Num mercado de smartphones cada vez mais disputado, chamar atenção exige mais do que lançar aparelhos interessantes. A Realme tenta fazer isso com uma combinação de design marcante, produtos diferenciados e uma comunicação pensada para um público jovem. Depois de apresentar o GT8 Pro, um topo de linha de ótimo nível, a fabricante voltou a despertar curiosidade. Mas, afinal, quem é essa marca que parece querer fugir do padrão? Julien Lidoine, diretor comercial da Realme na França, explica.
Recentemente testamos o Realme GT8 Pro, um excelente smartphone premium que aposta forte no visual e também em uma parte fotográfica muito caprichada. Usamos o aparelho por várias semanas e, em todas as ocasiões, a mesma dúvida acabava surgindo entre as pessoas ao redor: “que marca é essa, a Realme?”.
Para muita gente, a Realme pode parecer só mais uma fabricante tentando espaço na França. Em parte, isso é verdade, mas a ideia é ir além e se firmar de vez no país. Como a Realme pretende entrar na cabeça do consumidor e qual é a sua estratégia? De que forma a jovem marca quer se diferenciar em meio a uma concorrência brutal? Fomos atrás de Julien Lidoine, diretor comercial da Realme França.
Uma marca que aposta na juventude
Comecemos do começo. A Realme é uma fabricante chinesa, sediada em Shenzhen. Ela nasceu dentro da Oppo, em 2010, com o nome Oppo Real. A divisão ganhou independência em 2018, passou a se chamar Realme e chegou à França em 2019. Embora não seja mais uma subsidiária da Oppo, continua no mesmo grupo corporativo (voltaremos a isso). Para se destacar em um mercado tão acirrado, a marca decidiu mirar прежде de tudo nos jovens.
Não se trata apenas de uma escolha de imagem, mas de uma estratégia que dá resultado: “77% dos nossos consumidores têm entre 18 e 34 anos”, afirma Julien Lidoine. “Somos uma marca de jovens falando com jovens. Os fundadores e a maioria dos funcionários estão nessa faixa etária. A média é de 28 anos. Não foi exatamente um plano, mas isso acabou virando naturalmente a identidade da marca”.
Essa juventude também molda a operação interna, que funciona “quase como uma startup”. Na França, a equipe tem 16 funcionários, número que pode parecer baixo para uma subsidiária de uma multinacional. É justamente essa mentalidade que dá à marca mais flexibilidade. Para conquistar espaço, a Realme aposta especialmente em dois pilares: uma comunicação fora do padrão e produtos realmente distintos.
Produtos de qualidade em todos os segmentos, mas também diferentes
A Realme tem fama de fabricar celulares baratos. Só que esse estereótipo não traduz bem a realidade: a marca atua em todas as faixas de preço, do básico ao premium.
“A melhor comunicação é colocar os celulares nas mãos das pessoas”, diz Julien Lidoine. Se um cliente fica satisfeito com um aparelho de 200 euros, tende a continuar na mesma marca quando for subir para um modelo de 400 euros, ou mais. Por isso, a Realme investe pesado nesses produtos mais acessíveis, tanto no design quanto na experiência de uso. Esse é o ponto central, mas não é a única forma de se diferenciar no mercado:
“Em um produto de valor equivalente, como acontece nos tops de linha, nossa proposta é a que melhor se encaixa em uso, ergonomia e estética para a geração que chamamos de colarinhos azuis”, ou seja, estudantes do ensino médio, universitários e jovens trabalhadores. No caso do Realme GT8 Pro, a marca aposta na fotografia, graças a uma parceria com a Ricoh, especialista em street photography, que conversa com um público jovem e urbano. Talvez isso não seja um diferencial tão forte na nossa avaliação, especialmente em um produto de 1.000 euros, mas ao menos deixa claro o tipo de imagem que a Realme quer passar.
Além disso, a marca quer se diferenciar das concorrentes com um lema simples: transformar cada smartphone em um produto único. Um exemplo é o acabamento em silicone do GT8 Pro, com aquele efeito de papel amassado que nos agradou bastante, que não é igual em todas as unidades. “Cada produto será diferente. Você pode pegar mil e não vai encontrar dois idênticos”. A mesma lógica aparece na possibilidade de trocar o módulo da câmera por outro. Cada pessoa escolhe o que fizer mais sentido para si. Outro exemplo marcante é o Realme 14 Pro Plus, um intermediário com textura canelada que muda do branco para o azul quando está frio. De novo, o padrão varia de um aparelho para outro. Ainda assim, a marca não consegue aplicar essa ideia em todos os celulares, porque isso encareceria demais a produção.
De todo modo, a estratégia parece estar funcionando, já que entre 2023 e 2024 a Realme quadruplicou as vendas na França. Infelizmente, a marca não revelou os números exatos.
Uma comunicação fora do quadro
Para conquistar os jovens, a Realme aposta em uma estratégia que lembra a da Honor em seus primeiros anos, em meados da década de 2010: fazer campanha quase só nas redes sociais. Em vez de publicidade tradicional, com outdoors ou comerciais, a marca investe em posts frequentes no TikTok e no Facebook, concursos, engajamento e ações do tipo. Isso sai mais barato e ajuda a reduzir o preço final dos aparelhos.
Mas essa abordagem também tem limites: “A Europa é difícil de penetrar, porque o mercado de operadoras voltou a ganhar protagonismo; ele representa entre 50% e 60% do mercado”. Por enquanto, a Realme não trabalha com nenhuma operadora francesa (uma estratégia que ajudou marcas como a Nothing a decolar), mas isso continua sendo uma meta, segundo a empresa. Na França, esse é simplesmente o melhor caminho para ganhar visibilidade. Ao mesmo tempo, a Realme já atua com varejistas como Fnac e Boulanger, para manter presença física nas lojas. Com isso, os consumidores veem a marca e alguns até descobrem que ela existe.
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A Realme deixou a França em 2022 e voltou em 2024 com uma nova equipe. Julien Lidoine explica que a marca agora tem mais chances de ficar e que atualmente oscila entre a quinta e a sétima posição entre as maiores vendedoras no país.
Uma marca independente dentro de um conglomerado maior
Como explicamos antes, a Realme nasceu como submarca da Oppo, antes de ganhar independência em 2018, embora continuasse sob a influência da BBK Electronics. A BBK deixou de existir em 2023, sendo substituída por uma corporação com a OpPlus no centro (Oppo e OnePlus), além de marcas satélites como Vivo e Realme. Mesmo assim, a Realme é de fato independente. Então como explicar que o GT8 Pro seja tão parecido com o OnePlus 15 e o Oppo Find X9 Pro, com quem compartilha o mesmo chassi e as mesmas especificações?
“Isso acontece porque há uma divisão de produção e também de compras de componentes, o que é fundamental. Mas, no restante - estratégia de produto, design, IA -, tudo é completamente independente”.
A Realme não pretende mudar sua estratégia geral no curto ou médio prazo. O objetivo declarado segue o mesmo: fazer bons smartphones que agradem aos jovens, reduzindo ao máximo os custos. Por isso, a fabricante, por exemplo, não pretende entrar no mercado de celulares dobráveis, que seria sinônimo de fracasso comercial quase certo. No fim das contas, os aparelhos da Realme estão cada vez mais convincentes ao longo dos anos, mas agora a marca precisa enfrentar seu maior desafio: superar a falta de notoriedade.
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