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Dormir tarde aumenta em 16% o risco de problemas cardíacos, segundo estudo.

Homem deitado na cama com expressão preocupada olhando o celular, relógio e objeto de coração na mesa ao lado.

Deitar na cama e ficar rolando o feed depois da meia-noite pode parecer inofensivo, mas o relógio interno que regula o seu corpo pode, silenciosamente, aumentar a pressão sobre o coração.

Um novo conjunto de dados indica que adormecer de madrugada está associado a uma probabilidade maior de infarto e AVC - sobretudo quando as noites longas vêm acompanhadas de tabagismo, dieta de baixa qualidade e pouca atividade física.

O que um grande estudo britânico acabou de mostrar

Uma equipe ampla da Universidade de Birmingham analisou informações de saúde de mais de 300 mil adultos no Reino Unido, com idade média de 57 anos. O estudo foi publicado no Jornal da Associação Americana do Coração no fim de janeiro.

Os participantes responderam sobre seu cronotipo - a tendência natural de se sentir mais ativo e alerta pela manhã ou à noite. A partir das respostas e dos hábitos de sono, foram agrupados em tipos matutinos, tipos vespertinos (noturnos) ou intermediários.

Cerca de 8% se descreveram claramente como tipos noturnos, geralmente indo para a cama por volta das 2h. Esse é o grupo frequentemente chamado de corujas noturnas.

Ao longo de aproximadamente 14 anos de acompanhamento, as corujas noturnas apresentaram 16% mais risco de infarto ou AVC do que pessoas com padrões de sono intermediários.

Os pesquisadores não se limitaram a contar eventos como infartos. Eles também aplicaram um escore global de saúde cardiovascular, que reuniu vários componentes: tabagismo, sono, atividade física, dieta, peso corporal, açúcar no sangue (glicemia), colesterol e pressão arterial.

Nesse escore, quem dormia tarde chamou atenção de forma preocupante: pessoas do grupo noturno tiveram 79% mais chance de apresentar saúde cardiovascular geral ruim em comparação com outros perfis.

Cronotipo: o seu relógio interno, em termos simples

Cronotipo é o nome que a ciência dá ao seu “horário natural”: se você funciona melhor acordando cedo ou se “liga” mais quando o sol já se pôs.

Esse padrão é influenciado por genética, idade e exposição à luz. Adolescentes e adultos jovens tendem a cronotipos mais tardios, enquanto muita gente passa a dormir e acordar mais cedo com o passar dos anos. Trabalho noturno, telas à noite e pouca luz do dia também podem empurrar o relógio interno para mais tarde.

Ser uma coruja noturna não é falha de caráter; é, em grande parte, uma característica biológica - que precisa se encaixar em uma sociedade desenhada para quem acorda cedo.

Quando um cronotipo tardio colide com horários de trabalho ou escola muito cedo, é comum surgir dívida crônica de sono. A pessoa adormece à 1h ou 2h, mas precisa levantar às 6h ou 7h, ficando com poucas horas de sono na maior parte da semana.

Essa falta não se resume a cansaço. Ao se repetir por anos, a restrição crônica de sono eleva a pressão arterial, altera como o corpo lida com açúcar no sangue e aumenta inflamação - fatores que prejudicam vasos sanguíneos.

Por que dormir tarde (corujas noturnas) se relaciona a mais risco para o coração

À primeira vista, dá vontade de culpar apenas o horário: dormir tarde, prejudicar o coração. Só que os dados apontam uma explicação mais complexa.

Aproximadamente três quartos do risco cardiovascular extra entre corujas noturnas parece vir de padrões de estilo de vida que tendem a andar junto com uma rotina tardia. Em geral, quem vai dormir muito tarde também tem mais chance de:

  • Fumar (ou usar cigarro eletrônico)
  • Se movimentar menos ao longo do dia
  • Consumir uma dieta de pior qualidade, muitas vezes mais tarde à noite
  • Dormir menos horas ou em horários irregulares
  • Carregar excesso de peso

Esses comportamentos aumentam a pressão arterial, bagunçam o metabolismo, elevam o colesterol e atrapalham o controle do açúcar no sangue. Com o passar dos anos, esse conjunto favorece endurecimento das artérias e eleva a chance de coágulos, que podem desencadear infarto ou AVC.

O horário de dormir funciona como um marcador de risco, mas o maior prejuízo parece vir do estilo de vida que costuma cercar uma rotina de coruja noturna.

Quem dorme cedo pode ter uma pequena vantagem cardiovascular

No extremo oposto, pessoas que tendiam a dormir por volta das 21h apresentaram um risco ligeiramente menor de doença cardiovascular. Neste estudo, esse possível efeito protetor foi mais evidente em mulheres do que em homens.

As causas ainda estão em investigação. Uma hipótese é que dormir mais cedo se alinha melhor à luz natural do dia, o que pode favorecer padrões hormonais mais saudáveis, melhor regulação do apetite e hábitos de exercício mais consistentes.

Como corujas noturnas podem reduzir o risco de infarto e AVC

Os autores reforçam que ser do tipo noturno não significa estar “condenado” a problemas cardíacos. Muitos fatores de risco são modificáveis. Mesmo que você fique mais desperto tarde da noite, dá para proteger a saúde cardiovascular com mudanças práticas.

