O Realme GT8 Pro acabou de chegar ao mercado como um topo de linha de respeito - um smartphone premium que aposta pesado num design marcante e num conjunto de câmaras muito bem trabalhado. Depois de várias semanas de uso, uma pergunta aparecia sempre que alguém via o aparelho: “Que marca é essa, Realme?”.
Para muita gente, a Realme pode parecer apenas mais uma fabricante a tentar ganhar espaço no Brasil e na Europa. Em parte, essa impressão faz sentido - só que a ambição declarada da empresa é ir além do “estreante curioso” e construir presença duradoura. Para entender como a marca pretende fixar o nome na cabeça do público e qual é o plano para enfrentar uma concorrência agressiva, conversamos com Julien Lidoine, diretor comercial da Realme na França.
Realme e a aposta na juventude como estratégia
Antes de falar de produto e campanha, vale voltar ao início. A Realme é uma fabricante chinesa sediada em Shenzhen. Ela surgiu em 2010 como uma marca criada pela Oppo, chamada Oppo Real. Em 2018, a operação ganhou independência e passou a usar o nome Realme; no ano seguinte, em 2019, a empresa desembarcou no mercado francês. Mesmo não sendo mais uma subsidiária direta da Oppo, ela continua no mesmo guarda-chuva corporativo (vamos chegar lá).
Para se destacar num mercado disputado, a Realme decidiu mirar primeiro no público jovem - e não apenas como “pose” de marca. Segundo Julien Lidoine, “77% dos nossos consumidores têm entre 18 e 34 anos”. Ele acrescenta que a juventude é parte real da cultura interna: os fundadores e a maior parte da equipa estão nessa faixa, e a idade média ronda os 28 anos. Nas palavras dele, isso acabou virando o “ADN” da empresa.
Essa característica também influencia a forma de operar. Na França, a Realme trabalha com 16 funcionários, um número pequeno para uma empresa ligada a um grupo multinacional - mas que, na visão deles, ajuda a manter uma dinâmica “de startup”, com mais agilidade para testar ideias e ajustar rota.
Produtos em todas as faixas - e com identidade própria
A Realme muitas vezes é lembrada como “marca de telemóvel barato”. Só que, na prática, o portfólio cobre desde a entrada até o segmento premium, com aparelhos em diferentes patamares de preço.
Para Julien Lidoine, a propaganda mais eficiente é simples: “a melhor comunicação é colocar telemóveis nas mãos das pessoas”. A lógica é de continuidade: se alguém fica satisfeito com um aparelho de 200 euros, é mais provável que continue na mesma marca quando for subir para 400 euros - ou mais. Por isso, a Realme investe bastante nos modelos mais acessíveis, tentando acertar não só no preço, mas também em design e experiência de uso.
Ao mesmo tempo, a marca diz procurar diferenciação mesmo onde “todo topo de linha parece igual”. A proposta, segundo ele, é entregar o pacote mais coerente em uso, ergonomia e estética para um público jovem que inclui estudantes do ensino médio, universitários e jovens no início da carreira.
No caso do Realme GT8 Pro, o foco escolhido foi fotografia. A Realme cita uma parceria com a Ricoh, conhecida pelo trabalho ligado à fotografia de rua - um estilo com apelo entre públicos urbanos. Pode não ser, por si só, o argumento decisivo num aparelho na casa dos 1.000 euros, mas é uma escolha consistente com a imagem que a empresa quer projetar.
“Cada smartphone como um produto único”: o mantra da Realme
Um ponto em que a Realme tenta sair do lugar-comum é no lema de tornar cada aparelho “único”. Um exemplo é o acabamento em silicone do GT8 Pro, com um efeito visual que lembra papel amassado: a marca afirma que o padrão varia de unidade para unidade. A promessa é direta: “cada produto vai ser diferente; pode pegar mil e não vai encontrar dois iguais”.
A mesma linha aparece na ideia de desmontar o módulo de câmara para substituir por outro, permitindo que cada pessoa use o conjunto que mais combina com o seu estilo. Outro caso citado é o Realme 14 Pro Plus, um intermediário com textura canelada que muda de branco para azul quando a temperatura baixa - e, novamente, com desenho variando entre unidades.
