Criaturas que parecem saídas de um filme pós-apocalíptico - embora esses cães de pelagem incomum não tenham nada de “mutantes”.
Em 26 de abril de 1986, o reator nº 4 da usina de Tchernobyl explodiu e lançou na atmosfera enormes quantidades de material radioativo, principalmente césio, iodo e estrôncio. Em poucos dias, os moradores da cidade vizinha de Prypiat foram retirados às pressas, deixando para trás um cenário deserto. Em seguida, foi criada uma zona de exclusão com 30 km de raio, um perímetro proibido para a população civil - uma área onde o ser humano quase desapareceu, mas que segue repleta de vida animal.
Com o tempo, a região passou a abrigar javalis, lobos-cinzentos, ursos-pardos, cervos, aves e, sobretudo, uma grande população de cães, descendentes dos companheiros dos trabalhadores soviéticos que ficaram para trás.
Cães de Tchernobyl e o programa Dogs of Tchernobyl
Para acompanhar esses animais, existe o programa Dogs of Tchernobyl, conduzido pela organização sem fins lucrativos Clean Futures Fund. A iniciativa monitora a saúde dos cães, promove campanhas de esterilização e reúne dados genéticos dessa população. Desde 2017, mais de 1.000 cães e gatos já foram identificados e atendidos dentro da zona.
Foi nesse contexto que, em 6 de outubro, pesquisadores do projeto notaram algo inesperado: vários cães com pelagem azul, vagando perto dos restos da usina.
Uma “anomalia” que não tem relação com a radioatividade
Desde que os cães de Tchernobyl passaram a ser estudados, eles alimentaram muitas hipóteses. Algumas foram sustentadas por pesquisas - como mutações genéticas, diferenças metabólicas e variações de porte. Outras, porém, viraram mito: histórias de pelagem fluorescente ou de uma suposta inteligência “mutante” causada pela radiação.
Por isso, ver cães azulados poderia facilmente levar à ideia de uma nova reação biológica ou de algum tipo de contaminação radioativa ainda não descrita. Só que, desta vez, a explicação mais provável apontou para outra direção: um fator ambiental, sem ligação com a radioatividade da área. A veterinária Jennifer Betz, diretora médica do programa, foi categórica ao afirmar que não há evidências para conectar a coloração azul às radiações presentes em Tchernobyl.
O provável responsável: um banheiro químico antigo
Depois de algumas tentativas sem sucesso para capturar os cães e examiná-los de perto, a equipe encontrou um suspeito plausível: um banheiro químico de obra antigo, próximo ao local onde os animais haviam sido vistos. A hipótese é simples: os cães teriam se esfregado em um líquido azul que vazou do equipamento - um desinfetante frequentemente usado nesse tipo de instalação. Aos poucos, o produto teria se impregnado no pelo, produzindo a tonalidade azulada.
Esse tipo de fluido sanitário industrial costuma levar corantes azuis (muitas vezes com compostos à base de cobre e azul de metileno), além de biocidas e tensoativos semelhantes aos encontrados em sabões. Ele é usado porque ajuda a desinfetar e a reduzir odores fortes típicos de banheiros químicos.
O líquido é perigoso para os cães?
A boa notícia é que, em pequenas quantidades, esse produto tende a não ser perigoso. Segundo Betz, os cães pareciam saudáveis - como a maioria dos que a equipe encontra na zona - e a situação deve permanecer inofensiva desde que eles não lambam grandes volumes da substância presa à pelagem.
Por que cães se rolam em cheiros fortes?
Qualquer tutor sabe: cães adoram se rolar no chão quando encontram um cheiro marcante - mesmo que seja desagradável para humanos. Trata-se de um comportamento instintivo, observado tanto em canídeos domésticos quanto selvagens, que pode servir para expressar excitação, aliviar tensão ou simplesmente satisfazer a curiosidade olfativa.
No caso da zona de exclusão, é fácil imaginar que esses cães não tinham como “adivinhar” que o cheiro vinha de um banheiro químico antigo (possivelmente da época soviética) - e que, de quebra, isso lhes renderia uma nova cor.
Por que acompanhar essa população importa
Além de curiosidades como a “pelagem azul”, o acompanhamento contínuo dos cães de Tchernobyl tem um papel prático: a esterilização ajuda a reduzir ninhadas vulneráveis ao frio, à fome e a doenças, e o monitoramento veterinário permite identificar surtos e ferimentos em uma área onde o acesso é limitado. Ao mesmo tempo, a coleta de dados genéticos contribui para entender como populações isoladas se organizam ao longo de décadas - e quais fatores ambientais, nutricionais e sanitários influenciam sua sobrevivência.
Também é por isso que a presença humana precisa ser cautelosa: em locais de circulação de equipes e estruturas abandonadas, resíduos químicos e materiais de obra podem virar “atrações” para os animais. Medidas simples - como remover fontes de vazamento, isolar equipamentos e descartar produtos corretamente - ajudam a evitar que episódios como esse se repitam, protegendo a fauna que hoje domina esse território.
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