faltam estudos mais robustos para confirmar segurança e eficácia. Além disso, a artemísia pode desencadear reações alérgicas, incluindo irritação cutânea e dificuldades respiratórias, e deve ser evitada na gravidez, pois pode induzir contrações uterinas.

O “encanto” real: dose, segurança e ciência

Se as lendas parecem exageradas, a realidade é igualmente cativante: compostos naturais complexos moldaram práticas antigas de cura e continuam a influenciar a medicina moderna. Em muitos casos, o que o folclore descreveu como feitiço era, na prática, um efeito farmacológico - às vezes útil, outras vezes perigoso.

Por isso, vale um lembrete importante para além do imaginário do Dia das Bruxas: plantas como belladonna e mandrágora não são “ervas inocentes”. O risco de intoxicação aumenta com identificação errada, preparo caseiro, dose desconhecida e combinações com medicamentos. Em caso de exposição acidental ou sintomas preocupantes, a orientação deve ser procurar atendimento médico imediato e contactar um centro de informação toxicológica da sua região.

À medida que pesquisadores continuam a explorar o potencial dessas espécies, fica claro que muita “magia” do passado tinha raízes em farmacologia real. Assim, ao mexer o caldeirão neste Dia das Bruxas, vale lembrar: o verdadeiro poder da belladonna, da mandrágora e da artemísia (mugwort) não está na superstição - e sim na ciência.

Dipa Kamdar, professora sênior de Prática Farmacêutica, Universidade de Kingston

Este artigo foi republicado a partir de A Conversa, sob uma licença do tipo Commons Criativos. Leia o artigo original.

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