Fator de risco Padrão comum em corujas noturnas Mudança mais saudável
Tabagismo Maior frequência de fumar ou usar cigarro eletrônico Buscar apoio para parar; evitar o hábito de “cigarro de madrugada”
Duração do sono Noites curtas e irregulares Mirar 7 a 9 horas com horários consistentes para dormir e acordar
Atividade física Mais tempo sentado, especialmente à noite Marcar caminhadas ou treinos nos horários em que você se sente mais alerta
Dieta Lanches pesados tarde, ultraprocessados e fast-food Planejar refeições equilibradas mais cedo; manter lanches noturnos leves
Peso Maior probabilidade de excesso de peso Combinar sono melhor e dieta com movimento regular

Mudanças pequenas já ajudam. Deitar 30 a 45 minutos mais cedo, desligar telas muito brilhantes pelo menos 1 hora antes de dormir e fixar um horário regular de acordar favorecem um ritmo mais estável.

Para quem não consegue mudar facilmente os horários - como trabalhadores em turnos - a regularidade ganha importância. Manter horários parecidos de sono e despertar tanto em dias de trabalho quanto em folgas pode reduzir parte do estresse sobre o coração.

Além disso, a luz é uma alavanca poderosa para ajustar o relógio biológico: buscar luz natural pela manhã e reduzir luz intensa no período noturno (inclusive iluminação da casa) costuma facilitar o adormecer e diminuir a tendência de “empurrar” a hora de dormir cada vez mais.

Outro ponto pouco lembrado é o horário das refeições. Trazer o jantar para mais cedo e evitar grandes volumes de comida perto de deitar pode melhorar a qualidade do sono e ajudar no controle do peso e da glicemia - o que se conecta diretamente ao escore de saúde cardiovascular usado no estudo.

Por que as mulheres podem ser especialmente afetadas

O estudo observou que a diferença de risco cardiovascular entre quem dorme cedo e quem dorme tarde foi particularmente marcante entre mulheres. Isso levanta dúvidas sobre como hormônios, sono e saúde do coração se influenciam.

Muitas mulheres enfrentam mudanças no sono na gravidez, na perimenopausa e na menopausa. Esses períodos já trazem alterações em pressão arterial, colesterol e distribuição de gordura corporal. Somar a isso um sono irregular e encurtado pode amplificar o risco.

Para mulheres que são corujas noturnas por natureza, a meia-idade pode ser um momento-chave para reavaliar hábitos de sono e colocar exames do coração em dia com um clínico geral.

Aferir pressão arterial, checar colesterol e açúcar no sangue, junto de conversas objetivas sobre sono, pode ajudar a identificar problemas mais cedo. Apoio de estilo de vida que considere jornada de trabalho, crianças e responsabilidades de cuidado aumenta a chance de mudanças realistas.

Entendendo os números: o que significa “16% mais risco”

Um aumento de 16% no risco pode soar enorme ou pequeno, dependendo de como é apresentado. Isso não quer dizer que 16 em cada 100 corujas noturnas terão necessariamente um infarto ou AVC.

O número descreve um aumento relativo em comparação com pessoas que não são fortemente matutinas nem fortemente noturnas. Se, por exemplo, 10 em cada 1.000 indivíduos de cronotipo intermediário tivessem um evento cardiovascular em certo período, seria esperado algo como 11,6 em cada 1.000 entre corujas noturnas.

A diferença pode parecer discreta no nível individual, mas, quando se pensa em milhões de pessoas, ela se traduz em muitos infartos e AVCs adicionais que potencialmente poderiam ser adiados ou evitados.

Situações práticas para quem dorme tarde

Imagine um trabalhador de escritório que se sente mais produtivo das 21h à meia-noite. Ele fica nas redes sociais até 1h, acorda às 6h30 para trabalhar, troca o café da manhã por café e um salgado, raramente encontra espaço para se exercitar e janta muitas vezes às 21h30. Ao longo dos anos, a pressão arterial sobe aos poucos e a circunferência abdominal aumenta.

Agora pense no mesmo cronotipo com alguns ajustes estratégicos. A hora de dormir passa para 0h15, o despertar fica em 7h15. Uma caminhada curta no almoço adiciona 20 minutos de movimento. A última refeição vai para 19h30, com apenas um lanche pequeno depois, se necessário. E não existe o “cigarro de madrugada”. Essas mudanças não alteram quem a pessoa é, mas reduzem a carga sobre o coração.

Quem tem preferência noturna forte e trabalha em regime flexível ou remoto também pode se beneficiar de alinhar tarefas aos picos naturais de energia: concentrar atividades de foco profundo mais tarde no dia, mantendo uma janela de sono firme e regular, tende a preservar desempenho e saúde.

Termos-chave que vale conhecer

Alguns conceitos médicos ajudam a entender melhor esse tipo de pesquisa e a olhar para os próprios hábitos:

  • Cronotipo: tendência natural de sentir sono e alerta em determinados horários do dia.
  • Evento cardiovascular: problema grave que envolve coração ou vasos, como infarto do miocárdio ou AVC.
  • Pressão arterial: força do sangue contra as paredes das artérias; quando se mantém alta, danifica vasos e coração.
  • Colesterol: gorduras presentes no sangue; alguns tipos, especialmente o colesterol LDL, aumentam o risco de entupimento das artérias.

Entender esses termos facilita interpretar resultados de check-up e conversar com seu médico sobre sono, estilo de vida e proteção do coração no longo prazo.

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