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Jane Goodall morre aos 90 anos e deixa um legado transformador para a primatologia e a conservação

Mulher idosa e chimpanzé trocando toque de mãos em floresta, com caderno e câmera no chão.

Jane Goodall, uma das primatólogas e conservacionistas mais admiradas do mundo, morreu por causas naturais enquanto estava na Califórnia, durante uma série de palestras pelos Estados Unidos.

Ela deixa o filho, Hugo “Grub” Van Lawick Jr., e os netos.

Uma vida dedicada a chimpanzés (Pan troglodytes), ciência e conservação - Jane Goodall

Em uma homenagem comovente, o Instituto Jane Goodall afirmou que ela era “apaixonada por fortalecer jovens para que se envolvam em projetos de conservação e humanitários”.

A instituição também destacou que Goodall liderou inúmeras iniciativas educativas voltadas tanto a chimpanzés selvagens quanto aos mantidos em cativeiro. Segundo o instituto, sua atuação foi sempre orientada pela fascinação com os mistérios da evolução e pela convicção firme de que é essencial respeitar todas as formas de vida na Terra.

A pesquisa em Gombe que mudou o que sabíamos sobre comportamento

Grande parte do que hoje entendemos sobre o comportamento do chimpanzé (Pan troglodytes) se deve ao trabalho de Goodall - descobertas que alteraram profundamente a forma como pensamos sobre humanos e outros animais.

Ela orientou gerações de cientistas, publicou dezenas de livros e foi retratada em mais de 40 filmes. O projeto de pesquisa com chimpanzés em Gombe continua até hoje e é considerado o estudo mais longo já realizado com animais selvagens em seu habitat natural.

Quando Goodall iniciou seu trabalho, em 1960, a expectativa na ciência era de total distanciamento: pesquisadores deveriam manter-se frios, apartados e observar os animais de longe. Ela, porém, levou à pesquisa uma visão diferente e uma prática incomum para a época.

Em vez de tratar os indivíduos como números, ela passou a integrar-se ao cotidiano do grupo e a dar nomes aos chimpanzés - algo que gerou críticas generalizadas. Ainda assim, embora reconhecesse limitações em sua abordagem, foi justamente essa proximidade que abriu caminho para descobertas pioneiras.

Um caminho incomum até o doutorado em etologia

A entrada de Goodall na ciência foi fora do padrão. Seu percurso não começou com formação universitária formal, embora mais tarde tenha concluído um doutorado (em 1966) em etologia, área dedicada ao estudo do comportamento animal.

Sua trajetória de descobertas nasceu de uma paixão profunda pelos animais, do sonho de infância de conhecer a África e de uma formação em escola de secretariado.

Aos 23 anos, depois de economizar trabalhando como garçonete, ela reuniu dinheiro suficiente para visitar a família de uma amiga no Quénia. Lá, foi incentivada a procurar o paleoantropólogo Louis S. B. Leakey, que a contratou para funções de secretariado. Leakey percebeu nela potencial científico e a convidou a participar de suas pesquisas sobre comportamento de primatas, pedindo que observasse chimpanzés em Gombe.

Instinto, proximidade e a descoberta do uso de ferramentas

Sem treinamento científico no início, Goodall recorreu ao próprio instinto para conduzir o trabalho de campo. Ela aproximou-se dos chimpanzés, conquistando confiança suficiente para realizar observações detalhadas e prolongadas.

Foi assim que chegou a uma conclusão decisiva: assim como humanos, chimpanzés são capazes de usar e fabricar ferramentas.

Ao receber a notícia, Leakey reagiu por telegrama com uma frase que ficou famosa: “Agora precisamos redefinir ferramenta. Redefinir homem. Ou aceitar chimpanzés como humanos.”

A contestação do dogma científico e o documentário Jane (2017)

Como Goodall explicou no documentário Jane (2017), da National Geographic, até então prevalecia a ideia de que somente seres humanos possuíam mente e eram capazes de pensamento racional. Sugerir que outros animais pudessem ter algum tipo de inteligência semelhante à humana era visto quase como uma heresia científica.

“Felizmente, eu não tinha ido à universidade e não sabia dessas coisas”, disse ela.

Ainda assim, a comunidade científica - dominada por homens - recebeu as descobertas com sexismo, ceticismo e deboche. Mesmo sob esse ambiente hostil, Goodall persistiu. Ela também lidou com uma atenção indesejada ao tornar-se destaque de capa da National Geographic, aceitando o custo pessoal em troca do apoio necessário para sustentar o trabalho.

Seu modo pouco convencional de se relacionar com os animais estudados - e de apresentar suas personalidades ao público - ajudou a conquistar a empatia das pessoas e, ao mesmo tempo, evidenciou como a diversidade na ciência amplia o que é possível compreender e realizar.

Do campo para o mundo: o Instituto Jane Goodall, educação e ativismo

Goodall usou a visibilidade pública para defender de forma incansável a conservação de chimpanzés, criando o Instituto Jane Goodall em 1977. A partir de 1986, passou a viajar pelo mundo para incentivar novas gerações a tornarem-se guardiãs mais responsáveis do planeta vivo. Ela também atuou com firmeza como humanitária.

Em 2002, ao falar na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, resumiu o dilema social e ambiental com clareza: “Não podemos deixar pessoas em pobreza extrema; por isso, precisamos elevar o padrão de vida de 80% da população mundial, ao mesmo tempo em que o reduzimos consideravelmente para os 20% que estão destruindo nossos recursos naturais.”

Por meio do programa Roots and Shoots, Goodall inspirou e ofereceu esperança a jovens que temiam pelo próprio futuro. Ela também apoiou com convicção os movimentos ambientais contemporâneos liderados por jovens.

Um legado ético para a ciência e para a relação com outras espécies

A história de Goodall também ajudou a consolidar debates que hoje são centrais: a ética no estudo de animais, os limites do cativeiro, o bem-estar em pesquisas e a responsabilidade de traduzir resultados científicos em proteção concreta da natureza. Ao aproximar ciência e compaixão, ela contribuiu para que empatia e rigor deixassem de ser vistos como opostos.

Além disso, sua influência ultrapassou a primatologia. Ao demonstrar que emoção, empatia e defesa de causas podem coexistir com método e evidência, Goodall deixou um exemplo que segue relevante para as ciências ambientais atuais - tanto para obter apoio quanto para gerar impacto real.

Inspiração para mulheres e para novas gerações de cientistas

O trabalho de Goodall não só revolucionou suas áreas de estudo como também afetou a cultura científica de forma mais ampla. Ela ajudou a romper o estereótipo do cientista frio, distante, de jaleco branco e, sobretudo, masculino, tornando-se um símbolo do que mulheres podem alcançar quando têm oportunidade.

Com isso, inspirou incontáveis jovens ao redor do mundo a seguir carreira científica - incluindo pessoas que hoje dão continuidade às pesquisas em Gombe. Seu legado deve continuar influenciando novas gerações por muitos anos.

“Só se compreendermos, poderemos nos importar. Só se nos importarmos, ajudaremos. Só se ajudarmos, seremos salvos.” - Jane Goodall, Jane Goodall: 40 Anos em Gombe

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