Quando o calor começa a dar as caras, muita gente vê o gato correndo para a janela como se estivesse pedindo ar livre. Só que, nessa mesma virada de estação, o quintal entra em uma fase crítica para outra parte da fauna - e deixar o gato solto pode ter consequências bem maiores do que parece.
Nos primeiros dias mais amenos, é comum ver gatos no Brasil praticamente colados em janelas e portas de varanda. Para eles, a primavera parece convite para explorar, caçar e patrulhar o território. Ao mesmo tempo, em cercas-vivas, arbustos e ocos de árvores, começa um período extremamente sensível, quase invisível para nós, em que cada saída livre do gato pode fazer diferença.
Primavera no jardim: quando a vida amorosa das aves entra em alta
Em março e abril, para a maior parte das aves nativas, começa a parte mais puxada do ano. Casais se formam, ninhos são construídos, ovos são postos, a incubação começa e, depois, os pais entram num ritmo quase ininterrupto de alimentação. Nos jardins, é nessa fase que surgem berços discretos: no fundo da cerca-viva, atrás de um cano de chuva, numa fresta do muro ou dentro de uma cavidade de árvore.
Muitos filhotes deixam o ninho antes de saber voar com segurança. Eles acabam no gramado, sob um arbusto ou bem ao lado da varanda, parecendo indefesos. Para quem olha de fora, isso costuma soar como emergência, mas muitas vezes tudo está dentro do esperado: os pais permanecem por perto, trazem comida e vão conduzindo os jovens aos poucos para uma vegetação mais fechada.
Para as aves, as semanas de março e abril são um período de alto risco - qualquer fator extra de estresse pode comprometer uma ninhada inteira.
Ao mesmo tempo, dados de longo prazo da ornitologia mostram que muitas populações seguem sob pressão. Em algumas regiões da Europa, ao longo de três décadas, cerca de um terço das aves comuns ficou bem mais raro. Em certos lugares, colônias inteiras de pardais quase sumiram. Nessa situação, cada perda adicional parece puxar mais uma peça de um Jenga que já está desequilibrado.
O que os gatos realmente fazem lá fora na primavera
Nem sempre dá para perceber o modo caça de um gato doméstico. Em casa, ele fica no sofá, come ração de boa qualidade, ronrona satisfeito - e, do lado de fora, continua sendo um predador muito focado. A comida tem papel secundário nisso tudo. O que aciona o comportamento é a sequência da perseguição: avistar, se aproximar de mansinho, espreitar, disparar e agarrar.
Projetos de pesquisa que equiparam gatos com GPS e pequenas câmeras deixam isso bem claro. Eles mostram que muitos animais capturam muito mais do que levam para casa. Grande parte das presas fica abandonada no mato. Estimativas de países com densidade de gatos parecida com a da Alemanha indicam:
- Cerca de dois terços das presas são pequenos mamíferos, como ratos e musaranhos.
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