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Milhões de russos acabam virando vítimas colaterais da guerra entre Moscou e as VPNs

Homem frustrado em frente a laptop com aviso de conexão bloqueada e xícara de chá ao lado.

Milhões de russos estão sentindo os efeitos colaterais da ofensiva do Kremlin contra as redes privadas virtuais. De acordo com a Bloomberg, que cita o fundador do Telegram, Pavel Durov, vários aplicativos bancários russos enfrentaram fortes instabilidades nos últimos dias. A explicação mais provável é a sobrecarga dos sistemas de filtragem do Roskomnadzor, o órgão russo responsável pela regulação das comunicações, que lançou uma nova campanha para restringir o uso de VPNs. Ao tentar apertar o cerco contra essas ferramentas de contorno, Moscou acabou colocando sua própria infraestrutura digital sob pressão.

A máquina de censura russa levada ao limite

Para impedir o funcionamento das VPNs na Rússia, o Roskomnadzor depende de um mecanismo técnico chamado TSPU, uma solução de inspeção profunda de pacotes instalada em todo o país desde 2019. Criada para filtrar e desacelerar conteúdos considerados indesejáveis, essa rede de dispositivos distribuídos entre as operadoras de telecomunicações está no centro da estratégia russa de soberania digital. No entanto, com a intensificação dos bloqueios, o regulador teria sobrecarregado esses equipamentos e provocado falhas que ultrapassaram, de longe, o alvo inicial da operação.

Segundo o fundador do Telegram, os aplicativos de vários grandes bancos russos foram os mais atingidos, com conexões lentas e, em alguns momentos, totalmente indisponíveis por horas. O problema pesa ainda mais porque o sistema bancário russo já vive sob forte estresse desde as sanções ocidentais impostas em 2022 e depende intensamente de plataformas digitais para funcionar normalmente.

Esse tipo de efeito colateral também revela um dilema maior: quanto mais o Estado tenta controlar o tráfego online, maior é o risco de afetar serviços que sustentam a rotina de milhões de pessoas e empresas. No caso dos bancos, mesmo uma breve interrupção pode atrapalhar pagamentos, consultas de saldo, transferências e operações comerciais, ampliando a percepção de fragilidade em um ambiente que precisa de estabilidade contínua.

Um histórico de bloqueios com efeitos inesperados

Essa não é a primeira vez que as ambições digitais de Moscou produzem danos indiretos. Em 2018, ao tentar bloquear o aplicativo de mensagens Telegram, o Roskomnadzor desorganizou milhões de serviços online sem conseguir, de fato, tornar o Telegram inacessível. Dois anos depois, o bloqueio acabou sendo suspenso, em meio a um constrangimento silencioso. Mais recentemente, a Apple foi obrigada a remover as últimas VPNs disponíveis na App Store, depois de já ter retirado, anos antes, grandes nomes do setor como NordVPN e ExpressVPN.

Desde a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, a pressão sobre as ferramentas de contorno aumentou de forma expressiva: Facebook, Instagram e X foram bloqueados, o que levou grande parte da população a recorrer às VPNs para continuar acessando informações sem filtragem. Diante desse uso massivo, o Roskomnadzor intensificou suas tentativas de bloqueio, embora com resultados apenas parciais. Segundo diversos estudos, a Rússia segue entre os países com maior volume de downloads de VPN em todo o mundo.

A tendência ajuda a explicar por que essas ferramentas continuam tão procuradas mesmo sob forte repressão. Sempre que o acesso a plataformas e serviços é restringido, cresce a busca por soluções capazes de contornar filtros e preservar a navegação livre. Na prática, a tentativa de sufocar esse mercado tem funcionado como um incentivo adicional para que usuários comuns, jornalistas e empresas passem a depender ainda mais dele.

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