As elétricas estão, pouco a pouco, deixando de ser sinónimo de paradas constantes - e a Audi A6 e-tron Avant é uma prova bem concreta disso. Com autonomia declarada de 713 km, a perua promete encarar viagens longas sem drama. Colocamos a teoria à prova.
O plano era simples: “A gente chega a Darvault para carregar em duas horas, tranquilo”. Na prática, a história foi bem diferente. Saí de Grenoble com a bateria a 100%, estabilizei 120 km/h na autoestrada A6, desliguei a ventilação e selecionei o modo Efficiency para espremer o máximo de alcance. E aí veio a surpresa: a A6 e-tron Avant mostrou uma resistência quase irritante.
O meu corpo, aliás, foi quem primeiro pediu arrego. Parada obrigatória para ir ao banheiro na área do Thureau, a 85 km de Darvault. Placar: Audi 1, Thomas 0. Pela primeira vez num carro elétrico, a pausa não aconteceu por causa da bateria a acabar - e sim porque eu estava prestes a “explodir”. Ainda cheguei meio incrédulo diante do carregador Ionity.
Carregamento rápido muito eficiente na Audi A6 e-tron Avant
Na chegada, restavam 7% de bateria e 26 km de autonomia. Com algumas técnicas de condução económica, a Audi A6 e-tron Avant percorreu 476 km a uma média de 94 km/h. O resultado impressiona e aproxima a experiência da de um modelo a diesel (que, convenhamos, também exigiria uma paragem para o banheiro). E não é só alcance: ela também recarrega depressa - não no ritmo de “abastecer e ir embora”, mas rápido o suficiente para não transformar a pausa num castigo.
A plataforma 800 V permite recarga rápida em corrente contínua (DC) de até 270 kW, um número excelente que leva a bateria de 10% a 80% em 21 minutos. Considerando que o acumulador tem 100 kWh, dá para aplaudir. Há rivais ainda mais rápidas, mas a A6 e-tron Avant já está entre as melhores.
Além disso, para quem vai usar o carro no dia a dia, o carregamento em corrente alternada (AC) em casa ou no trabalho segue a ser o cenário mais confortável: sair com carga alta todas as manhãs reduz a dependência de carregadores rápidos e torna a rotina bem mais previsível - especialmente numa perua pensada para rodar muito.
A Audi A6 e-tron Avant é muito competente na autoestrada
O mais engraçado é que mal dá tempo de terminar o lanche - e já está na hora de voltar para a estrada rumo a Paris. Com consumo controlado de 18 kWh/100 km a 120 km/h e 20 kWh/100 km na velocidade máxima permitida na autoestrada, a Audi passa confiança. A posição de condução é boa e o isolamento acústico, bem trabalhado, ajuda muito em trajetos longos.
No nosso carro de teste, a suspensão tinha um acerto um pouco firme, com uma sensação mais “metálica” do que o ideal. A opção de suspensão pneumática tende a melhorar o conforto. Em viagem, o sistema de condução semi-autónoma assume regulador e direção com suavidade, aliviando a fadiga. Já os retrovisores por câmara (um extra de 1.750 €) podem ajudar a autonomia, mas dificultam a noção de distância; com o tempo, dá para se adaptar, porém não é um item que eu colocaria no topo da lista.
Qualidade de acabamento apenas mediana
Apesar do pacote tecnológico, há pontos que não convencem tanto. O acabamento da Audi A6 e-tron Avant não chega a ser ruim, mas alguns detalhes chamam atenção de forma negativa. O plástico macio do painel e das portas é leve demais para o que se espera e, nas partes inferiores, surgem materiais rígidos rapidamente.
A consola central em preto brilhante é bonita no primeiro contacto, mas tende a envelhecer mal. O nosso exemplar já exibia riscos perto do seletor, o que não é um bom sinal para o uso prolongado. No volante, os comandos semi-táteis, além de chatos no dia a dia, devolvem cliques com sensação pouco refinada. Não é nada desastroso, mas dá para notar uma certa perda de capricho nos modelos mais recentes da marca.
