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Senado aprova a liquidação de *60 Milhões de Consumidores*

Mulher sentada lendo documento intitulado "CONSUMIDOR" em sala de aula com mesa, cadeiras e plantas.

A decisão já foi tomada. O Senado acabou de confirmar a liquidação de 60 Milhões de Consumidores, revista emblemática que se firmou como uma das principais defensoras dos direitos do consumidor na França. É uma medida de grande peso não apenas para o futuro da publicação, mas também para o rumo das próprias sociedades em que esse tipo de imprensa existe.

O anúncio repercute como uma verdadeira bomba no cenário midiático francês e recoloca uma pergunta direta na mesa: ainda é possível sustentar um jornalismo investigativo independente sem apoio do Estado?

60 Milhões de Consumidores: por que sua existência incomodava tanto?

Desde a sua criação, 60 Milhões de Consumidores cumpria uma função claramente associada ao serviço público. Suas apurações detalhadas sobre a qualidade de produtos, seus testes comparativos e suas denúncias sobre práticas duvidosas adotadas por determinadas empresas fizeram da revista uma referência incontornável no jornalismo voltado ao consumo. Muito mais do que uma simples comparadora de preços, a publicação expunha substâncias tóxicas em cosméticos, alertava para golpes na internet, revelava o escândalo das bonecas da Shein, explicava as letras miúdas de contratos de seguro e trazia à tona métodos enganosos usados por alguns setores da indústria. Era um trabalho paciente e minucioso, que exigia estrutura humana e recursos financeiros relevantes.

Esse tipo de cobertura também tem uma utilidade muito concreta no dia a dia. Em um cenário de orçamento apertado, contratos complexos e excesso de propaganda, reportagens assim ajudam o público a enxergar o que está por trás das promessas comerciais. Elas transformam linguagem técnica em informação acessível e oferecem ao consumidor critérios reais para decidir com mais segurança.

Só que essa independência tem custo, e, ao que tudo indica, um custo alto demais em um período de crise da imprensa. Essa é, pelo menos, a justificativa oficial apresentada pelo governo: a necessidade de economizar.

Mas será que uma revista como 60 Milhões de Consumidores pode ser tratada como uma empresa comum? Na prática, não. 60 Milhões de Consumidores funcionava como um contrapeso. Suas denúncias podiam abalar gigantes do setor industrial, alertar milhões de franceses sobre riscos à saúde e obrigar companhias a reverem práticas. Em um país em que os lobbies empresariais têm enorme influência - como mostram os acontecimentos recentes do caso Perrier -, não surpreende que um veículo com tanta força provoque incômodo. Por isso, muitos analistas passaram a questionar as verdadeiras intenções do Estado. Em termos mais diretos: essa liquidação é mesmo uma medida de austeridade ou esconde a vontade de silenciar uma voz crítica demais?

Além das implicações editoriais, a decisão produz um efeito humano imediato. Sessenta postos de trabalho estão diretamente ameaçados. Sessenta jornalistas, técnicos e investigadores podem ficar sem ocupação amanhã. São profissionais que dedicaram a carreira à defesa do interesse coletivo e a esclarecer as escolhas de milhões de consumidores. Todo o conhecimento acumulado, as redes de contato e a experiência desses trabalhadores correm o risco de desaparecer junto com a revista.

“É grave”, resume um ex-integrante da redação. Grave para os empregados, grave para os consumidores, grave para a democracia. Porque um país que deixa de financiar informação de interesse público é um país que, pouco a pouco, abre mão de municiar seus cidadãos contra os abusos do mercado.

Quando esse espaço enfraquece, cresce a chance de o vazio ser ocupado por recomendações patrocinadas, conteúdos com interesse comercial e avaliações superficiais, exatamente o oposto da transparência que o consumidor precisa.

60 Milhões de Consumidores acabou mesmo?

A boa notícia é que alguns veículos conseguiram se tornar sustentáveis sem abrir mão da independência. Há casos, como o do Mediapart, que alcançaram esse objetivo por meio de um modelo de assinaturas digitais bem estruturado. Mas o Mediapart atua em política, justiça e temas que costumam gerar repercussão e debate.

Já os assuntos de consumo, embora essenciais, enfrentam mais dificuldade para mobilizar grandes audiências e criar o engajamento necessário para sustentar um modelo totalmente pago. O risco, portanto, é ver 60 Milhões de Consumidores desaparecer ou, no melhor dos cenários, virar uma versão diluída do que foi um dia.

E isso reacende o debate sobre a independência da mídia na França. O destino de 60 Milhões de Consumidores coloca em evidência a importância de uma informação confiável e transparente dentro da sociedade. Em tempos de fake news, de sites de falsa informação que publicam textos inteiros produzidos por IA, de influenciadores patrocinados que dão conselhos de compra enviesados e de redes sociais que amplificam boatos e imprecisões, contar com fontes rigorosas e independentes nunca foi tão necessário.

O que acontecerá, então, com 60 Milhões de Consumidores? Há quem ainda aposte na possibilidade de uma fundação, de uma rede de financiamento coletivo ou de uma compra por um grupo de mídia comprometido com a causa possa salvar o título. Mas, por enquanto, esses cenários seguem hipotéticos e pouco plausíveis. Enquanto isso, as equipes da revista estão em choque, os leitores tentam entender o que vem pela frente e as associações de defesa do consumidor denunciam um verdadeiro “abandono” do Estado de suas obrigações.

Já surgem vozes pedindo mais tempo, um plano de socorro e até uma reflexão mais ampla sobre como financiar os veículos de interesse público. Porque o futuro de 60 Milhões de Consumidores também é o futuro da imprensa independente, das nossas sociedades e das nossas democracias. Só que, em meio a um clima político tenso e a contas públicas pressionadas, a chance de esse veículo sobreviver parece cada vez menor.

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