A empresa de Cupertino valoriza tanto a “nata” dos seus engenheiros que está disposta a ir longe - até mesmo colocando um preço na lealdade deles para que não atravessem a rua em direção ao gramado supostamente mais verde do time do Sam Altman.
Há anos a Apple convive com a saída de alguns dos seus talentos mais cobiçados, atraídos por destinos com pacotes mais agressivos. Um caso emblemático é o de Jony Ive, que deixou a companhia em 2019 para tocar novos projetos (a LoveFrom) e também para colaborar com a OpenAI em um dispositivo mantido em sigilo. Depois, Tang Tan (ex-líder de design do iPhone e do Apple Watch) também seguiu outro caminho. Em dezembro de 2025, Alan Dye migrou para a Meta e, mais recentemente, Abidur Chowdhury (jovem destaque ligado ao iPhone Air) decidiu trocar a Apple por uma startup focada em IA.
A corrida por inteligência artificial virou um verdadeiro “aspirador” de profissionais, esvaziando áreas estratégicas da Apple. A empresa já havia reagido em 2021 e 2022 com bônus pontuais que, em alguns casos, chegaram a valores fora da curva para tentar conter a debandada. Agora, ela anunciou uma nova ofensiva de retenção voltada a engenheiros do grupo Product Design iPhone. A proposta: pacotes entre US$ 200 mil e US$ 400 mil em restricted stock units (RSUs), ações que só são liberadas após quatro anos - desde que a pessoa permaneça na empresa durante todo o período. O problema é que, no mercado atual, rivais têm oferecido bem mais. Muito mais.
Apple em Cupertino: uma fortaleza sob pressão
A OpenAI e outras startups de IA não têm economizado para seduzir profissionais que hoje estão na Apple: para alguns perfis, as ofertas chegam a até US$ 1 milhão por ano em ações, apenas para convencer o candidato a “virar a esquina”. Diante desse patamar, o incentivo da Apple parece pequeno - sobretudo quando se observa quem está na mira.
O foco da concorrência recai sobre equipes que ajudaram a colocar no mundo produtos como iPhone, iPad, Apple Watch e Vision Pro. E dezenas de integrantes desses grupos já foram convencidos de que permanecer em Cupertino não é, necessariamente, a opção mais vantajosa no cenário atual.
São especialistas formados em uma cultura conhecida pela obsessão com detalhes e pela capacidade de tirar do papel um produto físico que precisa escalar - não para vender algumas unidades, mas para chegar ao mercado em volumes gigantescos. Eles carregam o hardware no DNA: um conhecimento industrial e de desenvolvimento de produto que a OpenAI e outras empresas desejam intensamente.
Esse é um tipo de competência que a Apple levou décadas para consolidar - e não pretende ver esse patrimônio humano escorrer pelos dedos. Ao distribuir os pagamentos ao longo de quatro anos, Cupertino tenta garantir que as equipes permaneçam engajadas nas próximas gerações de iPhone, apostando também que o vínculo com a cultura interna complete o trabalho.
Ao mesmo tempo, o fato de a empresa estar nessa posição hoje expõe uma realidade desconfortável: gênios não ficam “presos” por correntes, ainda que essas correntes sejam de ouro, travadas por vesting e acompanhando o Nasdaq.
Por que RSUs e vesting viraram arma na guerra por talentos de IA
O uso de restricted stock units como ferramenta de retenção é comum no Vale do Silício: o mecanismo cria um incentivo de longo prazo e reduz a tentação de sair no curto prazo. Na prática, porém, quando concorrentes oferecem pacotes recorrentes e muito mais elevados, o efeito do vesting perde força - especialmente para profissionais com alta empregabilidade e acesso imediato a propostas melhores.
Além do dinheiro, há um componente estratégico: startups de IA que querem construir dispositivos e experiências de ponta precisam de gente que já tenha vivido o ciclo completo de criação, industrialização e lançamento de hardware de massa. Para esse tipo de empresa, contratar alguém que participou do desenvolvimento de iPhone, iPad, Apple Watch ou Vision Pro pode encurtar anos de tentativa e erro - o que ajuda a explicar o apetite por talentos que hoje estão (ou estavam) na Apple.
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