A próxima fronteira dos minerais preciosos pode estar muito mais perto de casa do que o cinturão de asteroides além da órbita de Marte.
Um novo artigo científico propõe que parte dos minerais transportados por esses asteroides pode já ter “chegado até nós” - e hoje estaria espalhada por milhares de crateras de impacto na Lua. Segundo a análise, até 6.500 crateras de impacto podem conter metais do grupo da platina, como platina, paládio e ródio.
Além disso, cerca de 3.400 crateras de impacto podem concentrar água na forma de minerais hidratados - um recurso essencial para qualquer exploração humana do nosso único satélite natural com estabilidade de longo prazo.
“Esses valores são de uma a duas ordens de grandeza maiores do que o número de asteroides próximos à Terra portadores de minério estimado por Elvis (2014)”, escreve a equipa liderada pelo astrónomo independente Jayanth Chennamangalam, “o que sugere que pode ser mais vantajoso - e, portanto, mais lucrativo - explorar asteroides que já impactaram a Lua do que aqueles que permanecem em órbita”.
Por que procurar recursos fora da Terra?
Há vários motivos para considerar a mineração no espaço. Para começar, os recursos terrestres são finitos: existe um limite para a quantidade de metal acessível na crosta do planeta. Além disso, a mineração na Terra frequentemente traz impactos severos, degradando áreas naturais e habitats, além de gerar grandes volumes de poluição.
Do ponto de vista da exploração espacial, a lógica também é forte. Ter acesso à água na Lua, por exemplo, pode reduzir drasticamente as dificuldades de transportar água desde a Terra ou de reciclá-la no local (in situ) em missões prolongadas.
Também se acredita que muitos asteroides sejam ricos em metais valiosos - em especial os metais do grupo da platina, cobiçados pelas suas propriedades e pela utilidade em aplicações industriais e médicas, apesar de serem raros. Ainda assim, a mineração de asteroides traz obstáculos próprios, mesmo antes de se considerar o custo elevado de qualquer operação fora da Terra.
Lua vs. asteroides próximos à Terra: qual é mais acessível?
Os asteroides próximos à Terra não são tão numerosos quanto se poderia imaginar. Além disso, são alvos complexos: podem ser difíceis de alcançar, e frequentemente rodam e “tombam” no espaço de formas que complicam navegação, aproximação e operações.
A Lua, por outro lado, permanece em órbita da Terra a uma distância previsível e mostra-nos sempre a mesma face. Isso não torna as missões lunares simples - mas, na comparação direta, trabalhar na Lua tende a ser substancialmente mais viável do que operar num asteroide em rotação irregular.
Essa diferença leva a uma pergunta central: a Lua realmente tem os metais do grupo da platina e a água de que precisamos? Para responder, Chennamangalam e um colega realizaram um levantamento estatístico com base em crateras formadas por impactos de asteroides.
O que os tipos de asteroides indicam sobre metais e água?
Alguns asteroides de natureza mais metálica são considerados ricos em metais, incluindo os metais do grupo da platina. Já os asteroides carbonáceos são associados a maiores quantidades de minerais hidratados, isto é, minerais que carregam água na sua estrutura.
Quando um asteroide atinge a Lua, parte do material vaporiza. No entanto, evidências mais recentes indicam que, em determinadas condições, porções relevantes do corpo do asteroide podem sobreviver ao impacto. Em crateras especialmente grandes e complexas, o material ejetado tende a ser redistribuído e “varrido” em direção ao centro, formando um pico central - uma região onde o material pode ficar mais concentrado.
Com base na contagem de crateras grandes que podem ter sido geradas por impactos desses tipos de asteroides, os autores concluem que pode haver uma quantidade significativa de metal valioso “escondida” no ambiente lunar.
Mesmo considerando que uma parte substancial do asteroide pode não sobreviver ao impacto - sobretudo no caso de corpos hidratados, que podem perder água devido ao aquecimento - as estimativas estatísticas ainda apontam para milhares de crateras com potencial de interesse.
Metais do grupo da platina em crateras de impacto (e o papel do pico central)
A estimativa sugere que até 6.500 crateras com diâmetro superior a 1 km podem conter metais do grupo da platina. Porém, o minério pode estar muito disperso no regolito lunar, o que tornaria o acesso e a recuperação mais difíceis.
Ao restringir a busca a crateras com mais de 19 km de diâmetro e com pico central bem definido - onde o material tem maior probabilidade de estar concentrado - o total estimado cai para 38 alvos mais promissores.
Água em minerais hidratados: onde ela pode estar na Lua?
Para a água na forma de minerais hidratados, o estudo estima até 3.350 crateras com mais de 1 km de diâmetro com potencial para conter esse recurso. Aplicando o mesmo filtro de crateras com mais de 19 km e depósitos mais concentrados, o número baixa para 20.
No conjunto, isso indica que a Lua pode ser, do ponto de vista estatístico, um terreno de prospeção mais rico em metais do grupo da platina do que os asteroides próximos à Terra.
A Lua como etapa prática para a mineração espacial
É possível que a mineração de asteroides ainda faça parte do futuro da humanidade. Mesmo assim, a Lua surge como um passo intermediário mais alcançável e pragmático rumo a esse objetivo. O desafio seguinte é identificar com precisão quais crateras guardam os recursos - e, depois, definir como extraí-los de forma eficiente.
Uma dimensão adicional - e decisiva - é a governança dessa atividade. A exploração de recursos lunares envolve questões de direito e coordenação internacional, incluindo regras de segurança, transparência e compatibilidade entre missões, para evitar conflitos de operação e proteger áreas de interesse científico.
Também há um ponto técnico-económico importante: a viabilidade tende a depender de tecnologias de utilização de recursos in situ, de automação e de processamento local do material, já que transportar grandes massas a partir da Terra continua a ser caro e limitado. Isso torna ainda mais valioso priorizar alvos com maior probabilidade de concentração, como crateras com pico central marcado.
Como encontrar os melhores alvos sem pousar
Os autores defendem que a melhor estratégia para descobrir quais crateras realmente merecem investimento é recorrer a sensoriamento remoto a partir da órbita lunar, em vez de depender de módulos de aterragem caros e sem garantia de sucesso.
A investigação foi publicada na revista Ciência Planetária e Espacial.
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