Pode mesmo existir tratamento para alguém que, na tentativa de construir autoestima, busca se “preencher” no olhar de outras pessoas?
Na mitologia grega, Narciso se ajoelha à beira de um lago, vê o próprio reflexo e se apaixona por aquela imagem a ponto de definhar até a morte. Para os gregos antigos, o conto funcionava como uma lição sobre a vaidade humana; com o tempo, porém, ganhou um sentido ainda mais amplo: o de uma busca impossível por identidade, na qual acabamos aprisionados no culto que fazemos de nós mesmos.
Séculos depois, o lago de Narciso não sumiu - apenas mudou de lugar. Ele está por toda parte e, hoje, costuma brilhar na palma da mão: fotos retocadas ao limite no Instagram, vlogs pessoais e confissões mais ou menos envolventes no TikTok ou no YouTube, além de stories no Facebook. Esse ecossistema de exposição contínua virou uma espécie de mitologia do século XXI. Não é mais o olhar dos deuses que se pede, e sim o de qualquer pessoa, venha de onde vier: uma validação digital que, em alguns casos, vira dependência e passa a lembrar uma patologia. Diante disso, fica a pergunta: as terapias atuais conseguem reeducar um ego hipertrofiado?
Um ponto adicional - e muitas vezes subestimado - é que as plataformas não apenas “refletem” quem somos: elas amplificam certos comportamentos. Métricas públicas (curtidas, comentários, seguidores) e recomendações por algoritmo podem reforçar a ideia de que valor pessoal equivale a admiração constante, transformando a comparação social em rotina e elevando a sensibilidade a críticas ou indiferença.
Transtorno da Personalidade Narcisista (TPN): o espelho rachado da personalidade
Na psicologia clínica, o narcisismo pode aparecer em duas formas opostas: o tipo grandioso, ligado à supervalorização de si e à necessidade de controlar ou dominar o outro, e o tipo vulnerável, marcado por autoestima instável, hipersensibilidade a críticas e medo persistente de rejeição. São dois lados da mesma moeda.
Apesar das diferenças, grandioso e vulnerável costumam nascer do mesmo núcleo: um eu aumentado, centrado nas próprias necessidades e no valor que acredita ter. Quando esse funcionamento se cristaliza a ponto de atrapalhar a regulação emocional e as relações, pode tomar a forma de narcisismo patológico ou de Transtorno da Personalidade Narcisista (TPN).
Quando alguém com alto nível de narcisismo - ou com TPN - se sente ferido, contrariado ou criticado, sua autoestima (frágil ou inflada) é percebida como ameaçada, o que pode disparar respostas agressivas para proteger a autoimagem. Isso pode surgir de várias maneiras: manipulação, humilhação ou formas mais discretas de hostilidade, como atitudes passivo-agressivas (exclusão social, afastamento afetivo, “silêncio” punitivo).
Há pesquisas indicando, inclusive, que pessoas narcisistas podem apresentar propensão à violência mesmo sem provocação. O paradoxo é que a agressividade, que deveria “blindar” o ego, afasta os outros - e, com isso, aumenta a chance de a pessoa se sentir rejeitada, reencenando repetidamente o ciclo que ela mesma ajudou a construir.
E como interromper esse circuito? Como o TPN é um transtorno mental de longo prazo, não se fala em “cura” no sentido estrito; ainda assim, terapias baseadas em conversa podem trazer melhora real. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma das abordagens mais oferecidas: ela treina o paciente a identificar pensamentos distorcidos - por exemplo, a crença de que precisa ser admirado o tempo todo, ou de que uma crítica equivale automaticamente a rejeição. Ao reajustar esses automatismos, a TCC tende a reduzir reações defensivas ou agressivas.
Mesmo assim, quando consegue conter explosões de raiva ou picos de orgulho, a TCC muitas vezes funciona como um curativo sobre algo mais profundo: o medo visceral do vazio, uma angústia existencial que pode organizar a própria identidade narcisista.
Um estudo de 2015, divulgado na plataforma ResearchGate, apontou que os próprios psicoterapeutas consideram que a TCC não é a alternativa mais eficaz nesses casos. Eles relataram preferência por técnicas chamadas de técnicas relacionais introspectivas - uma via em que o paciente explora sentimentos e motivações com um profissional que sustenta uma postura acolhedora, compreensiva e sem julgamento.
A meta é formar uma aliança terapêutica resistente o bastante para que o paciente aceite se expor e encarar fragilidades internas. O desafio é grande porque, para a pessoa narcisista, admitir falhas pode soar como perder o chão: reconhecer vulnerabilidade significa arriscar o colapso da imagem de onipotência que ela tenta manter de pé.
Domar o narcisismo em vez de “curar”
É incomum que pessoas com TPN procurem ajuda logo de início, porque muitas vezes não acreditam ter um problema. E, quando chegam ao consultório, quase nunca é por se perceberem “narcisistas”: o motivo costuma ser outro - um gatilho externo (perda de emprego, separação, conflitos) ou um sofrimento emocional (como depressão após uma rejeição interpretada como humilhação).
Além disso, o risco de abandono do tratamento é alto. Enquanto na população geral algo entre 10% e 50% dos pacientes interrompe a psicoterapia antes do fim (conforme um estudo citado no texto original), em pacientes narcisistas esse índice pode chegar perto de 65% (segundo outro estudo). Ou seja: manter o vínculo terapêutico já é, por si só, uma parte central do trabalho.
Alguns pesquisadores, como os psiquiatras Alexa Albert e Anthony Back, investigam caminhos para reduzir essa resistência, incluindo terapia com uso controlado de psicotrópicos. A MDMA (metilenodioxi-N-metilanfetamina) - uma anfetamina conhecida por seus efeitos empáticos e bastante associada ao ambiente de festas - é um exemplo frequentemente mencionado.
No organismo, ela pode estimular a liberação de serotonina e ocitocina, favorecendo sensação de euforia, tranquilidade e conexão emocional. Em contexto médico e com supervisão, esses efeitos poderiam ajudar certos pacientes a baixar defesas psíquicas. Até agora, porém, não há evidência clínica de que a MDMA torne um narcisista automaticamente mais receptivo - e o status legal da substância bloqueia experimentos em larga escala.
Então, o que sobra? A própria relação humana: a constância do terapeuta, sua habilidade de construir um enquadre acolhedor e, ao mesmo tempo, firme - e de não ser capturado por sedução ou por manipulação. Porque, se o narcisismo não se “cura” como se cura uma infecção, ele pode amolecer. Com o passar do tempo, alguns pacientes aprendem a reconhecer vulnerabilidades, identificar defesas, tolerar críticas e reconstruir uma autoestima menos dependente do olhar alheio.
Também ajuda - fora do consultório - que pessoas próximas (parceiros, familiares, equipes de trabalho) consigam estabelecer limites claros e previsíveis, evitando tanto o confronto humilhante quanto a conivência que reforça o padrão. Limites consistentes reduzem a escalada de jogos de poder e criam condições mais seguras para que a pessoa experimente frustração sem transformar isso em ataque ou fuga.
Narciso, na escrita de Ovídio, se contemplou até desaparecer de si. O narcisista contemporâneo repete o gesto, com uma diferença decisiva: seu reflexo agora é devolvido pelos outros. A tarefa terapêutica real, portanto, é aprender a viver sem esse espelho distorcido permanentemente voltado para si - e encontrar valor existencial na ligação com o outro, e não na admiração.
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