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Misteriosa “Atlântida” subaquática parece uma cidade perdida no oceano.

Mergulhador com roupa de neoprene e nadadeiras amarelas examinando escadaria submersa com tartaruga ao fundo.

Nas águas azul-turquesa que banham a Ilha Yonaguni, no extremo sudoeste do Japão, existe uma formação geológica que parece saída de um mito.

O topo desse relevo fica a apenas 6 metros abaixo da superfície do mar e desce até cerca de 24 metros de profundidade. Visto de longe - e ainda mais de perto - o chamado Monumento de Yonaguni lembra uma cidadela em ruínas: um grande “degrau” de pedra, como se fosse o que sobrou de uma civilização antiga engolida pelo oceano.

Monumento de Yonaguni: “ruínas” submersas ou geologia em ação?

Para a maioria dos geólogos, porém, ele não é vestígio humano algum. A explicação mais aceita é que seu desenho em “terraços”, feito de arenito e argilito, surgiu naturalmente: a rocha teria sido moldada ao longo de fraturas e planos de acamamento por tensões tectónicas e por uma erosão persistente ao longo de milhares de anos.

A estrutura foi identificada em 1987 pelo instrutor de mergulho Kihachiro Aratake e, em pouco tempo, passou a atrair especialistas. Em termos simples, ela fugia do que muitos cientistas estavam acostumados a ver, sobretudo pelo tamanho e por uma aparência incomumente “organizada”.

O conjunto é formado por grandes lajes, dispostas de modo a sugerir degraus e patamares, com arestas e cantos surpreendentemente definidos - um tipo de geometria que, nessa escala, não é o mais comum na natureza. Por isso, surgiram comparações com pirâmides em degraus e zigurates.

Essa impressão é tão forte que o geólogo Masaaki Kimura, da Universidade de Ryukyu, passou anos reunindo um argumento detalhado de que a formação teria sido construída ou modificada por mãos humanas, antes de ser submersa pela elevação do nível do mar há cerca de 10 mil anos.

Entre os colegas geólogos, essa hipótese continua a ser altamente controversa.

Por que muitos cientistas defendem uma origem natural

Embora existam relativamente poucos estudos revisados por pares centrados diretamente na formação de Yonaguni, um conjunto mais amplo de evidências em geologia indica que a aparência “arquitetónica” pode resultar de processos naturais atuando por longos períodos.

A Terra, afinal, consegue produzir rochas com formas notavelmente geométricas.

As colunas hexagonais da Calçada dos Gigantes, na Irlanda, e da Caverna de Fingal, na Escócia, são famosas justamente por parecerem feitas sob medida. O Pavimento Tessellated, na Tasmânia (Austrália), lembra blocos de calçamento alinhados à beira-mar. Já a rocha Al Naslaa, na Arábia Saudita, é conhecida por uma fratura incrivelmente reta e limpa. Na Noruega, Preikestolen - a Rocha do Púlpito - impressiona pela plataforma plana e pela verticalidade quase perfeita.

No caso de Yonaguni, há características e mecanismos geológicos bem específicos que ajudam a ligar os pontos.

Planos de acamamento e conjuntos de juntas: as “linhas” que a rocha já traz

Um plano de acamamento é uma camada natural em rochas sedimentares como arenito e argilito. Ele marca a fronteira entre diferentes fases de deposição, separando estratos com propriedades distintas. Muitas vezes, esses planos são relativamente planos e funcionam como pontos naturais de fragilidade dentro da rocha.

Perpendiculares a esses planos, podem surgir conjuntos de juntas: fraturas que tendem a aparecer em séries mais ou menos paralelas. Quando a rocha sofre tensão - por exemplo, durante tremores - essas juntas se abrem e dividem o material em blocos surpreendentemente regulares.

O geólogo Robert Schoch, da Universidade de Boston, que mergulhou no local em 1997, destacou que a área está num contexto sísmico marcante: segundo ele, “Yonaguni fica numa região propensa a terremotos; esses terremotos tendem a fraturar as rochas de maneira regular”.

Como Yonaguni se encontra numa zona de falhas, a atividade sísmica é significativa - e isso poderia explicar tanto a regularidade das fraturas quanto o aspeto escalonado da formação.

Quando o solo se agita sob a estrutura, as rochas se rompem e deslizam ao longo desses pontos de fraqueza naturais. Esse tipo de movimento pode gerar um relevo com degraus e planos, semelhante ao que se observa no Monumento de Yonaguni.

Correntes marítimas: erosão que separa, alisa e “esculpe”

Além dos tremores, há o trabalho contínuo do mar. Correntes oceânicas em movimento constante tendem a ampliar fraturas, separar blocos e raspar as superfícies, deixando-as mais planas.

Schoch também comentou que formações rochosas na própria Ilha Yonaguni, embora mais arredondadas e mais intensamente desgastadas, exibem um arranjo geral parecido com o que aparece debaixo d’água.

O falecido autor John Anthony West, que explorou a área com Schoch, descreveu a encosta em terra como “um tumulto de planos irregulares e fraturados”. Ainda assim, observou que era evidente tratar-se da mesma geomorfologia básica - apenas com uma diferença importante: por estar exposta ao vento e à chuva, a encosta teria adquirido, ao longo de milhares de anos, um aspeto muito mais áspero e recortado do que a formação submersa.

Por que ainda faltam levantamentos mais detalhados

Estudar geologia subaquática costuma ser difícil e caro. E, como o Monumento de Yonaguni e o contexto rochoso ao redor podem ser explicados por processos naturais, levantamentos mais minuciosos e extensos ainda não se tornaram rotina.

Ainda assim, numa apresentação na Conferência Acadêmica de Primavera de 2024 da Associação de Geógrafos Japoneses, uma equipa de geólogos liderada por Hironobu Suga, da Universidade de Kyushu, ressaltou que, apesar de essas formas já terem sido consideradas artificiais, não foram encontrados vestígios arqueológicos nem sinais de atividade humana.

O grupo informou que, por meio de observações subaquáticas, foi possível acompanhar processos erosivos como desprendimento do embasamento rochoso, abrasão e formação de cascalho, além do desenvolvimento contínuo de feições erosivas - incluindo marmitas (cavidades) de vários formatos e tamanhos.

Esses resultados, segundo a equipa, apontam que as formações com aspeto de ruína estão sendo produzidas pela meteorização e pela erosão contínuas do arenito no fundo do mar.

O que Yonaguni acrescenta ao debate - e ao fascínio

Independentemente da controvérsia, Yonaguni tem valor como vitrine natural: ele ajuda a popularizar conceitos como fraturamento, falhas ativas, estratigrafia e erosão marinha, temas que normalmente ficam restritos a livros técnicos.

Também há um aspeto prático: estruturas submersas com grande apelo visual podem atrair mergulhadores e turismo, o que reforça a necessidade de equilibrar visitação, segurança e conservação. Em locais assim, impactos acumulados - como contato físico com a rocha, ancoragem inadequada e revolvimento de sedimentos - podem acelerar desgastes e dificultar medições futuras.

E, no fim das contas, há um encanto incontornável nisso tudo: a ideia de que o planeta, apenas com tempo, tremores e correntes, consegue “montar” formas tão impressionantes quanto as que parecem obra de engenharia.

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