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Por que pessoas de alto desempenho programam momentos para lidar com preocupações, em vez de tentar suprimi-las, segundo terapeutas.

Jovem sentado à mesa escrevendo em caderno com laptop e relógio ao lado, em ambiente claro e moderno.

A mulher no café mantinha três telas acesas e um turbilhão de pensamentos escondido atrás do olhar.

Notebook, celular, caderno. Mensagens do trabalho chegando sem parar, agenda lotada, mandíbula travada. Quando a atendente perguntou se ela queria mais alguma coisa, ela se sobressaltou, como se tivessem puxado a cabeça dela para fora de um mergulho. “Desculpa, é que eu estava… pensando”, disse ela - mas a expressão era de preocupação.

Na mesa ao lado, um homem de terno falava baixinho com o terapeuta usando fones sem fio. “Minha cabeça não desliga”, sussurrou. “Eu tento empurrar as preocupações para longe, e elas voltam mais altas.” Ele tinha cara de alguém que coleciona prêmios. Também tinha cara de quem não dorme direito.

Cada vez mais pessoas de alto desempenho estão adotando uma prática que parece quase absurda à primeira vista: colocar as preocupações, literalmente, na agenda. Não para ruminar o dia inteiro - e sim para conter, delimitar e negociar com elas.

O nome disso é agendar as preocupações.

Por que pessoas de alta performance cansaram de fingir que não estão ansiosas

Quem entrega muito costuma construir uma vida que, por fora, parece brilhante - e, por dentro, funciona como uma panela de pressão. Promoções, prazos, rodadas de captação, atividades dos filhos, pais envelhecendo. No papel, é sucesso. No corpo, é um alarme que não para de tocar.

Como essas pessoas estão acostumadas a “dar um jeito”, o reflexo automático é trancar qualquer pensamento ansioso que ameace a concentração: “Agora não. Depois eu vejo isso.” O problema é que esse “depois” raramente chega do jeito certo. A preocupação engolida às 10h reaparece às 2h da manhã, com megafone.

Terapeutas descrevem esse roteiro com frequência: quem parece mais no controle por fora muitas vezes é quem lida com o monólogo interno mais caótico. E a estratégia antiga do “pensa positivo” já não segura a onda.

Numa quinta-feira chuvosa em Londres, uma advogada de 38 anos chamada Emma resolveu testar algo diferente. A terapeuta propôs um exercício que soou quase infantil: marcar um compromisso de preocupação. Todo dia, às 18h30, por dez minutos, registrado no calendário. Sem e-mails. Sem multitarefa. Preocupar-se - de propósito.

Emma riu no início. Depois tentou. Ao longo do dia, quando surgiam os clássicos “E se você perder esse prazo?” ou “E se o exame do seu pai vier ruim?”, ela respondia sempre do mesmo jeito, por dentro: “Agora não. Às 18h30.” Anotava a preocupação e voltava ao trabalho.

Duas semanas depois, ela percebeu uma mudança estranha. Os pensamentos ansiosos ainda apareciam, mas grudavam menos. Saber que havia um horário reservado tornava mais fácil atravessar a manhã sem ficar presa neles. Às 18h30, ela se sentava com uma xícara de chá e a lista e, pela primeira vez em anos, a ansiedade tinha limites.

Psicólogos explicam de um jeito bem direto: quando você tenta suprimir um pensamento, o cérebro registra aquilo como ameaça e passa a “vigiar” o assunto. Por isso, dizer a si mesmo “não pense na apresentação dando errado” costuma fazer o cérebro repetir exatamente a cena - em alta definição.

Ao agendar as preocupações, você inverte a lógica. Não é negação; é adiamento com respeito. A mensagem para o cérebro fica clara: “Isso é importante e será olhado - só não agora.” Essa troca pequena (de suprimir para adiar) costuma baixar o volume do sistema de alarme interno.

Na clínica, isso se conecta a práticas chamadas controle de estímulos e desfusão cognitiva. No dia a dia, gente de alta performance chama de: sobrevivência. Ao “cercar” o momento em que encaram os próprios medos, elas recuperam algo que nenhum aplicativo de produtividade entrega: espaço mental.

Como o tempo de preocupação (preocupação agendada) funciona na vida real

O método, na essência, é simples e até anticlimático. Você escolhe um bloco fixo de 10 a 20 minutos por dia e dá um nome no calendário: “Tempo de preocupação” ou “Revisar e planejar”. Idealmente, no mesmo horário e no mesmo lugar. Uma cadeira perto da janela. O fim do trajeto. Um canto silencioso da cozinha.

Durante o dia, toda vez que uma preocupação aparecer, você a reconhece e a estaciona. Vale registrar uma nota rápida no celular: “Preocupação: cliente vai odiar o rascunho” ou “Preocupação: não vai dar para pagar a excursão da escola”. Depois, diga a si mesmo: “Ok, eu vejo isso às 19h.” Curto, simples, como se você estivesse falando com um colega estressado.

Quando chega o seu compromisso de preocupação, você senta com a lista. Uma por uma, você deixa cada item “entrar na sala”. Escreve do que tem medo, o que dá para fazer de modo realista e o que está fora do seu controle. Às vezes surge uma ação objetiva. Às vezes não há nada a fazer além de admitir: “Sim, isso me assusta”, e respirar.

Aqui muita gente se perde por dois caminhos comuns: ou pula o horário porque o dia atropelou tudo, ou transforma os 15 minutos em 45 minutos de autocrítica. Não é essa a proposta.

A ideia não é afundar no medo. É dar previsibilidade para a mente, para que a preocupação não vaze por todas as horas do dia. Dez minutos de ansiedade com foco é muito diferente de 14 horas de angústia de fundo.

Erros que terapeutas citam com frequência: marcar o horário perto demais de dormir (o que pode piorar a insônia) ou escolher um horário aleatório que muda todo dia (o cérebro permanece em “alerta constante”). Outra armadilha é tentar “resolver” cada preocupação na hora, como se a vida fosse uma planilha. Algumas coisas não têm resposta redonda - e aceitar isso faz parte do treino.

Sejamos honestos: quase ninguém consegue fazer isso todos os dias. A rotina sai do trilho, a reunião estoura, as crianças adoecem. A prática funciona melhor quando é tratada como uma ferramenta à qual você volta - e não como mais um padrão de perfeição para cumprir.

“Quando pessoas de alta performance colocam as preocupações na agenda, elas recuperam senso de comando”, explica a terapeuta londrina Dra. Hannah Patel. “Elas percebem que a preocupação não é inimiga do sucesso; é energia mal administrada. Ao dar tempo e lugar para a ansiedade, elas impedem que ela sequestre o resto da vida.”

Muita gente vai se reconhecer com uma honestidade meio desconfortável. Em dias bons, você executa tarefas em sequência, pensando três passos à frente. Em dias ruins, você acorda às 3h e ensaia desastres imaginários como se fosse um segundo emprego. Em termos humanos, a preocupação agendada admite o óbvio: um cérebro ambicioso e acelerado costuma funcionar assim.

  • Defina um horário diário consistente para o tempo de preocupação (fim da tarde costuma funcionar para muita gente).
  • Registre as preocupações em um único lugar ao longo do dia, em vez de carregá-las na cabeça.
  • Use o horário para separar “posso agir” de “não controlo”.
  • Cronometre: quando o alarme tocar, você fecha o caderno.
  • Se algo parecer urgente, faça o menor passo concreto possível e deixe o restante anotado para o dia seguinte.

Um ajuste que ajuda bastante é criar um “padrão” para cada item: preocupação → próxima ação mínima → data. Exemplo: “Medo de perder o prazo” pode virar “abrir o arquivo, listar 3 entregáveis, pedir confirmação de prioridade por mensagem - hoje”. Isso impede que o tempo de preocupação vire apenas ruminação.

Também vale combinar o método com higiene digital: se você captura preocupações no celular, desative notificações no horário marcado e evite levar esse bloco para a cama. A técnica não compete com descanso - ela protege o descanso.

Viver com ambição e ansiedade - sem deixar nenhuma das duas comandar tudo

Há algo discretamente radical em assumir que alto desempenho e alta ansiedade muitas vezes vêm no mesmo pacote. Você pode bater metas e, ainda assim, sentir o estômago afundar antes da reunião de segunda-feira. Agendar as preocupações não reduz sua ambição - só evita que a ambição te destrua por dentro.

Algumas pessoas notam outra coisa depois de algumas semanas: o horário começa a ficar… meio entediante. Você chega com menos itens na lista. O cérebro aprende que nem todo “E se?” merece papel principal. Esse tédio tende a ser sinal de recuperação, não de fracasso.

No plano social, mais profissionais estão colocando isso em voz alta. Lideranças mencionando terapia em reuniões. Pessoas criativas contando que têm “compromissos de ansiedade” como têm treinos na academia. Algo muda quando alguém admirado diz: “Eu parei de tentar eliminar minhas preocupações. Eu coloco na agenda.”

E, no plano íntimo, pode ser assim: você acorda às 4h12 com a mente acelerada. Estica a mão para pegar o celular - e lembra: “Isso está na lista para 19h.” Você vira de lado, meio cético, meio aliviado. A preocupação não some. Mas, pela primeira vez, ela espera.

Ponto-chave Detalhe Por que isso importa para você
Suprimir preocupação dá efeito contrário Empurrar pensamentos para longe faz o cérebro monitorá-los com mais intensidade. Explica por que a ansiedade parece mais alta quanto mais você tenta ignorá-la.
Tempo de preocupação Janela diária de 10–20 minutos dedicada a listar e revisar preocupações. Oferece um ritual prático e realista para conter o “ruído mental”.
Do medo para a ação Separar “posso agir” de “não controlo” durante o horário. Ajuda a transformar angústia vaga em próximos passos concretos - ou em aceitação.

Perguntas frequentes

  • Agendar as preocupações não vira uma desculpa para obsessão?
    Terapeutas dizem que costuma acontecer o oposto: ao limitar a preocupação a uma janela curta e definida, o cérebro para de mastigar os mesmos medos ao longo do dia.

  • E se minhas preocupações forem grandes demais para 15 minutos?
    Nesse caso, o horário vira um marcador, não uma solução completa. Você pode usá-lo para observar padrões, planejar uma conversa terapêutica ou escolher um passo pequeno - em vez de tentar resolver tudo de uma vez.

  • Qual é o melhor horário para marcar o tempo de preocupação?
    Muitos especialistas sugerem fim da tarde ou começo da noite, sem encostar na hora de dormir e sem ser logo cedo, para não “tingir” o restante do dia (ou da noite).

  • E se surgir um problema real e urgente?
    Se exige ação imediata, você age. O método serve para preocupações repetitivas e intrusivas - não para emergências.

  • Isso pode substituir terapia ou medicação?
    Não. É uma ferramenta de autogerenciamento, não um tratamento completo. Para ansiedade persistente, intensa ou incapacitante, apoio profissional continua sendo o caminho mais seguro.

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