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"É uma vergonha": seguros de vida (fundos em euros) agora impactados por novo imposto.

Homem de terno analisando documentos financeiros em mesa com cofrinho e calculadora, sala iluminada.

O debate em torno do orçamento de 2026 ganhou um novo foco de tensão: uma proposta de tributação que passa a mirar um dos investimentos mais populares entre os franceses, o seguro de vida - e que já vem recebendo críticas duras.

Com a queda acentuada das taxas de juros dos livretos regulamentados, o seguro de vida voltou a atrair recursos. Hoje, os franceses somam cerca de 2.084 bilhões de euros aplicados nesse tipo de produto. Esse volume não passou despercebido pelos legisladores, que discutem uma mudança capaz de alterar o tratamento fiscal de parte dessas aplicações. Embora a medida atinja apenas uma parcela reduzida dos contribuintes, ela tem provocado forte reação no setor.

Reforma do IFI vira “imposto sobre a fortuna improdutiva”

Na semana passada, deputados aprovaram por uma margem apertada uma alteração no imposto sobre a fortuna imobiliária (IFI). Para marcar a mudança, o tributo passaria a se chamar “imposto sobre a fortuna improdutiva”.

Desde 2018, o IFI incidia exclusivamente sobre bens imobiliários. Com a proposta, porém, a base de cálculo seria ampliada para incluir diversos objetos de valor e disponibilidades financeiras, entre eles os fundos em euros do seguro de vida, segundo informou o Le Figaro.

Seguro de vida e fundos em euros no alvo da nova base do imposto

Há uma ressalva essencial: a regra só alcança os franceses cujo patrimônio ultrapassa 1,3 milhão de euros. Para esses contribuintes, seria aplicada uma alíquota única de 1%, calculada sobre o patrimônio líquido tributável que exceder esse limite.

Ou seja, trata-se de uma mudança que mira um número pequeno de famílias. Ainda assim, a simples inclusão do seguro de vida na base desse imposto irritou empresas e entidades do setor, que consideram a classificação “improdutiva” incoerente com a forma como esses recursos são usados na economia.

“Um aditivo improdutivo”: críticas do setor ao novo desenho

Citado na imprensa, Paul Esmein, diretor-geral da France Assureurs, contestou diretamente o enquadramento dos fundos em euros nesse novo imposto:

Os fundos em euros financiam a economia produtiva e, portanto, é muito surpreendente encontrá-los em uma proposta sobre fortuna improdutiva.

Crítica semelhante veio de Gérard Bekerman, presidente da Afer, associação que representa 755.000 filiados. Para ele, a proposta é um equívoco econômico, pois tenta vender uma ideia simplificada de utilidade do patrimônio:

O imposto sobre o patrimônio improdutivo não faz sentido economicamente. A fórmula de marketing esconde uma impostura intelectual e econômica: considerar que a fortuna, porque não é arriscada, seria inútil para a coletividade. Nada é mais falso. O que é “improdutivo” é essa proposta.

Por que os fundos em euros geram tanto debate

Os fundos em euros dentro do seguro de vida costumam ser associados a um perfil mais conservador, frequentemente com mecanismos de proteção do capital e uma gestão que privilegia estabilidade. Na prática, essas carteiras podem direcionar recursos para títulos e instrumentos de financiamento que alimentam o funcionamento do Estado e de empresas - argumento usado pelo setor para rebater a etiqueta de “improdutivo”.

Se a ampliação da base avançar, investidores que se enquadrem no recorte patrimonial terão de reavaliar a composição do patrimônio tributável, incluindo a parcela em fundos em euros do seguro de vida. Isso tende a aumentar a procura por planejamento patrimonial e por produtos com tratamento fiscal diferente - ainda que a grande maioria da população permaneça fora da incidência.

A busca por arrecadação no orçamento de 2026

Não é certo que as críticas sejam suficientes para barrar a proposta. Parlamentares buscam reforçar o lado das receitas do orçamento para tentar neutralizar medidas consideradas muito impopulares, como uma “ano em branco” para pensões de aposentadoria e benefícios sociais mínimos.

De acordo com cálculos de deputados socialistas divulgados pela La Tribune, esse novo formato do IFI poderia arrecadar até 4 bilhões de euros, contra 2,2 bilhões de euros em 2024. Mesmo assim, ainda há um percurso legislativo relevante até a aprovação final do orçamento nas próximas semanas.

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