Pular para o conteúdo

IA generativa muda os aplicativos de namoro, e happn aposta na confiança

Homem sorridente usando celular em cafeteria, com xícara de café, caderno aberto e ícone de segurança digital.

Entre perfis falsos e bots de sedução, os aplicativos de namoro também foram sacudidos pela expansão da inteligência artificial generativa. Karima Ben Abdelmalek, diretora executiva da happn, explica por que se recusa a deixar que os algoritmos paquerem no lugar dos usuários.

A inteligência artificial já entrou na esfera mais pessoal dos aplicativos de relacionamento. Com isso, ela altera as regras da conquista e obriga as plataformas a investir pesado em tecnologia. Esse movimento, porém, tem dois lados: se, por um lado, a tecnologia pode facilitar encontros, por outro, também abre espaço para a criação em massa de perfis fraudulentos.

Para a happn, aplicativo francês com 180 milhões de usuários, esse desafio é decisivo. A lógica da marca se apoia no cruzamento de caminhos - isto é, em reencontrar pessoas que você viu na rua -, um conceito claramente enfraquecido quando a pessoa do outro lado nunca existiu de fato. “Nossa força está em estar muito ligada à vida real, ao contrário de outros aplicativos do mercado, que são mais voltados para encontros on-line”, argumenta Karima Ben Abdelmalek.

Um escudo de segurança contra perfis falsos

A chegada da IA trouxe uma onda sem precedentes e elevou o risco de perfis falsos. “Nosso risco é que fique mais fácil, mais rápido e mais volumoso criar perfis com IA”, admite a executiva. Diante desse cenário, o aplicativo lançou um botão específico para denúncias. O objetivo é limpar a base de dados, mas também treinar o olhar do usuário para reconhecer perfis às vezes “liso demais, bonito demais, perfeito demais”.

Vale destacar que a IA já é usada há anos como ferramenta de moderação. Nesse caso, não se trata de IA generativa: o sistema trabalha nos bastidores para identificar o que o olho humano nem sempre percebe. “Com a IA, conseguimos identificar perfis que curtem em excesso”, explica a ex-jurista. Da mesma forma, o comportamento de curtir centenas de perfis em um segundo é visto como um sinal de alerta.

A empresa também usa a assinatura digital das fotos para impedir que golpistas banidos retornem com outra identidade. Ainda assim, Karima Ben Abdelmalek quer ir além e envolver a comunidade nesse esforço: “Tentamos agir com antecipação, prevenção e educação desde o início, porque sabemos que esse fenômeno já está inundando as redes sociais. Se não aprendermos com o que acontece lá, corremos o risco de chegar tarde demais”.

Outro ponto central é a verificação de comportamento, e não apenas de imagem. Em plataformas de relacionamento, a autenticidade precisa ser tratada como parte da experiência, não só como um recurso técnico. Quando a confiança cai, a disposição para iniciar conversas diminui, e isso afeta diretamente a qualidade dos encontros.

happn também pretende enfrentar com mais seriedade o problema dos golpes amorosos. A partir do segundo trimestre de 2026, o aplicativo vai implementar uma IA capaz de detectar certos padrões usados por estelionatários. Um dos sinais de alerta é a tentativa de levar a conversa para o WhatsApp cedo demais. “Assim que você passa o número, sai da zona de segurança. Nossa função é dizer: atenção, fique aqui, é aqui que você está protegido”, detalha a diretora executiva.

IA, sim - mas não para qualquer coisa

Enquanto algumas gigantes norte-americanas do setor começaram a testar assistentes conversacionais para ajudar pessoas tímidas a puxar assunto, a happn decidiu estabelecer um limite bem claro. Para Karima Ben Abdelmalek, deixar um algoritmo escrever mensagens de conquista no lugar de um ser humano é uma falsa boa ideia que acaba levando ao fracasso amoroso.

“Pode haver alguém que se expresse muito bem numa conversa graças à IA, mas, se depois vocês forem tomar um drinque e você perceber que essa pessoa não se comunica daquela forma, o contraste será enorme”, alerta. Em um ambiente digital cada vez mais lapidado por algoritmos, a sinceridade pode virar um diferencial competitivo. A questão, para ela, é preservar a personalidade real, que sustenta uma conexão duradoura.

A happn, porém, não descarta a inteligência artificial por completo. A plataforma quer apenas posicionar a tecnologia onde ela realmente gera valor sem deformar a troca entre as pessoas, como na organização do primeiro encontro. É essa a proposta da funcionalidade Encontro Perfeito: ela cruza pontos em comum e interesses compartilhados para sugerir um local concreto para o encontro.

Se dois usuários dividem a paixão por arte contemporânea ou crossfit, a ferramenta pode indicar uma exposição ou uma academia específica na região em que ambos circulam. “Isso facilita muito, porque não conseguiríamos fazer esse trabalho sem IA: seria complicado demais mapear todos os lugares em que as pessoas podem sair para conhecer alguém”, afirma a executiva.

Em um cenário dominado por conteúdo gerado por IA e por vídeos e imagens falsificados, a estratégia da happn ganha ainda mais relevância. Manter a confiança do usuário é, segundo Karima Ben Abdelmalek, uma questão de sobrevivência. “Se não tivermos isso, o nosso modelo simplesmente deixa de funcionar”, conclui.

A empresa também aposta em uma educação contínua do público para reduzir riscos. Em apps de namoro, reconhecer sinais de manipulação, respeitar limites e manter a conversa dentro da plataforma por mais tempo pode evitar muitos problemas. Pequenas mudanças de hábito, quando somadas a filtros inteligentes, ajudam a tornar a experiência mais segura sem eliminar a espontaneidade que faz parte de conhecer alguém novo.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário