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Tamanho do pênis humano evoluiu por dois motivos, aponta novo estudo.

Homem desenhando figura humana em caderno com laptop mostrando evolução humana na mesa.

Tamanho importa” pode soar como bordão de jornal sensacionalista, mas, para a biologia evolutiva, o tamanho do pénis humano é um verdadeiro enigma.

Quando comparamos a nossa espécie com outros grandes símios - como chimpanzés e gorilas -, o pénis humano aparece como mais comprido e mais espesso do que seria esperado para um primata com o nosso porte.

Se a função principal do pénis fosse apenas transferir esperma, por que razão o pénis humano é tão maior do que o dos nossos parentes mais próximos?

Um estudo recente, publicado hoje na PLOS Biology, indica que um pénis maior em humanos pode cumprir mais dois papéis além da reprodução: atrair parceiras e intimidar rivais.

Por que é tão visível?

Uma das perguntas clássicas da biologia evolutiva é entender por que o corpo humano apresenta determinadas formas. Já há evidências de que certas características físicas - como maior estatura e um tronco em formato de V (ombros relativamente mais largos do que a anca) - tendem a aumentar a atratividade sexual masculina.

Por outro lado, ainda se sabe menos sobre como o tamanho do pénis influencia essas avaliações. Durante grande parte da evolução humana, andámos em postura ereta muito antes de existir roupa, o que tornava o pénis altamente conspícuo tanto para potenciais parceiras como para possíveis rivais.

Isso levanta uma hipótese direta: essa visibilidade terá favorecido, por seleção, um aumento do tamanho?

Há treze anos, num estudo marcante, foram mostradas a mulheres projeções em tamanho real de 343 vídeos com figuras masculinas 3D anatomicamente corretas, geradas por computador. Essas figuras variavam em altura, relação ombro–anca (formato corporal) e tamanho do pénis.

O padrão observado foi claro: em média, as mulheres preferiram homens mais altos, com ombros mais largos e com pénis maior.

O trabalho ganhou repercussão internacional, mas deixava uma parte essencial em aberto. O estudo novo mostra que os homens também reparam no tamanho do pénis - e isso muda a leitura evolutiva do fenómeno.

Uma função dupla do tamanho do pénis humano

Em muitas espécies, traços mais pronunciados nos machos - como a juba do leão ou os chifres do veado - costumam ter duas funções ao mesmo tempo: tornam o indivíduo mais atrativo para as fêmeas e, paralelamente, sinalizam capacidade de combate para outros machos. Até agora, não estava claro se o tamanho do pénis humano poderia ter também essa função dupla.

No novo estudo, confirmou-se novamente que mulheres tendem a considerar um pénis maior como mais atrativo. Em seguida, os investigadores testaram se os homens:

  • julgam que um rival com pénis maior seria visto como mais atraente pelas mulheres; e
  • interpretam, pela primeira vez de forma direta, um pénis maior como sinal de um oponente mais perigoso num confronto físico.

Para responder a isso, mais de 800 participantes viram aquelas mesmas 343 figuras que variavam em altura, formato corporal e tamanho do pénis. As avaliações foram feitas de duas maneiras: presencialmente, com projeções em tamanho real, ou à distância, online, em ecrãs de computador, tablet ou telemóvel.

As mulheres atribuíram notas de atratividade sexual. Já os homens avaliaram as figuras como potenciais rivais, classificando o quanto cada uma parecia fisicamente ameaçadora e o quanto parecia sexualmente competitiva.

O que foi descoberto

Do lado das mulheres, três fatores elevaram a atratividade masculina: pénis maior, maior altura e tronco em V. No entanto, o efeito não aumentava indefinidamente: depois de certo ponto, aumentos adicionais no tamanho do pénis ou na altura traziam ganhos cada vez menores (um efeito de retorno decrescente).

A grande revelação, porém, veio das respostas masculinas. Para os homens, um pénis maior funcionou como indicador de que um rival teria:

  • maior capacidade de luta; e
  • maior competitividade sexual.

Os homens também atribuíram esse mesmo tipo de leitura a figuras mais altas e com tronco mais em V.

Há, contudo, uma diferença importante entre os sexos. Ao contrário das mulheres, os homens tenderam a classificar como cada vez mais fortes competidores sexuais os indivíduos com traços progressivamente mais exagerados. Isso sugere que os homens podem sobreestimar o quanto essas características realmente aumentam a atratividade aos olhos das mulheres.

Outro ponto que chamou atenção foi a consistência dos resultados: as conclusões praticamente não mudavam, quer as pessoas vissem as figuras em projeção real presencial, quer as observassem num ecrã menor pela internet.

Julgamento instantâneo - e com limitações

É essencial não perder de vista que o pénis humano evoluiu, antes de tudo, para transferir esperma. Ainda assim, os dados indicam que ele também atua como um sinal biológico.

Em outras palavras, há evidência de que a evolução do tamanho do pénis pode ter sido parcialmente moldada por:

  • preferências sexuais femininas; e
  • um sinal de capacidade física interpretado por outros homens.

Mesmo assim, o peso desses dois mecanismos não parece equivalente. O efeito do tamanho do pénis na atratividade foi de quatro a sete vezes maior do que o seu efeito como sinal de capacidade de luta. Isso aponta que o aumento do pénis nos humanos provavelmente evoluiu mais como ornamento sexual para atrair mulheres do que como distintivo de estatuto entre homens - embora possa desempenhar ambos os papéis.

O estudo também revelou um detalhe psicológico curioso. Foi medido o tempo que as pessoas levavam para avaliar as figuras, e os participantes foram significativamente mais rápidos ao julgar indivíduos com pénis menor, menor altura e um tronco menos em V. Essa rapidez sugere que tais traços podem ser classificados de forma quase automática e subconsciente como menos atrativos sexualmente ou menos ameaçadores fisicamente.

Como em qualquer experimento, existem limitações. Os investigadores manipularam altura, tamanho do pénis e formato corporal, mas, no mundo real, elementos como rosto e personalidade também têm forte influência na forma como avaliamos alguém. Ainda não está claro como esses fatores interagem entre si.

Além disso, embora os resultados tenham sido consistentes entre homens e mulheres de diferentes origens étnicas, é importante reconhecer que os padrões culturais de masculinidade variam entre sociedades e mudam ao longo do tempo.

Implicações evolutivas do tamanho do pénis humano (além do estudo)

Do ponto de vista evolutivo, sinais corporais tendem a funcionar melhor quando são fáceis de perceber e quando comunicam informação relevante em contextos sociais. Num cenário ancestral com maior exposição corporal, traços visíveis poderiam influenciar rapidamente dinâmicas de escolha de parceira e de competição entre machos, especialmente em encontros breves e com pouca informação disponível sobre a pessoa.

Ao mesmo tempo, é plausível que, nas sociedades atuais, a leitura dessas características seja mediada por normas sociais, autoestima e expectativas aprendidas - o que pode aumentar a discrepância entre o que os homens acham que “conta” e o que, de facto, pesa na avaliação feminina, conforme sugerem os resultados do estudo.

Upama Aich, Forrest Research Fellow, Centre for Evolutionary Biology, The University of Western Australia; e Michael Jennions, Professor Emérito, Biologia Evolutiva, Australian National University.

Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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