Amostras de regolito mostram como substâncias orgânicas chegam à Lua, são processadas por impactos e alteradas pelo vento solar
Cientistas identificaram uma grande variedade de compostos orgânicos nitrogenados na superfície de amostras de solo lunar trazidas pelas missões chinesas Chang'e-5 e Chang'e-6. Essas descobertas oferecem novos dados sobre a evolução da matéria orgânica no Sistema Solar.
A pesquisa, conduzida pelo Instituto de Geologia e Geofísica da Academia Chinesa de Ciências em parceria com colaboradores internacionais, mostrou que a Lua guarda registros da entrega e da transformação de materiais orgânicos no espaço.
No Sistema Solar primitivo, asteroides e cometas atuaram como “mensageiros cósmicos”, levando substâncias orgânicas e elementos associados à vida, como carbono, nitrogênio, oxigênio, fósforo e enxofre, aos planetas terrestres. Embora esses materiais possam ter ajudado no surgimento da vida na Terra, a geologia ativa e os processos biológicos do planeta apagaram a maior parte desses vestígios iniciais. Diferentemente da Terra, a Lua, com sua geologia relativamente inativa, funciona como uma “cápsula do tempo”, preservando evidências da entrega de matéria orgânica extraterrestre e de sua evolução posterior.
Estudos anteriores de amostras trazidas à Terra no âmbito das missões do programa Apollo confirmaram a presença de carbono e nitrogênio no solo lunar, mas a composição e a origem dos compostos orgânicos nitrogenados continuavam indefinidas. Na nova pesquisa, os cientistas analisaram partículas de regolito com métodos avançados de microscopia e espectroscopia para examinar sua estrutura, ligações químicas, grupos funcionais e composição isotópica.
Os resultados mostraram que a matéria orgânica no regolito existe em três formas principais: granular, aderida e encapsulada. Essas formas variam da escala submicrométrica à micrométrica e muitas vezes estão misturadas a minerais lunares comuns. Do ponto de vista químico, os materiais são compostos principalmente por carbono, nitrogênio e oxigênio, com estrutura majoritariamente amorfa. Algumas amostras também contêm grupos funcionais amida, o que indica uma reciclagem química complexa da matéria orgânica.
A análise isotópica revelou que o hidrogênio, o carbono e o nitrogênio nesses materiais orgânicos são mais leves do que nos condritos carbonáceos e em amostras de asteroides. Isso é compatível com processos causados por impactos, como vaporização, condensação e reprecipitação. Os dados sugerem que, quando asteroides e cometas atingem a superfície da Lua, os materiais orgânicos não apenas se depositam, mas também se decompõem, migram e se recombinam em novos compostos.
Pela primeira vez, os cientistas detectaram sinais da ação do vento solar sobre a matéria orgânica lunar. Alguns compostos orgânicos associados à superfície apresentam variações nos isótopos de hidrogênio e na proporção entre hidrogênio e carbono perto de áreas expostas, o que aponta para uma exposição prolongada à radiação solar. Essas “impressões” excluem a possibilidade de contaminação terrestre.
O estudo descreve um percurso contínuo da evolução da matéria orgânica lunar - desde a entrega até a transformação provocada por impactos e o intemperismo espacial. Esses dados passam a integrar um novo capítulo da história do transporte de matéria orgânica no Sistema Solar primitivo e dão suporte aos cenários das futuras missões chinesas de retorno de amostras do espaço profundo.
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