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Novo megatendência: Internet da estratosfera desafia o Starlink

Mulher sorrindo segura celular em área rural enquanto dirige olhar para objeto voador não identificado no céu.

Uma tecnologia que opera na estratosfera quer finalmente tapar o último grande “buraco” de conectividade do planeta.

Mesmo hoje, cerca de um quarto da população mundial ainda não consegue acessar a internet de forma útil. Satélites tradicionais não resolvem esse déficit por completo, e levar fibra óptica simplesmente não se paga em muitas áreas. Agora, uma nova leva de plataformas aéreas na estratosfera ganha força e promete banda larga até em vilarejos remotos - com custo bem menor do que as alternativas atuais.

Por que, mesmo com Starlink, bilhões seguem offline

À primeira vista, o cenário parece animador: dezenas de milhares de satélites - com Starlink e OneWeb à frente - já estão em operação ao redor da Terra. Ainda assim, o relatório “Fatos e números 2025”, da União Internacional de Telecomunicações, aponta que cerca de 2,2 bilhões de pessoas vivem sem acesso confiável à internet, em especial em zonas rurais da África, da Ásia e da América Latina.

Isso acontece por motivos bem concretos:

  • Capacidade limitada vinda do espaço: quanto mais pessoas dividem a mesma célula de satélite, mais a conexão perde velocidade. Em áreas populosas, o modelo chega rapidamente ao limite.
  • Infraestrutura cara: para manter cobertura contínua de um ponto específico do planeta, são necessárias constelações inteiras em órbita baixa. Projetar, lançar e operar isso custa bilhões.
  • Preço alto para o consumidor: para muita gente em países emergentes e em desenvolvimento, uma assinatura via satélite continua fora da realidade.

"A próxima etapa da expansão da conectividade global está saindo da órbita da Terra e indo para a estratosfera - mais perto dos usuários, com menos custo e menor atraso."

É nesse ponto que entra a proposta da internet estratosférica: plataformas a cerca de 20 km de altitude para preencher o espaço entre redes terrestres e satélites.

Como funciona a internet na estratosfera com HAPS

O nome técnico é HAPS (High Altitude Platform Station). Na prática, trata-se de aeronaves não tripuladas capazes de permanecer “estacionadas” por longos períodos em altitudes muito elevadas. Entre elas, estão:

  • dirigíveis movidos a energia solar com hélio
  • drones de longo alcance com grande envergadura
  • aeronaves especiais com propulsão a hidrogênio ou híbrida

Diferentemente de satélites, essas plataformas não dão voltas no planeta. Elas ficam quase fixas sobre uma área, tipicamente entre 18 e 25 km de altura. Para referência, satélites de comunicação em órbita baixa costumam operar por volta de 500 km.

Como a distância entre transmissão e recepção é muito menor, surgem vantagens importantes:

  • Menor latência: os pacotes de dados percorrem menos caminho, e o tempo de resposta se aproxima do que se espera em redes móveis.
  • Grande cobertura territorial: uma única plataforma pode atender centenas de milhares de quilômetros quadrados - muito acima de uma torre convencional.
  • Custo menor por usuário: colocar equipamentos na estratosfera é bem mais barato e simples, do ponto de vista logístico, do que lançar foguetes para a órbita.

A alimentação é majoritariamente feita por grandes painéis solares e baterias. Assim, as aeronaves conseguem ficar semanas - e às vezes meses - no ar sem reabastecimento. No solo, o usuário recebe o sinal, em geral, por 4G, 5G ou módulos de rádio específicos, em uma experiência que se parece com a de uma rede móvel comum.

Ideia antiga, tecnologia nova: o que mudou desde o Google Loon

Levar internet pela estratosfera não é uma invenção recente. Já nos anos 1990, empresas e centros de pesquisa testavam conceitos parecidos. Nos anos 2010, quem mais chamou atenção foi o projeto de balões “Loon”, da Alphabet.

No fim, o resultado do Loon foi decepcionante. Em 2021, a iniciativa foi encerrada porque questões relevantes não foram resolvidas:

  • os balões derivavam bastante com o vento e exigiam sistemas de navegação complexos
  • o esforço de lançamento e recuperação era alto, assim como o custo de manutenção
  • ao mesmo tempo, redes de satélites ficaram rapidamente mais baratas e passaram a ser operadas com mais profissionalismo

As novas gerações de HAPS reaproveitam o conceito, mas com um salto técnico. Evoluções em materiais leves, células solares, baterias, pilotos automáticos e eletrônica de rádio tornam o funcionamento contínuo na estratosfera mais viável e mais econômico.

Principais projetos e empresas: panorama das apostas em HAPS e internet estratosférica

Sceye (EUA): um dirigível solar gigantesco

A norte-americana Sceye desenvolve um enorme dirigível de aproximadamente 65 metros de comprimento, preenchido com hélio e coberto por painéis solares. A proposta é manter a posição com alta precisão sobre uma região, atuando por meses como um ponto de acesso de internet quase estacionário.

Os alvos incluem áreas com cobertura precária, além de usos como resposta a desastres e monitoramento de infraestrutura crítica. Na prática, após um terremoto, por exemplo, um dirigível poderia ajudar a montar rapidamente uma rede emergencial quando torres de telecomunicações estivessem fora do ar.

Aalto HAPS (Airbus): o drone solar “Zephyr”

A subsidiária da Airbus, Aalto HAPS, escolheu outro caminho: o Zephyr, um drone ultraleve movido a energia solar. Com cerca de 25 metros de envergadura e consumo mínimo, a ambição é permanecer até 67 dias seguidos na mesma área.

