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Foto premiada revela segredo da teia 'embalada a vácuo' de aranha rara

Aranha vermelha com detalhes brancos em teia retangular suspensa entre galhos em fundo escuro.

A foto em close extremo da seda singular da aranha australiana lançadora de rede ruiva, registada pelo biólogo Martín Ramírez e pela sua equipa, expõe com precisão impressionante as características do material que tornam a “rede” deste animal tão eficiente.

A imagem conquistou o primeiro lugar no Concurso de Fotografia de Publicações da Royal Society deste ano - um lembrete encantador de quantas maravilhas existem no planeta para quem pára por um instante (e recorre a um microscópio) para observar.

Com apenas alguns micrómetros de espessura, as duas fibras de seda, com aspecto de cordão e bordas onduladas, foram fotografadas com o apoio de um microscópio eletrónico.

Aranha lançadora de rede ruiva (Asianopis subrufa): uma armadilha noturna baseada em elasticidade

A aranha lançadora de rede ruiva, Asianopis subrufa (anteriormente classificada no género Deinopis), usa uma estratégia de captura fora do comum. Em vez de depender de teias amplas como as das aranhas tecedeiras de orbe - que prendem presas distraídas com gotículas de óleo viscoso e tóxico distribuídas ao longo dos fios -, esta espécie aposta numa propriedade totalmente diferente da seda: a elasticidade.

À noite, a aranha australiana lançadora de rede prepara uma estrutura aparentemente pequena, com mais ou menos o tamanho de um selo postal. Ela é feita do que se chama seda cribellada, produzida por um órgão conhecido como cribelo.

Esse órgão é coberto por milhares de microaberturas, de onde a aranha puxa fibras individuais de seda, cada uma com espessura em escala nanométrica. Em conjunto, porém, essas fibras formam um material resistente, com aparência felpuda, quase “lanosa”.

Como a seda cribellada funciona (e por que tem “babados”)

Tal como um elástico de cabelo, a seda cribellada combina um núcleo flexível e elástico com um revestimento de fibras mais fortes e rígidas. Esse núcleo consegue esticar até ao limite imposto pela “capa” externa - e é justamente essa arquitetura que gera os belos “babados” visíveis no registo de Ramírez.

A mistura de elasticidade com robustez é indispensável para o estilo de caça noturno da aranha lançadora de rede. Ela fica pendurada de cabeça para baixo, segurando a pequena (mas extremamente elástica) rede com as quatro pernas dianteiras, uma em cada canto.

Visão e emboscada: oito olhos e um sistema de alarme no escuro

A lançadora de rede tem oito olhos; dois deles são bem maiores do que os restantes e apontam para a frente, de forma semelhante aos nossos. Isso dá ao animal ótima visão frontal e capacidade de detetar movimento com pouca luz - algo decisivo para o sucesso das caçadas noturnas.

Para aumentar a eficácia da armadilha, a aranha marca o chão abaixo do “ponto de captura” com pequenas manchas brancas das próprias fezes, muito mais fáceis de distinguir no escuro do que outras cores.

Quando um inseto azarado projeta sombra sobre essas marcas, mesmo que por um segundo, o ataque é acionado. A rede estica até cerca de três vezes o tamanho original, o que permite que seja lançada sobre a presa e, em seguida, retraída, envolvendo o inseto como se fosse uma embalagem a vácuo.

O que esta imagem revela para além da beleza

Registos em microscopia eletrónica como este não servem apenas para impressionar: eles ajudam a entender, em detalhe, como a estrutura física da seda determina o seu desempenho. Ao revelar a organização das fibras e o “acabamento” ondulado do material, a imagem reforça por que a elasticidade - e não a viscosidade - é a chave do método de caça da aranha lançadora de rede.

Além disso, estudar sedas especializadas como a seda cribellada pode inspirar aplicações em materiais de alto desempenho, como superfícies de captura não adesivas, fibras com elevada capacidade de deformação ou estruturas leves que combinam flexibilidade e resistência - princípios valiosos para engenharia e design de materiais.

Os finalistas do Concurso de Fotografia de Publicações da Royal Society de 2025 foram divulgados nos canais oficiais da instituição.

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