A própria Realme reconhece que não dá para aplicar esse tipo de personalização em toda a linha, porque isso aumenta demasiado os custos de produção.
Ainda assim, a estratégia parece estar a funcionar: entre 2023 e 2024, a Realme afirma ter quadruplicado as vendas na França - embora não tenha divulgado números absolutos.
Uma comunicação fora do padrão (quase toda nas redes)
Para falar com jovens, a Realme segue uma abordagem que lembra o início da Honor, em meados da década de 2010: campanha quase toda centrada em redes sociais. Em vez de apostar pesado em publicidade tradicional (outdoors, grandes campanhas de TV), a marca prioriza publicações constantes no TikTok e Facebook, ações com concursos, criação de comunidade e estímulo a interações.
Além de combinar com o público-alvo, esse caminho tende a custar menos - o que, segundo a lógica da empresa, ajuda a segurar o preço final dos produtos.
Mas há um limite claro para esse modelo. Julien Lidoine destaca que, na Europa, é difícil ganhar escala sem o canal das operadoras, porque o “mercado de operadora” voltou a ser dominante e responde por 50% a 60% das vendas. Hoje, a Realme ainda não trabalha com nenhuma operadora francesa, embora isso seja tratado como objetivo, já que é uma das formas mais rápidas de ganhar visibilidade massiva.
Em compensação, a empresa já investe em presença física via retalhistas como Fnac e Boulanger, garantindo exposição em loja - o que, na prática, faz muita gente ao menos descobrir que a marca existe.
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Um detalhe importante: a Realme saiu da França em 2022 e voltou em 2024 com uma nova equipa. Segundo Julien Lidoine, a marca agora vem para ficar e oscila entre a 7ª e a 5ª posição entre os maiores vendedores do país.
Realme dentro de um grande grupo: independência com sinergias
Como dito no começo, a Realme nasceu como sub-marca da Oppo e tornou-se independente em 2018, mantendo ligação com a estrutura então conhecida como BBK Electronics. A BBK deixou de existir em 2023, sendo substituída por uma nova corporação com a OpPlus no centro (Oppo e OnePlus), além de marcas satélites como Vivo e Realme.
Mesmo com a narrativa de independência, surge uma dúvida natural: como explicar que o GT8 Pro seja tão próximo do OnePlus 15 e do Oppo Find X9 Pro, partilhando o mesmo chassis e especificações?
A resposta, segundo Lidoine, é que existe uma mutualização (sinergia) em produção e compras de componentes - algo que reduz custos e melhora escala. Porém, ele garante que o restante é separado: estratégia de produto, design e desenvolvimento (incluindo IA) seriam “completamente independentes”.
Pós-venda, atualizações e confiança: o próximo degrau para a Realme
Se a Realme quer consolidar presença, especialmente fora do circuito de operadoras, há dois temas que costumam pesar tanto quanto câmara e design: pós-venda e política de atualizações. Para um público jovem - que muitas vezes compra parcelado e pretende ficar mais tempo com o aparelho - a clareza sobre garantias, rede de assistência e frequência de updates pode ser decisiva para virar “cliente recorrente”.
Outro fator que ajuda a reduzir a barreira de entrada é a construção de comunidade: fóruns, programas de testadores, canais de suporte e comunicação transparente sobre correções. Quando a marca ainda sofre com falta de notoriedade, esse tipo de relação direta com o utilizador pode compensar a ausência de campanhas tradicionais e acelerar o boca a boca.
Próximos passos: manter a fórmula e vencer a falta de notoriedade
No curto e médio prazo, a Realme indica que não pretende fazer uma viragem brusca. A meta segue a mesma: produzir smartphones bons para o público jovem, controlando custos ao máximo. Dentro dessa lógica, a empresa não demonstra interesse em entrar na categoria de dobráveis, que ela trata como um mercado de alto risco e com chance elevada de fracasso comercial.
Ano após ano, os produtos com a marca Realme parecem mais maduros e competitivos. Ainda assim, o maior desafio continua a ser o mais básico - e talvez o mais difícil: transformar curiosidade em reconhecimento real de marca e superar, de vez, o problema de notoriedade.
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