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A corrida pela IA pode dificultar a troca do seu celular ou a compra de um carro novo.

Jovem em loja de eletrônicos segurando caixa de produto e celular, avaliando compra.

A corrida por inteligência artificial (IA) pode acabar provocando um efeito colateral incômodo: risco de escassez de chips de memória para setores como smartphones, PCs e até a indústria automotiva. Em alguns nichos, como aparelhos de entrada, o abastecimento já estaria no limite.

Para dar conta da demanda crescente por IA, empresas como Google, Microsoft e OpenAI vêm despejando investimentos em novos centros de dados. Essas instalações exigem não só grandes volumes de chips voltados a IA e enorme consumo de energia, como também uma quantidade massiva de memória (chips de memória). O problema é que a procura por memória destinada a data centers estaria atingindo um patamar tão alto que pode pressionar o mercado como um todo, resultando em faltas e aumento de preços para outras indústrias - incluindo smartphones, computadores e veículos.

Na prática, a IA tende a “absorver” parte relevante da capacidade de fabricação de chips de memória, reduzindo a oferta disponível para smartphones, automóveis e eletrônicos em geral. Em reportagem publicada nesta semana, a CNBC repercutiu uma declaração de Zhao Haijun, co-CEO da SMIC (um dos principais nomes da cadeia de componentes eletrônicos na China). Segundo ele, “todo mundo” estaria evitando fechar pedidos grandes de outros componentes para o 1º trimestre de 2026, porque existe incerteza sobre quantos smartphones e veículos o mercado conseguirá abastecer com chips de memória.

Smartphones de entrada e TV box já sentem a pressão dos chips de memória da IA

A mesma matéria cita M.S. Hwang, diretor de pesquisa da Counterpoint Research, afirmando que o fornecimento já está apertado para smartphones de entrada e TV box, e que esse risco pode se espalhar para outras categorias. Nas palavras dele: “Com a alta dos preços da memória e a redução da disponibilidade, as preocupações com gargalos de produção estão ganhando força.”

O impacto mais direto dessa dinâmica é a possibilidade de aumento no custo dos produtos finais. Se a memória fica mais cara e mais difícil de obter, fabricantes podem repassar parte desse custo, elevando o preço de celulares, PCs e até sistemas embarcados usados no setor automotivo.

Vale lembrar que, embora os produtores de chips de memória já estejam ampliando capacidade, essas expansões não entram em operação do dia para a noite - novas linhas e fábricas levam tempo para serem concluídas, qualificadas e alcançarem volume estável.

O que pode acontecer na cadeia de eletrônicos e automóveis

Se a oferta continuar pressionada, é provável que a indústria priorize contratos maiores e mais rentáveis, como os ligados a infraestrutura de IA. Isso pode gerar um cenário de maior volatilidade: prazos de entrega mais longos, compras mais cautelosas (para evitar excesso de estoque caro) e planejamento de produção mais conservador em segmentos com margens menores, como modelos básicos de smartphones.

Também pode haver mudanças técnicas para contornar a restrição, como ajustes de projeto para usar configurações de memória alternativas quando possível. No entanto, essas adaptações dependem de compatibilidade de hardware, certificações e ciclos de produto - o que limita a rapidez da resposta.

Como o mercado tende a reagir (e por que isso leva tempo)

Uma reação natural é acelerar investimentos em capacidade e tentar diversificar fornecedores e regiões de produção. Ainda assim, mesmo com dinheiro disponível, a expansão em semicondutores esbarra em prazos de construção, disponibilidade de equipamentos especializados e maturação do processo industrial. Por isso, no curto prazo, a combinação de demanda forte vinda de data centers de IA com expansão lenta pode manter o risco de escassez e de preços elevados por mais tempo do que consumidores e fabricantes gostariam.

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