Pular para o conteúdo

Estudo revela que o relincho do cavalo é uma mistura única de dois sons.

Veterinário com tablet analisando sons respiratórios de cavalo em clínica ao ar livre.

Nova York (agência AP) - Cavalos relincham para encontrar novos companheiros, cumprimentar velhos conhecidos e até “comemorar” momentos agradáveis, como a hora da comida.

Apesar de ser um som tão familiar, por muito tempo os cientistas não conseguiam explicar com precisão como os cavalos produzem esse ruído característico.

Cavalos e o relincho: um som com duas camadas ao mesmo tempo

O relincho é uma mistura incomum de sons agudos e graves emitidos simultaneamente - como se um grunhido e um guincho acontecessem juntos.

A parte grave quase não era um enigma. Ela surge quando o ar passa por pregas de tecido na caixa vocal (laringe), que vibram e geram som. É um princípio parecido com o que acontece quando humanos falam ou cantam.

O quebra-cabeça sempre foi a componente aguda. Em geral, animais maiores têm estruturas vocais maiores e, por isso, produzem sons mais baixos. Então, como um cavalo consegue incluir notas tão altas no mesmo chamado?

O estudo: câmera pelo nariz, exames detalhados e testes na caixa vocal

Um novo estudo indica que a resposta é surpreendente: os cavalos assobiam.

Para entender o mecanismo, os pesquisadores introduziram uma pequena câmara pelas narinas dos animais e filmaram o interior enquanto eles relinchavam e também enquanto faziam outro som comum - mais baixo, discreto e suave, típico de aproximação social. Além disso, realizaram exames minuciosos e ainda conduziram testes ao fazer o ar passar por caixas vocais isoladas de cavalos já mortos.

O assobio na caixa vocal que cria os tons agudos do relincho

Os autores concluíram que os tons agudos misteriosos do relincho são uma forma de assobio que começa na própria caixa vocal. Enquanto o ar faz vibrar os tecidos na laringe, uma região logo acima se contrai, deixando uma abertura pequena por onde o assobio escapa - e, assim, o componente agudo aparece ao mesmo tempo que o grave.

Isso difere do assobio humano, que é produzido com a boca.

“Eu nunca tinha imaginado que existia um componente de assobio. É realmente interessante - e agora consigo ouvir isso”, afirmou Jenifer Nadeau, pesquisadora de cavalos na Universidade de Connecticut. Ela não participou do trabalho, publicado na segunda-feira na revista científica Biologia Atual.

Por que isso importa: dois mecanismos, duas frequências fundamentais

Alguns roedores pequenos, como ratos e camundongos, também assobiam desse modo. Ainda assim, segundo os cientistas, os cavalos são o primeiro grande mamífero conhecido com essa habilidade. Eles também seriam os únicos animais conhecidos capazes de assobiar pela caixa vocal enquanto “cantam”.

“Saber que um ‘relincho’ não é apenas um ‘relincho’, mas que ele é composto por duas frequências fundamentais diferentes, criadas por dois mecanismos distintos, é empolgante”, disse Alisa Herbst, do Centro de Ciência Equina da Universidade Rutgers, em mensagem por e-mail sobre o estudo.

Origem e função: o relincho de dois tons e a comunicação social

Uma pergunta importante continua em aberto: como surgiram esses chamados de dois tons nos cavalos? Cavalos selvagens de Przewalski conseguem fazer algo parecido, assim como uapitis (veados-alces). Porém, parentes mais distantes dos cavalos, como jumentos e zebras, não conseguem produzir esses sons agudos.

Os relinchos de dois tons podem ajudar os cavalos a transmitir mais de uma mensagem ao mesmo tempo. As variações de altura no relincho podem permitir que eles expressem uma gama mais complexa de estados emocionais durante a convivência social, segundo a autora do estudo Elodie Mandel-Briefer, da Universidade de Copenhague.

“Eles conseguem expressar emoções nessas duas dimensões”, disse Mandel-Briefer.

O que essa descoberta pode mudar na prática

Compreender a “engenharia” do relincho pode melhorar a interpretação de sinais de bem-estar em haras, centros de treino e propriedades rurais. Se diferentes combinações de tons graves e agudos se relacionarem a contextos específicos (separação do grupo, excitação, ansiedade, proximidade de alimento), cuidadores e veterinários podem ter mais uma ferramenta para identificar desconforto ou stress antes que ele apareça em forma de comportamento.

A descoberta também abre espaço para novas formas de monitorização acústica. Em ambientes com muitos animais, sensores e análises de som podem ajudar a mapear padrões de comunicação ao longo do dia - por exemplo, comparando períodos de maior agitação com mudanças de rotina, manejo, lotação ou enriquecimento ambiental - sempre considerando que o relincho é apenas uma parte do repertório social dos cavalos.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário