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BlackRock atravessa a turbulência dos mercados e atrai US$ 130 bilhões em novos recursos

Homem de terno em escritório moderno aponta gráfico financeiro em tablet sobre mesa de vidro.

Enquanto as bolsas do mundo inteiro oscilam, o maior gestor de ativos do planeta continua recebendo uma enxurrada de dinheiro novo. Só no primeiro trimestre de 2026, a BlackRock atraiu US$ 130 bilhões em novos capitais. Em um momento em que o apetite por risco cai em vários mercados, o resultado chama atenção.

No início de 2026, a máquina da BlackRock opera em ritmo máximo. Em linhas gerais, seu negócio consiste em aplicar o dinheiro de clientes - como fundos de pensão, seguradoras, governos e investidores individuais - em milhares de empresas espalhadas pelo mundo, cobrando taxas de administração por isso.

No primeiro trimestre, o grupo apurou lucro líquido de US$ 2,21 bilhões, acima dos US$ 1,51 bilhão registrados no mesmo período do ano anterior. Já os ativos sob gestão, isto é, o total de recursos administrados para seus clientes, chegaram a US$ 13,89 trilhões, ante US$ 11,58 trilhões um ano antes. Larry Fink, fundador e CEO da companhia, descreveu o período como “um dos melhores começos de ano da nossa história”. Ainda assim, vale observar que esse montante recuou levemente em relação ao fim de dezembro, quando a empresa administrava US$ 14 trilhões.

O desempenho surpreende ainda mais porque o conflito no Oriente Médio, as tensões geopolíticas e a incerteza econômica global estão pesando fortemente sobre os mercados financeiros. O índice S&P 500, principal termômetro da bolsa americana, por exemplo, caiu 4,6% nos três primeiros meses do ano. Mesmo assim, a BlackRock registrou US$ 130 bilhões em novos aportes apenas no primeiro trimestre. O que explica uma diferença tão grande?

Um modelo preparado para atravessar crises

A resposta está no fato de que a BlackRock reúne várias fontes de receita distintas, e nem todas reagem da mesma forma às turbulências do mercado. Um dos principais motores são os ETFs ativos. Diferentemente de um ETF tradicional, que apenas replica automaticamente um índice, o ETF ativo é conduzido por gestores que fazem escolhas e ajustam a carteira conforme as condições de mercado. Em períodos de forte volatilidade, esse tipo de produto costuma atrair investidores em busca de uma condução mais especializada para enfrentar a instabilidade.

O segundo pilar é o universo cripto. Mesmo com o Bitcoin em queda de 15% e o Ethereum recuando 22% desde o início do ano, os ETFs de criptomoedas da BlackRock continuaram captando US$ 935 milhões no primeiro trimestre. Em poucos meses, a empresa conseguiu consolidar as criptos como uma classe de ativos legítima aos olhos de investidores institucionais.

O terceiro vetor, e talvez o mais estratégico, é o crédito privado. Trata-se do financiamento a empresas fora do sistema bancário tradicional, um segmento que ganhou força após 2008, quando os bancos passaram a emprestar com mais cautela. Nesse mercado, as taxas de administração costumam ser bem mais elevadas do que nos ETFs. Para ganhar escala nessa frente, a BlackRock comprou no fim de 2024 a HPS Investment Partners, que administra cerca de US$ 150 bilhões.

Além disso, a gigante também vende tecnologia financeira. Seu software Aladdin, usado por bancos e seguradoras em todo o mundo, e a Preqin, base de dados focada em mercados privados, impulsionaram um crescimento de 22% na receita tecnológica em relação ao ano anterior. Hoje, essa área já representa 8% do faturamento total do grupo.

Uma ofensiva em todas as frentes

A disputa, porém, é duríssima no mercado de ETFs. Quatro gigantes brigam pela liderança global: BlackRock, Vanguard, State Street e Invesco. A guerra acontece sobretudo no preço. Com sucessivas reduções de taxas, a Vanguard conseguiu no ano passado ultrapassar a State Street e assumir o posto no pódio dos maiores ETFs do mundo. Na Europa, a francesa Amundi é a única empresa fora dos Estados Unidos a figurar entre as 10 maiores.

Nesse cenário, a BlackRock acaba de lançar um movimento agressivo: a empresa se prepara para colocar no mercado um ETF baseado no Nasdaq 100, índice emblemático das grandes companhias de tecnologia dos Estados Unidos. Até agora, a Invesco dominava esse nicho, com US$ 374 bilhões em ativos em seu fundo principal. A BlackRock quer quebrar essa posição com sua fórmula já conhecida: tarifas mais baixas e uma força de marca difícil de igualar. Foi exatamente assim que ela avançou sobre o S&P 500, cujo ETF iShares Core hoje está entre os dois maiores do mundo.

Na Europa, a situação é mais desigual. A captação em ETFs - fundos negociados em bolsa muito populares entre os investidores - despencou: de 48 bilhões de euros em fevereiro para apenas 10,6 bilhões em março. A queda foi de 75% em um mês. Os investidores estão rebalanceando suas carteiras: deixam as ações americanas e os mercados emergentes de lado e migram para ETFs amplamente diversificados, títulos de renda fixa de curto prazo ou setores considerados promissores, como energia e defesa. Presente em todos esses segmentos, a BlackRock acaba absorvendo parte desses fluxos de realocação.

Outro ponto que ajuda a explicar sua força é a escala. Quanto maior a empresa, mais fácil se torna diluir custos, negociar taxas competitivas e distribuir produtos em diferentes regiões e perfis de investidor. Em um mercado em que a confiança pesa tanto quanto o retorno, a reputação acumulada por décadas também funciona como um diferencial decisivo.

Nossa análise

A BlackRock está deixando de ser apenas uma gestora de ativos. Seu modelo foi desenhado para sair fortalecido das crises: quando as bolsas caem, investidores correm para seus ETFs; quando os bancos restringem crédito, o braço de crédito privado cresce. É uma engrenagem quase impossível de frear.

Além disso, a empresa é acionista relevante de praticamente todas as grandes companhias listadas do planeta. Em que momento uma empresa se torna central demais para que a economia mundial possa se dar ao luxo de vê-la enfraquecer?

Essa concentração também levanta debates sobre poder econômico e influência corporativa. À medida que administra volumes cada vez maiores, a BlackRock passa a ocupar uma posição sensível nas discussões sobre governança, alocação de capital e até sobre o rumo de setores inteiros da economia global.

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