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De onde vêm as imagens formadas em nosso cérebro?

Criança desenhando com ilustração colorida da imaginação ativa, incluindo cérebro, baleia e natureza.

Mesmo com os olhos fechados, o cérebro pode continuar “enxergando” imagens, quase como uma câmera que funciona sem sensor. Mas como isso é possível?

Se alguém pede que você pense em um gato ou em um cachorro sem vê-lo diante de si, o cérebro consegue gerar uma imagem sem que nenhum objeto esteja realmente à sua frente. Essa imagem nasce apenas das conexões sinápticas, porque o cérebro é perfeitamente capaz de reconstruir e simular a realidade. Trata-se de um processo que acontece de forma inconsciente dezenas de vezes por dia, preenchendo as lacunas da percepção para nos dar a sensação de um mundo contínuo.

Do ponto de vista da neurociência, essa é justamente a definição de imaginação: a capacidade do cérebro de manipular informações sensoriais na ausência de estímulo externo, acessando lembranças armazenadas em sua biblioteca interna. Mas onde ficam guardadas as “arquivos” do que vimos, espalhadas pelos sulcos da matéria cinzenta? Em entrevista à NPR, Varun Wadia, pesquisador do Cedars-Sinai Medical Center e do California Institute of Technology, analisou essa questão com sua equipe: ver e imaginar são, de fato, coisas diferentes? O estudo foi publicado em 9 de abril na revista Science.

A origem das imagens mentais e da imaginação cerebral

Para esclarecer essa questão, Wadia e sua equipe recrutaram dezesseis pessoas - pacientes internados por epilepsia que já tinham eletrodos cerebrais implantados para localizar a origem das crises. Como os eletrodos eram posicionados diretamente no tecido cerebral, os pesquisadores puderam distinguir a atividade individual dos neurônios entre os cerca de 86 bilhões de células do cérebro humano. Com isso, a equipe conseguiu mapear em tempo real a atividade de mais de 700 neurônios por participante, um nível de observação que a ressonância magnética não permite alcançar.

Primeiro, os participantes observaram sequências de imagens - rostos, animais, objetos de uso cotidiano e plantas - enquanto os cientistas registravam, em uma região chamada córtex temporal ventral, envolvida no reconhecimento visual, quais neurônios se ativavam diante de cada figura e com qual intensidade.

Depois, com os olhos fechados, os voluntários foram orientados a imaginar esses mesmos objetos. A hipótese inicial dos pesquisadores era que, sem estímulo vindo da retina, a imaginação produziria uma atividade neuronal mais fraca e mais imprecisa do que a percepção direta.

Os dados mostraram exatamente o contrário: cerca de 40% dos neurônios acionados durante a percepção voltaram a se ativar durante a imaginação, com intensidade semelhante. Isso indica que imaginar imagens envolve os mesmos neurônios; a diferença está apenas na origem do processo. Quando percebemos, a fonte é externa. Quando imaginamos, ela é interna. Ainda assim, o córtex temporal ventral trata os dois casos de forma praticamente idêntica. Essa reprodução neuronal foi tão fiel que os pesquisadores conseguiam identificar, em tempo real, o que o paciente estava imaginando e até o nível de detalhe dessa imagem mental.

“A imaginação é mais importante que o conhecimento”, dizia Albert Einstein. A frase soa provocadora e quase herética quando se lembra que veio de um dos maiores cientistas da história. Ainda assim, esse estudo lhe dá razão de um modo que ele provavelmente não formulou dessa maneira. Não é que a imaginação - ou a visualização mental - seja superior ao conhecimento por ultrapassar os limites do que pode ser percebido. O ponto é que, no nível dos neurônios, ela é quase indistinguível da percepção: o cérebro processa os estímulos de maneira muito parecida, sejam eles externos ou internos. Sem saber, Einstein descreveu duas manifestações do mesmo mecanismo neural: uma voltada para o mundo, outra voltada para dentro. Uma observação brilhante que, agora, as neurociências passam a interpretar literalmente.

Esse tipo de descoberta também ajuda a explicar por que algumas pessoas conseguem visualizar com enorme nitidez, enquanto outras formam imagens mentais mais vagas. Diferenças na força das conexões entre áreas de percepção, memória e atenção podem alterar essa experiência, o que abre caminho para novas investigações sobre criatividade, aprendizagem e até distúrbios neurológicos.

Além disso, entender como o cérebro recria imagens sem estímulo externo pode ter aplicações práticas. Pesquisas futuras podem contribuir para desenvolver interfaces cérebro-computador, melhorar a reabilitação de pacientes com lesões neurológicas e aprofundar o estudo de condições em que a percepção e a imaginação se misturam, como em certos quadros psiquiátricos e neurológicos.

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