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A administração francesa abandona o Windows e aposta no Linux

Jovem trabalhando em laptop com bandeiras da França ao fundo e outro notebook sobre a mesa.

A França vai deixar de usar o Windows em sua administração pública e migrar para o Linux. A mudança levará tempo, mas é tratada como uma etapa essencial para reforçar a soberania digital.

Há alguns meses, as tensões em torno da Groenlândia expuseram as fragilidades do modelo europeu de tecnologia. Muito dependente, e até excessivamente dependente, de soluções norte-americanas, o continente passou a buscar alternativas mais seguras e sob controle próprio. Agora, a administração francesa dá um passo concreto nessa direção ao abrir mão do sistema operacional da Microsoft.

Sob orientação do primeiro-ministro, a direção interministerial do digital, a DINUM, anunciou a substituição gradual do sistema operacional da Microsoft. No lugar dele, os computadores do setor público passarão a rodar Linux. A medida é vista como positiva para a proteção dos dados e para a estabilidade das infraestruturas de tecnologia da informação. Essa transição já vinha sendo testada em algumas administrações, como a gendarmaria nacional desde 2007 e também em cidades como Grenoble e Lyon. O objetivo foi definido com clareza: “reduzir as dependências digitais extraeuropeias do Estado”. O ministro da Ação e das Contas Públicas, David Amiel, afirmou:

“O Estado não pode mais se limitar a reconhecer sua dependência; ele precisa sair dela. Precisamos nos desmobilizar das ferramentas norte-americanas e retomar o controle do nosso destino digital. Já não podemos aceitar que nossos dados, nossas infraestruturas e nossas decisões estratégicas dependam de soluções cujas regras, preços, evoluções e riscos não dominamos.”

Soberania digital e soluções soberanas para o Estado francês

A retirada do Windows é apenas uma etapa dentro do plano conduzido pela DINUM. O foco não está restrito a um sistema operacional, mas abrange todo o conjunto de ferramentas usadas diariamente pelos servidores públicos. Nesse contexto, softwares norte-americanos voltados para comunicação e envio de arquivos já foram substituídos por alternativas francesas, como Tchap, Visio e France Transfert, no caso dos 80 mil agentes da Caixa Nacional de Seguro Saúde. Além disso, os dados dessa mesma instituição deverão ser transferidos para plataformas confiáveis até o fim do ano.

Trata-se de um trabalho estrutural, ainda longe de chegar ao fim:

“A DINUM coordenará um plano interministerial de redução das dependências extraeuropeias. Cada ministério, inclusive suas operadoras, deverá formalizar seu próprio plano até o outono, com foco nos seguintes eixos: estação de trabalho, ferramentas colaborativas, antivírus, inteligência artificial, bases de dados, virtualização e equipamentos de rede.”

A estratégia também deve impulsionar o ecossistema europeu de software livre e de serviços em nuvem soberanos, com potencial para favorecer fornecedores locais e reduzir a exposição a decisões comerciais tomadas fora da Europa. Outro ponto importante será a formação dos servidores públicos, já que a migração para Linux exigirá adaptação dos hábitos de trabalho, compatibilidade de aplicações e suporte técnico contínuo para evitar interrupções nos serviços.

Durante muito tempo, a falta de soberania digital não era vista como uma preocupação central na Europa. Mas, no início de 2025, as tensões entre a União Europeia e os Estados Unidos em torno da Groenlândia deixaram evidente uma realidade incômoda: a dependência de ferramentas norte-americanas. Ferramentas que Donald Trump chegou a ameaçar desligar em mais de uma ocasião. Deixar o Windows para trás, portanto, representa um avanço importante para a administração francesa. É uma migração de longo prazo, mas que só tende a ampliar sua independência.

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