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Xi Jinping e a vantagem diplomática da China na crise do Irã

Homem de terno azul sentado à mesa com mapas, globo terrestre e duas bandeiras da China ao fundo.

As bombas e os mísseis disparados por americanos e israelenses contra o Irã acabaram, paradoxalmente, reforçando a posição diplomática da China - e isso sem que Pequim tivesse feito um único disparo. Xi Jinping fez questão de sinalizar essa virada, do seu próprio jeito.

Desde 28 de fevereiro de 2026, os ataques israelo-americanos ao Irã incendiaram o Oriente Médio e, por consequência, quase todo o restante do planeta. O tráfego no Estreito de Ormuz foi severamente afetado, o que rompeu a cadeia global de abastecimento de petróleo. Embora a passagem tenha sido reaberta depois - ainda que com algumas “concessões” -, o preço dos combustíveis disparou, a inflação voltou a acelerar e o FMI, que se preparava para revisar suas projeções de crescimento para cima, fez exatamente o contrário. Segundo o Bourse Direct, a entidade avaliou que a “taxa de crescimento mundial pode ficar limitada a 3,1%, ante os 3,3% esperados […] em janeiro”.

Em meio a esse cenário geopolítico extremamente tenso, o presidente chinês recebeu vários líderes internacionais em Pequim em 14 de abril. Entre eles estava Pedro Sánchez, presidente do governo da Espanha, a quem Xi disse, segundo a Bloomberg: “a ordem internacional está desmoronando em meio ao caos”. É uma formulação incomumente direta para um dirigente cuja diplomacia costuma ser mais contida e cuidadosamente higienizada.

O melhor aliado de Xi Jinping atende por Donald Trump

Naquele mesmo dia, Xi Jinping também recebeu o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, o xeique Khaled bin Mohammed bin Zayed Al Nahyan, príncipe herdeiro de Abu Dhabi, e Tô Lâm, presidente do Vietnã. Se Lavrov estava em Pequim, é razoável supor que isso se deva ao desejo chinês de fortalecer o eixo sino-russo justamente no momento em que Washington se enreda no conflito no Oriente Médio. Moscou e Pequim têm todo interesse em ver esses dois focos de tensão se espalharem, para diluir o poder americano.

O caso do príncipe herdeiro de Abu Dhabi é diferente. Os Emirados Árabes Unidos são aliados históricos de Washington, integram o bloco do Golfo que os Estados Unidos supostamente devem proteger, e a ida de seu representante a Pequim mostra que até parceiros tradicionais dos EUA passam a buscar garantias em outro lugar quando a guerra bate à porta. Xi Jinping lhe disse: “Preservar a autoridade do direito internacional não deve significar usá-lo quando nos convém e rejeitá-lo quando não convém. Não podemos deixar o mundo voltar à lei da selva”.

Sánchez, membro da OTAN, já fez sua quarta visita em quatro anos - uma frequência sem paralelo entre líderes europeus. É difícil culpá-lo. Desde que Trump ameaçou romper as trocas comerciais com a Espanha, depois de Madri se recusar a colocar suas bases militares à disposição de um ataque ao Irã, ele entendeu que, para não ser esmagado entre dois gigantes, é melhor ser amigo do mais tranquilo do que vassalo do mais irascível. O presidente chinês lhe transmitiu uma linha de raciocínio semelhante, convocando os dois países a “cooperar de perto para […] defender em conjunto um verdadeiro multilateralismo, preservar o sistema internacional centrado nas Nações Unidas e a ordem internacional baseada no direito internacional”.

A presença de Tô Lâm talvez seja o caso mais revelador de toda essa jornada. Hanói faz fronteira terrestre com a China, carrega uma história milenar de dominação e resistência, mantém viva a memória da invasão de 1979 e segue envolvida em uma disputa territorial sensível nas ilhas Spratly e Paracel.

Isso não o impediu de comparecer à reunião. Não porque exista uma afinidade particular entre Tô Lâm, Xi Jinping e a China, mas porque um país que sobreviveu a mil anos de pressão entre grandes impérios sabe reconhecer o momento em que a legitimidade de um líder também depende de sua capacidade de poupar o próprio povo de uma guerra que ninguém virá vencer por ele. Seu presidente, portanto, age em conformidade com essa lógica e prefere sentar-se à mesa a ser triturado no aperto de uma guerra econômica.

A guerra no Irã produziu um efeito que vinte anos de diplomacia chinesa não haviam conseguido alcançar: tornou a China aceitável para parceiros que antes a mantinham a uma distância cautelosa. Afinal, foi a obsessão belicista de Trump que os levou até ela, sem que Xi Jinping precisasse insistir demais. Se, como afirmou Xi, “a ordem internacional está desmoronando em meio ao caos”, então este é o cenário ideal para a China mostrar que seu modelo diplomático resiste melhor às crises do que o do Tio Sam. Não ingerência, interesses mútuos, ausência de condicionalidades, continuidade política por meio de um plano decenal: virtudes que Washington jamais soube vender e que Pequim nem precisa mais promover.

Há também outro ponto importante: em tempos de choque energético e incerteza militar, muitos governos passam a valorizar menos a retórica e mais a previsibilidade. Nesse terreno, a China se beneficia não por parecer benevolente, mas por oferecer uma sensação de estabilidade operacional. Para vários países, sobretudo os que dependem de comércio, investimento e energia, isso vale mais do que discursos grandiosos sobre alianças que se desfazem ao primeiro bombardeio.

E há ainda um efeito político mais amplo. Quando o sistema internacional parece perder coordenação, cresce o espaço para potências que se apresentam como pacientes, pragmáticas e dispostas a negociar sem humilhar publicamente seus interlocutores. Pequim sabe explorar essa brecha com precisão: transforma a crise em vitrine, a prudência em argumento e a própria imagem de confiabilidade em uma arma diplomática.

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