Conectividade forte e um “festival” de ecrãs
Em compensação, é difícil os ocupantes não se distraírem com a overdose de telas. O sistema MMI combina 11,9 polegadas no painel de instrumentos com 14,5 polegadas no ecrã central de multimédia. E, a partir da versão S line, o passageiro dianteiro ainda ganha um terceiro ecrã de 10,9 polegadas. Nos três, a interface é relativamente fácil de aprender.
Há chave digital e vários serviços conectados, como Alexa (Amazon) e YouTube. O senão fica para um tema visual escuro demais e para o mapa em modo satélite do Google, que é bonito, mas curiosamente pouco fluido. Ainda assim, as instruções do GPS são claras - e melhoram bastante com o head-up display com realidade aumentada, que continua muito convincente.
Planeador de rota estranho na Audi A6 e-tron Avant
Onde a Audi escorrega é no planeador de rota, ferramenta indispensável em qualquer elétrico. O ecrã até exibe o nome “planeador de rota e-tron”, mas quem comanda o show é um software do grupo Volkswagen - e, tal como em alguns modelos ID., as sugestões podem ser sem sentido.
Por que mandar fazer um desvio de 5 km para carregar se o destino está a 3 km e é perfeitamente alcançável? E como justificar um retorno na autoestrada para voltar a uma área com carregador quando existe outra estação alguns minutos à frente? A assistente insiste que “a autonomia foi ajustada”, mas às vezes parece que quem precisava ajustar era o próprio sistema ao seu jeito de conduzir.
O pré-condicionamento da bateria vem de série, mas, ao contrário de outros modelos do grupo, não dá para ativar manualmente o processo. Isso pesa, sobretudo quando o GPS insiste em paradas pouco inteligentes. Como ponto positivo, a estimativa de bateria restante antes de cada carregamento costuma ser certeira - o que ajuda a reduzir a ansiedade e, ao mesmo tempo, incentiva o condutor a escolher paradas mais lógicas por conta própria.
Habitabilidade correta para uma perua familiar
Perua tem de servir à família - e aqui a Audi A6 e-tron Avant cumpre. Atrás, há bom espaço para cabeça e pernas, embora o assento pudesse apoiar melhor as coxas. No porta-malas, ela entrega 502 litros com os bancos em uso e 1.422 litros com a segunda fileira rebatida. E há ainda um compartimento sob o capô, ótimo para guardar os cabos de carregamento.
Um detalhe curioso: o tampão do porta-malas é motorizado. Em vez de ficar preso ao porta-malas por cordinhas, ele sobe e desce sozinho - um daqueles truques que surpreendem. Há porta-objetos suficientes para o dia a dia, embora a falta de revestimento tipo camurça nos nichos ajude a criar ruídos em pisos ruins. De novo, aparecem economias que ficam visíveis.
É fácil conviver com esta Audi no dia a dia?
Sem surpresa, a A6 e-tron Avant funciona como um computador sobre rodas. Operar tudo não é um martírio, mas exige tempo de adaptação. Os comandos da ventilação não são físicos, porém ficam sempre acessíveis na parte inferior do ecrã, o que minimiza a distração. Por outro lado, o conjunto de comandos na porta do motorista, que concentra luzes e retrovisores, é confuso e pede hábito.
O seletor tipo gatilho é intuitivo, mas pode pregar peças. Numa manobra de retorno, por exemplo, basta empurrar para a frente para engatar a ré - só que, em alguns casos, é preciso aplicar força demais para o carro “entender” que você quer realmente recuar. E fica a pergunta: por que manter um botão Start/Stop se outros modelos do grupo ligam apenas ao pressionar o pedal do freio? Mistério.
