O anúncio desse acordo comercial ocorreu justamente no momento em que o vice-presidente JD Vance estava em Budapeste, em uma agenda voltada a reforçar o primeiro-ministro Viktor Orbán nas próximas eleições. A Hungria quer ganhar ritmo no setor espacial, e a Northrop Grumman entra no lugar da Airbus.
Budapeste voltou a mandar um recado claro à Europa - desta vez, ao próprio setor industrial do continente. Depois de atrair dois dos principais grupos chineses da área automotiva para produzir no país, BYD e CATL, o governo de Viktor Orbán, por meio do ministro da Economia, fechou com a Northrop Grumman a construção de seu primeiro satélite geoestacionário, com entrega prevista para 2030.
A escolha da empresa norte-americana aconteceu no contexto de uma aproximação política cuidadosamente encenada. A visita de JD Vance a Budapeste serviu de apoio ao governo Orbán às vésperas das eleições marcadas para domingo, 12 de abril. Na mesma ocasião, a delegação da Northrop Grumman se reuniu com o ministro da Economia, Márton Nagy, e com o presidente-executivo da empresa de defesa e espaço 4iG, István Sárhegyi.
A Northrop Grumman, rival histórica da Lockheed Martin e sediada em Los Angeles, é conhecida pelo bombardeiro B-2 Spirit - além do futuro B-21 Raider -, mas também por projetos espaciais como o telescópio espacial James Webb e o drone de vigilância em alta altitude RQ-4 Global Hawk. Aproveitando a passagem do vice-presidente americano por Budapeste, a capital húngara e Washington também firmaram outros contratos no campo da defesa, envolvendo L3Harris e Apex.
Ao recorrer a uma empresa dos Estados Unidos para adquirir seu primeiro satélite geoestacionário de comunicação segura em banda Ka, a Hungria praticamente desconsidera a oferta da indústria europeia, especialmente a da Airbus. O fabricante aeronáutico também atua na defesa e no setor espacial, com uma divisão que responde por mais de 18% do faturamento e desenvolve esse tipo de solução, além de satélites de observação.
A Hungria investe no espaço e vai inaugurar uma fábrica
Budapeste quer alcançar autonomia no setor espacial e pretende fabricar satélites de forma independente. Para isso, uma fábrica está em desenvolvimento e deve entrar em operação na segunda metade do ano. O projeto, batizado de centro espacial Remtech, pertence ao grupo 4iG. Em março, durante um discurso sobre o empreendimento, o ministro da Economia, Márton Nagy, também afirmou que a Hungria havia dobrado recentemente sua contribuição ao orçamento da ESA, a Agência Espacial Europeia.
Nos planos húngaros para a próxima década, também está prevista a compra de oito satélites de órbita baixa voltados à observação. O terceiro eixo principal do programa inclui um sistema de antenas em solo, além de duas estações dedicadas ao controle e ao processamento de dados. Nesse ponto, Budapeste já fechou parceria com uma companhia europeia, a alemã CPI Vertex Antennentechnik.
Esse movimento indica que a estratégia húngara não se limita à compra de equipamentos prontos. Ao combinar contratos internacionais com a criação de infraestrutura local, o país tenta formar uma cadeia própria de conhecimento, produção e operação. Em um setor em que prazos são longos e a integração entre satélites, solo e processamento é decisiva, dominar essas etapas pode se tornar um ativo estratégico para comunicação, defesa e observação.
Para a indústria europeia, a decisão também tem peso simbólico. A opção por fornecedores fora do continente, justamente em projetos ligados à soberania tecnológica, reforça a disputa entre interesses políticos, capacidade industrial e alianças estratégicas. No caso húngaro, o espaço aparece cada vez mais como uma ferramenta de independência, mas também como um instrumento de posicionamento diplomático.
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