O Zephyr pode funcionar como uma “torre de celular” na estratosfera. Ele se posiciona, por assim dizer, acima de uma região e entrega serviços de banda larga para quem está no solo. Tanto forças armadas quanto operadoras de telecom demonstram interesse nesse tipo de plataforma.

World Mobile (Reino Unido): internet barata em escala nacional

Outro caso vem do Reino Unido. A World Mobile aposta em uma aeronave movida a hidrogênio, capaz de entregar largura de banda de até 200 megabits por segundo. O destaque aqui é o modelo de custo:

"Segundo a empresa, nove dessas plataformas poderiam, em teoria, atender todos os 5,5 milhões de habitantes da Escócia com internet rápida - por apenas cerca de 80 centavos por pessoa ao mês."

Para comparar, um serviço típico de satélite como o Starlink ficaria, nessa conta de exemplo, em torno de 75 libras por mês por residência. Para regiões com pouca infraestrutura, a diferença seria enorme.

A estratosfera vai substituir satélites e redes móveis?

A proposta não é competir como “inimiga”, e sim funcionar como complemento. Torres de celular continuam sendo a melhor solução em cidades densas; a fibra óptica segue como espinha dorsal de backbones rápidos. Satélites, por sua vez, são particularmente úteis em alto-mar e em áreas extremas, como o Ártico e desertos.

As plataformas estratosféricas entram para cobrir o intervalo entre esses mundos. Elas tendem a ser especialmente relevantes para:

  • grandes áreas rurais com baixa densidade populacional
  • regiões montanhosas e arquipélagos
  • zonas de desastre em que a infraestrutura foi destruída
  • países onde expandir redes clássicas é financeiramente inviável

Na prática, um desenho plausível para redes futuras seria: fibra conectando metrópoles e datacenters, redes móveis atendendo centros urbanos, HAPS cobrindo áreas rurais, e satélites assumindo onde nenhuma outra alternativa consegue operar.

Pontos em aberto: regulação, radiofrequência e segurança

Para a internet na estratosfera virar realidade em escala, ainda há obstáculos relevantes. Um dos temas mais sensíveis é o uso de radiofrequências. HAPS, satélites e redes móveis não podem interferir uns nos outros. A atribuição de espectro demanda coordenação internacional e regras regulatórias atualizadas.

Também existem questões de segurança: quem opera essas plataformas, quem controla o espaço aéreo, como evitar quedas e como mitigar ataques de hackers? Para forças armadas e serviços de inteligência, a governança dessas redes é delicada, já que elas transportam grandes volumes de dados e comunicações potencialmente críticas.

O destino das plataformas no fim da vida útil também importa. Ao contrário de satélites, HAPS podem pousar de forma controlada; ainda assim, os operadores precisam definir como reciclar materiais e limitar impactos ambientais.

O que “latência” e “largura de banda” significam, na prática

Quem não lida com redes no dia a dia costuma esbarrar em termos técnicos em projetos de estratosfera. Dois conceitos são centrais:

  • Latência: o tempo que um pacote de dados leva para sair do dispositivo do usuário, chegar ao servidor e voltar. Latência baixa ajuda em chamadas de vídeo estáveis, jogos online fluidos e respostas rápidas de serviços digitais.
  • Largura de banda: indica quantos dados podem ser transmitidos por segundo. É o que determina a velocidade de downloads e quantas pessoas conseguem usar uma plataforma ao mesmo tempo.

Como as plataformas estratosféricas ficam muito mais perto dos usuários do que os satélites, a latência tende a cair, o que melhora a experiência em aplicações como ensino online e telemedicina.

Cenários concretos: onde HAPS podem fazer mais diferença

O potencial é maior onde hoje quase ninguém acredita em um acesso estável. Imagine um país africano com grandes áreas de savana, poucas estradas e orçamento público limitado. Para instalar torres móveis tradicionais, seria preciso construir centenas de quilômetros de acessos e linhas de energia.

Com algumas unidades de HAPS, seria possível dividir o território em zonas funcionais: cada plataforma atenderia vários distritos. Escolas poderiam oferecer ensino online, agricultores acessariam dados meteorológicos em tempo real, e pequenos negócios aceitariam pagamentos digitais - sem exigir torres e fibra por toda parte.

Outro exemplo são desastres naturais. Depois de enchentes ou terremotos, redes terrestres podem ficar inoperantes por dias. Plataformas HAPS podem ser deslocadas com relativa rapidez para a área afetada e, em poucas horas, criar uma rede emergencial. Equipes de resgate ganham coordenação, e a população consegue se comunicar com familiares.

Oportunidades e riscos para usuários na Europa

Mesmo na Europa, incluindo a Alemanha, ainda existem áreas sem cobertura adequada. A internet estratosférica pode reduzir “zonas de sombra” em regiões rurais onde, hoje, construir novas torres não traz retorno suficiente para as operadoras.

Ao mesmo tempo, cresce a dependência de poucos players internacionais de tecnologia. Se um país entrega toda a conectividade rural a um operador de HAPS estrangeiro, fica mais exposto a reajustes de preço, tensões políticas ou falhas técnicas. Por isso, governos e reguladores precisam avaliar cuidadosamente a concessão de licenças e os requisitos mínimos de segurança, privacidade e disponibilidade.

É certo que a estratosfera passa a ser vista como um novo “andar” da internet. Se esse andar vai colocar mais gente online do que a atual onda de satélites depende não apenas de tecnologia e custo, mas também de como políticas públicas e empresas integram essa camada extra ao conjunto das redes.

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