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DNA de cachorro mais antigo já encontrado revela quão antiga é nossa amizade.

Mulher analisa crânio de lobo com dois cães ao redor, laptop e mapa em mesa ao ar livre no deserto.

A identificação do DNA de cachorro mais antigo já sequenciado indica que os cães podem ser os nossos companheiros há quase 16.000 anos - cerca de 5.000 anos antes do que se acreditava até agora, segundo uma pesquisa divulgada na quarta-feira.

Mesmo sendo presença constante nas casas, nos quintais e no afecto de pessoas em todo o planeta, ainda surpreende o quanto se sabe pouco sobre a origem dos cães.

“É um mistério realmente curioso”, disse o geneticista sueco Pontus Skoglund, do Instituto Francis Crick, no Reino Unido, em conversa com jornalistas.

DNA de cachorro e domesticação: o que o genoma revela sobre a origem dos cães

De acordo com Skoglund, os cães provavelmente resultam de uma mistura de duas linhagens de lobos-cinzentos. Ainda assim, determinar com precisão quando os cães se separaram dos lobos tem sido difícil, em parte porque os ossos antigos de canídeos podem ser muito parecidos e, muitas vezes, complicados de distinguir.

Por isso, os cientistas por trás de dois novos estudos publicados na revista científica Nature analisaram genomas obtidos a partir de restos arqueológicos, trazendo novas pistas sobre as origens - até hoje pouco claras - dos nossos amigos de quatro patas.

O crânio de Pinarbasi (Turquia) e o registo mais antigo

O primeiro estudo mostrou que o DNA canino mais antigo do mundo foi encontrado num fragmento de crânio em Pinarbasi, numa região que corresponde à actual Turquia.

O espécime pertenceu a uma cadela que, possivelmente, tinha apenas alguns meses de vida. Segundo o coautor Laurent Frantz, da Universidade Ludwig Maximilian de Munique, ela provavelmente se parecia com um lobo de pequeno porte quando viveu, há aproximadamente 15.800 anos.

Antes desta nova análise, o DNA de cachorro mais antigo conhecido datava de 10.900 anos.

Evidência na Inglaterra e a expansão inicial pela Europa

Além de Pinarbasi, a equipa encontrou no sudoeste da Inglaterra uma evidência genética ainda muito antiga, datada de cerca de 14.300 anos, que ajuda a ilustrar como os primeiros cães se espalharam pela Europa.

Frantz afirmou que os cientistas não conseguem demonstrar, com exactidão, qual era a função desses cães junto a comunidades humanas no final da Era do Gelo.

“Mas acho que podemos supor que eles tinham algum papel, porque seria caro alimentá-los”, disse.

Ele levantou a hipótese de que os cães pudessem ser usados na caça ou para protecção.

Mesmo que não fossem tratados como animais de estimação no sentido moderno, Frantz avaliou que a relação provavelmente já era forte - e que “as crianças ainda brincariam com os filhotes”.

Outro indício de proximidade é o facto de filhotes terem sido encontrados enterrados acima de sepulturas humanas em Pinarbasi.

Em busca do elo perdido entre cães e lobos

No segundo estudo, uma grande equipa de investigadores comparou os genomas de 216 restos de cães e lobos, provenientes de diferentes pontos da Europa.

Com isso, tornou-se possível mapear como os cães se transformaram ao longo do tempo no continente.

A partir de cerca de 10.000 anos atrás, ocorreu uma migração expressiva de pessoas do sudoeste da Ásia para a Europa, num período conhecido como revolução agrícola neolítica.

Essa chegada em massa de agricultores provocou intensa mistura genética entre humanos, à medida que grupos de regiões distintas se encontravam e formavam famílias.

O que surpreendeu os pesquisadores foi que essa mesma mistura não aconteceu de forma simultânea com os cães.

Os dados sugerem que os caçadores-coletores que viviam na Europa antes da chegada dos agricultores já mantinham cães.

“Os cães eram claramente importantes para os nossos antepassados, já que os primeiros agricultores parecem ter incorporado aos seus grupos os cães que antes acompanhavam caçadores-coletores, à medida que avançavam pela Europa”, afirmou Skoglund.

Isso aponta que a domesticação dos cães precisa ter ocorrido bem antes desse momento.

Ainda assim, segundo Skoglund, continua a existir um “abismo genético entre cães e lobos”.

“A busca pelo elo perdido continua.”

Como o DNA antigo ajuda a resolver um quebra-cabeça arqueológico

Uma das razões pelas quais descobertas como a de Pinarbasi ganham destaque é que o DNA antigo raramente sobrevive em boas condições. Fragmentos genéticos degradam com o tempo, e a análise exige cuidados rigorosos para evitar contaminação por material moderno, além de métodos estatísticos capazes de separar sinais genuínos de ruído.

Quando funciona, porém, a sequenciação de genomas antigos permite responder a perguntas que os ossos, sozinhos, nem sempre conseguem esclarecer - como a existência de populações distintas, cruzamentos entre linhagens e rotas prováveis de dispersão de cães acompanhando (ou antecedendo) movimentos humanos.

O que essa história sugere sobre a relação entre humanos e cães

O facto de comunidades pré-agrícolas já manterem cães reforça a ideia de que a parceria pode ter nascido de necessidades práticas - como vigilância, caça e apoio na mobilidade - e, ao mesmo tempo, ter evoluído para vínculos sociais profundos, evidenciados por práticas funerárias e pelo convívio diário.

À medida que novos sítios forem analisados e mais genomas antigos forem recuperados, a tendência é que o mapa da domesticação e das primeiras migrações de cães na Europa fique mais detalhado - e, talvez, ajude a diminuir a distância que ainda separa, no registo genético, os primeiros cães dos lobos-cinzentos.

© Agence France-Presse

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