Um surto da bicheira do Novo Mundo - causada pela larva da mosca Cochliomyia hominivorax - já provocou sete mortes e infetou pelo menos 1.190 pessoas no México e na América do Sul. Diante do avanço para o norte, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) emitiram um alerta para que profissionais de saúde acompanhem de perto a possível expansão do parasita.
Atualmente, há 601 casos ativos em animais em território mexicano. Entre eles, oito foram registados em Tamaulipas, estado que faz fronteira com o Texas, o que levou o CDC a publicar um aviso sanitário direcionado ao sistema de saúde norte-americano.
Bicheira do Novo Mundo (Cochliomyia hominivorax): o que é e como ataca
A bicheira do Novo Mundo é a fase larval de uma mosca que vive, alimenta-se e se desenvolve em feridas e em membranas mucosas de animais de sangue quente.
Bovinos, equinos e suínos são as vítimas mais frequentes, mas o parasita também pode depositar ovos em cães, gatos e até em seres humanos. Sem intervenção, a infestação pode evoluir de forma agressiva e ser fatal - com potencial para matar até uma vaca adulta em apenas uma semana.
Antes da década de 1960, pecuaristas do Texas relatavam que precisavam tratar cerca de 1 milhão de casos por ano, o que ajuda a dimensionar o impacto histórico do problema.
Por que a aproximação do Texas preocupa tanto
O avanço em direção ao Texas é tratado como particularmente sensível porque o estado é o maior produtor de gado dos Estados Unidos. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, um surto de bicheira do Novo Mundo poderia gerar perdas na ordem de US$ 1,8 bilhão.
Além dos custos diretos (tratamentos, mortalidade e queda de produtividade), um cenário desse tipo tende a pressionar cadeias de transporte, abate e comércio, aumentando a necessidade de rastreabilidade e medidas sanitárias no trânsito de animais.
Como os EUA erradicaram a praga e por que isso funcionou
Um detalhe da biologia da bicheira do Novo Mundo foi decisivo para o controlo: as fêmeas costumam acasalar apenas uma vez ao longo de uma vida de cerca de 21 dias, enquanto os machos acasalam várias vezes.
A partir de 1962, cientistas passaram a empregar radiação gama para produzir machos estéreis. A lógica era simples: cada macho estéril, ao acasalar com muitas fêmeas selvagens, levaria à produção de ovos não fecundados, reduzindo rapidamente a população.
Foram libertados milhares de milhões de machos estéreis, lançados de aviões sobre o sul da Flórida, além de Texas, Califórnia, Arizona e Novo México. Em 1982, a mosca foi considerada localmente extinta nos Estados Unidos, no México e em partes da América Central, graças à técnica do inseto estéril, combinada com tratamentos químicos no gado e com condições meteorológicas favoráveis.
A “barreira” do Panamá, a quebra em 2023 e a chegada ao México
Para impedir que a praga voltasse a avançar, uma unidade no Panamá - país situado entre a América do Norte e a América do Sul e conhecido por uma faixa de selva difícil chamada Tampão do Darién - manteve a libertação contínua de moscas estéreis, funcionando como uma espécie de barreira biológica.
Apesar disso, em 2023 o parasita teria rompido essa linha de contenção, retomando a expansão para o norte e alcançando o México em novembro de 2024.
Em setembro de 2025, autoridades mexicanas confirmaram uma infestação num bezerro de 8 meses, a cerca de 113 km da fronteira com os Estados Unidos.
O que, segundo o CDC, está a acelerar a disseminação
O CDC atribui a propagação rápida da bicheira do Novo Mundo a um conjunto de fatores, incluindo: - movimentação não regulamentada de gado; - aumento do fluxo de pessoas e animais pela região do Tampão do Darién; - abertura de novas áreas agrícolas, favorecendo a expansão.
Pesquisadores também vêm alertando que as alterações climáticas podem estar a beneficiar a mosca, já que temperaturas mais altas tendem a ampliar o período de pico e a área geográfica em que o inseto consegue prosperar.
Situação nos EUA e recomendações do alerta sanitário
Até ao momento, não foram relatadas infestações - em humanos ou animais - nos Estados Unidos associadas a este surto.
Ainda assim, o CDC afirma que, devido ao potencial de dispersão geográfica, o aviso sanitário busca elevar a atenção e reunir orientações para identificação e notificação de casos, colheita de amostras, diagnóstico e tratamento, além de recomendações de comunicação ao público.
Medidas práticas de prevenção e vigilância (contexto regional)
Em termos de prevenção, a estratégia mais eficaz continua a ser detetar cedo e tratar rapidamente feridas em animais, sobretudo em períodos mais quentes. A inspeção frequente de lesões cutâneas, regiões húmidas e áreas vulneráveis (como umbigo de recém-nascidos, cortes e feridas após procedimentos) reduz a probabilidade de instalação das larvas.
Para serviços veterinários e cadeias produtivas, a vigilância é fortalecida com controlo do trânsito de animais, registos sanitários, quarentena quando indicada e notificação imediata de suspeitas. Em países que fazem parte do corredor de movimentação de animais nas Américas, esse tipo de prontidão ajuda a limitar perdas económicas e a proteger a saúde pública.
O aviso sanitário completo do CDC pode ser consultado no site do CDC.
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