Na cidade, não é tão ruim assim - mas podia ser mais suave
Logo abaixo desse botão desnecessário, existe um atalho bem mais útil: o das câmaras. Com dimensões generosas (4,93 m de comprimento e 2,14 m de largura), a Audi A6 e-tron Avant exige atenção em ambiente urbano. A ponta do capô longo é difícil de “enxergar”, mas a visibilidade ao redor é aceitável. O modo One Pedal, que reduz o uso do freio, ajuda bastante em trânsito e manobras.
O problema é que o funcionamento não é tão progressivo quanto deveria. Em baixa velocidade, dosar o acelerador pode causar pequenas sacudidas incômodas para os passageiros. E o Auto Hold demora a atuar, criando um tranco leve antes de parar em subidas. Rivais calibram melhor o conjunto One Pedal/Auto Hold e acabam oferecendo uma condução mais tranquila na cidade.
Fora do perímetro urbano, o cenário melhora muito. A estabilidade em linha reta é agradável e, depois de uma sequência de SUVs, voltar a uma perua dá mesmo sensação de frescor. A direção reage rápido, o chassi é equilibrado e o carro rola pouco graças ao centro de gravidade mais baixo. Os 367 cv ainda garantem retomadas fortes, ajudando a sair de curvas com eficiência.
A Audi A6 e-tron Avant exagera nos opcionais
Como é típico da Audi, a lista de opcionais da A6 e-tron Avant é longa demais. A marca dirá que isso permite configurar o carro “sob medida” - e é verdade. O problema é que muitos itens deveriam ser de série. Afinal, a A6 e-tron Avant parte de 67.920 € na versão Design, e seria razoável já incluir condução semi-autónoma, volante aquecido, vidros traseiros escurecidos e faróis Matrix LED.
Por 74.810 €, a versão S line vem mais completa, embora ainda haja muitos extras. Nela, porém, a autonomia máxima fica em 592 km. Para alcançar os 713 km de alcance, é preciso escolher a versão Performance, a partir de 78.670 € (Design) ou 85.560 € (S line). Já o nosso carro de teste chegou a 102.010 €, com um pacote mais generoso - ainda assim, sem alguns requintes, como a suspensão pneumática.
Vale lembrar que, em viagens longas, a experiência de um elétrico não depende apenas do carro: clima, velocidade média e disponibilidade de carregadores no trajeto pesam bastante. Um modelo com alta autonomia, como este, dá mais margem para escolher onde parar e reduzir o “carregar por obrigação”, transformando a recarga em parte natural da pausa.
O nosso veredito sobre a Audi A6 e-tron Avant
Seja a combustão ou elétrica, uma perua traz um respiro num mercado lotado de SUVs - e as vantagens ficam ainda mais evidentes quando se soma a eletrificação. A autonomia é realmente sólida, inclusive em vias rápidas, onde a aerodinâmica mais favorável ajuda o consumo. O comportamento dinâmico é muito mais prazeroso do que o de utilitários altos, sem sacrificar o espaço interno, que é bom.
Dá para reconhecer o mérito: a A6 e-tron Avant entrega alcance e recarga rápida de alto nível. Em contrapartida, o excesso de opcionais e um acabamento que já não parece tão impecável quanto em Audis de outras gerações impedem um elogio sem ressalvas.
Audi A6 e-tron Avant - 102.010 €
Nota geral
7,5/10
Veredito
Perua elétrica muito competente em autoestrada, com autonomia forte e recarga rápida eficiente. Anda bem, é confortável para viajar e tem boa tecnologia a bordo, mas cobra caro por opcionais e deixa dúvidas no acabamento e em alguns ajustes de condução urbana.
Pontos positivos
- Autonomia tranquilizadora em autoestrada
- Recarga rápida muito veloz
- Dinâmica agradável ao volante
Pontos a melhorar
- Lista de opcionais grande demais
- Acabamento com sensação menos premium em alguns detalhes
- Condução urbana com pouca suavidade (One Pedal/Auto Hold)
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