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Vacinar meninos contra o HPV pode eliminar o câncer do colo do útero.

Adolescente recebendo vacina HPV no braço em clínica médica com profissional de saúde.

A vacinação de meninos contra o papilomavírus humano (HPV) ainda está abaixo do necessário e, em alguns países, isso pode estar atrapalhando a eliminação do câncer do colo do útero.

Pesquisadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, defendem que ampliar a aplicação da vacina Gardasil em garotos pode poupar muitas vidas ao reduzir cânceres associados ao HPV, incluindo câncer do colo do útero, anal, peniano e oral.

O que o novo modelo matemático indica na Coreia do Sul

A equipe desenvolveu um novo modelo matemático e, ao aplicá-lo a um país como a Coreia do Sul - onde a vacinação contra o HPV é direcionada apenas às meninas - concluiu que a cobertura atual não basta para alcançar imunidade de rebanho contra as cepas do vírus que impulsionam o surgimento de câncer.

A simulação sugere que vacinar 65% dos meninos poderia mudar esse cenário.

Segundo o matemático e autor sênior Abba Gumel, incluir garotos na estratégia reduz a pressão de precisar vacinar uma parcela muito alta de mulheres. Para ele, isso torna a eliminação “mais realisticamente alcançável”.

Com a expansão do programa para meninos, as projeções do grupo indicam que a Coreia do Sul poderia eliminar os cânceres relacionados ao HPV em cerca de 70 anos.

Embora o modelo tenha sido ajustado usando dados de câncer da Coreia do Sul, ele também pode servir para medir a eficácia de programas nacionais de vacinação em outros locais.

Imunidade de rebanho contra HPV: projeções para outros países (incluindo os EUA)

Gumel estima que, em um país como os Estados Unidos, uma cobertura de aproximadamente 70% entre homens e mulheres seria suficiente para atingir imunidade de rebanho.

Por que o HPV é tão importante para a prevenção do câncer

O HPV é um vírus extremamente contagioso, capaz de ser transmitido sexualmente e também por contato com pele ou fluidos corporais. Ele está por trás de praticamente todos os casos de câncer do colo do útero, doença que mata mais de 300.000 pessoas por ano no mundo.

A primeira vacina contra o HPV foi licenciada em 2006 e, inicialmente, foi implementada para proteger contra cepas perigosas do vírus que podem levar ao câncer do colo do útero.

No começo, empresas farmacêuticas divulgaram a vacinação como uma medida preventiva voltada especificamente para mulheres. E, de fato, a vacina demonstrou ser altamente eficaz na prevenção do câncer do colo do útero: nas últimas duas décadas, algumas regiões registraram queda de quase 90% nos casos.

Ainda assim, há mais vidas a proteger - incluindo as de homens. Pesquisadores argumentam que o persistente “viés de gênero” em políticas de vacinação contra o HPV e nas mensagens de saúde pública precisa ser enfrentado para que novos avanços aconteçam.

Hoje, sabe-se que homens e mulheres correm risco de cânceres ligados ao HPV, como câncer anal, peniano, vaginal e cânceres de cabeça e pescoço. Mesmo assim, em muitos países, muito menos jovens do sexo masculino recebem as doses - uma diferença grande entre os sexos que autoridades de saúde querem corrigir.

Vacinação contra HPV em meninos: o que falta para a Coreia do Sul eliminar o câncer do colo do útero

Na Coreia do Sul, por exemplo, o modelo aponta que o país dificilmente eliminará o câncer do colo do útero se não aumentar a vacinação entre meninos.

De acordo com as simulações, 99% de todas as jovens mulheres precisariam estar imunizadas no programa atual do país para se chegar à imunidade de rebanho.

No momento, o percentual de jovens mulheres vacinadas está em 88%, o que significa que o HPV e os cânceres relacionados ainda podem persistir na população.

Esse quadro, porém, poderia mudar se os meninos também fossem vacinados. Se 65% dos homens fossem imunizados e a cobertura feminina permanecesse no patamar atual, os novos modelos indicam que a Coreia do Sul conseguiria alcançar imunidade de rebanho.

Mesmo que a cobertura entre mulheres caísse um pouco, para 80%, a eliminação do câncer do colo do útero ainda poderia ser atingida no país se 80% dos homens também fossem vacinados.

Nos últimos 20 anos, os casos de câncer masculino relacionado ao HPV na Coreia do Sul triplicaram. Portanto, aumentar a vacinação de meninos também pode evitar mortes futuras por esses cânceres.

Quem deve ser vacinado e por quê

Diante desses resultados, os autores do estudo defendem que meninos de 12 a 17 anos devem ser vacinados junto com meninas e também com mulheres mais velhas que talvez não tenham recebido a vacina quando eram mais novas.

Evidências recentes indicam que vacinar pessoas mais velhas ainda pode oferecer algum nível de proteção contra esse vírus de alta transmissibilidade.

Para maximizar o impacto, programas de imunização também tendem a funcionar melhor quando vêm acompanhados de comunicação clara sobre transmissão do HPV, benefícios diretos para homens e mulheres e redução do estigma associado à vacinação.

Além disso, ampliar a vacinação não substitui o rastreamento: fortalecer o acesso a exames de triagem do colo do útero e ao acompanhamento adequado permanece essencial para reduzir mortes, especialmente durante o período de transição até que a proteção populacional se consolide.

Metas globais e o potencial de evitar centenas de milhares de mortes

Por algumas estimativas, se o mundo alcançar ampla cobertura de vacinação contra o HPV e expandir os rastreamentos do colo do útero, cientistas preveem que será possível eliminar o câncer do colo do útero em 149 dos 181 países até a virada do século.

Aumentar as taxas de vacinação entre meninos pode ser decisivo para chegar a essas metas.

Gumel reforça que não é inevitável perder 350.000 pessoas por ano no mundo para o câncer do colo do útero. Para ele, é possível enxergar o fim do HPV e dos cânceres relacionados se a cobertura vacinal for aprimorada.

O estudo foi publicado no Boletim de Biologia Matemática.

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